Ecologia

Plantas enviam cerca de 13 bilhões de t de CO2e por ano ao micélio micorrízico: um fluxo, não um estoque

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Fungos

Uma revisão quantitativa de 2023 estima que as plantas terrestres direcionam ao micélio dos fungos micorrízicos 3,58 bilhões de toneladas de carbono por ano, ou 13,12 bilhões de t de CO2e, cerca de 36% das emissões fósseis de 2021. É um fluxo anual, não um estoque: o estudo não mediu quanto desse carbono fica no solo nem por quanto tempo.

Fungos micorrízicos vivem associados às raízes de quase todas as plantas terrestres. Eles estendem filamentos (hifas) pelo solo, levam fósforo e nitrogênio à planta e recebem em troca açúcares e gorduras da fotossíntese. A pergunta é quanto desse carbono vai para o fungo. O estudo expressa o desvio como fração da produtividade primária líquida (NPP), o carbono que a vegetação fixa por ano além do que gasta na própria respiração. Em média, 6,2% da NPP iria para fungos arbusculares (AM), 13,1% para ectomicorrízicos (EcM) e 3,5% para ericoides (ErM). Aplicadas aos mapas globais de NPP, essas frações dão o total anual. Gt é gigatonelada, um bilhão de toneladas; CO2e é a unidade que converte carbono em CO2 equivalente (1 unidade de C = 3,67 de CO2).

Poucas espécies, grande parte do fluxo

Só cerca de 2% das espécies de plantas formam ectomicorrizas (pinheiros, carvalhos, faias), mas cobrem mais de 25% da vegetação. Pela tabela do estudo, 2,47 dos 3,58 Gt C por ano, cerca de 69% (cálculo nosso), iriam para esses fungos.

Como sabemos: marcar o carbono e seguir o rótulo

A alocação ao fungo é medida com carbono marcado. A planta recebe CO2 com 14C (radioativo) ou 13C (estável) e, depois, o pesquisador mede quanto rótulo aparece nas hifas, em compartimentos do solo sem raízes. A alocação é a razão entre o rótulo no micélio e o assimilado pela planta. Os experimentos com 14C duraram de horas a dias, em vasos ou in vitro; os com 13C, meses a anos, sobretudo no campo. O 14C, numa câmara selada, permite contabilizar todo o rótulo; o 13C, ao ar livre, não deixa fechar essa conta.

Da porcentagem aos bilhões de toneladas

O estudo juntou 194 conjuntos de dados e calculou médias por tipo de micorriza: 6,2% da NPP para fungos arbusculares, 13,1% para ectomicorrízicos, 3,5% para ericoides. Depois, usou mapas de satélite da NPP e mapas de onde cada tipo de micorriza domina e multiplicou. Resultado: 1,07 Gt C por ano para os arbusculares, 2,47 para os ectomicorrízicos e 0,03 para os ericoides, no total 3,58 Gt C, ou 13,12 Gt de CO2e. Como o total de NPP da tabela é 53,58 Gt C por ano, o fluxo equivale a cerca de 6,7% dela (cálculo nosso).

Fluxo não é estoque: o que a manchete do 'armazena' deixa de fora

O carbono que entra no micélio tem destinos diferentes: parte volta como CO2 pela respiração do fungo, parte fica na necromassa (o fungo morto), que pode se ligar a minerais do solo. O artigo diz que grande parte provavelmente se perde e que o tempo de permanência não foi estimado. Por isso 13 bilhões de t por ano é quanto passa pelo micélio, não quanto fica. As notas de divulgação usaram 'armazena', o que sugere um estoque.

Onde a estimativa é frágil

Os autores listam os limites: só o micélio externo foi contado, o que subestima o fluxo total; muitas medições são de um só momento; faltam dados de África, Oceania e Sudeste Asiático; os estudos misturam vasos, cultura in vitro e campo, e o campo deu valores cerca de três vezes maiores que o vaso nos fungos arbusculares. Plantas lenhosas de micorriza arbuscular tiveram só seis conjuntos de dados. O próprio artigo diz que o total pode estar acima ou abaixo do real.

Como sabemos

Números e limites conferidos no texto integral do artigo; é uma estimativa de revisão com dados esparsos e sem a parte que importa para o clima, o tempo de permanência no solo.

Fontes

  1. Current Biology (cópia em acesso aberto: White Rose Research Online, Universidade de Sheffield) — Mycorrhizal mycelium as a global carbon pool
    Hawkins, H.-J., Cargill, R.I.M., Van Nuland, M.E., Hagen, S.C., Field, K.J., Sheldrake, M., Soudzilovskaia, N.A., Kiers, E.T. · 2023-06-05 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2023.02.027
  2. University of Sheffield — Fungi stores a third of carbon from fossil fuel emissions and could be essential to reaching net zero
    University of Sheffield · 2023-06-05 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Nature Communications — Global mycorrhizal plant distribution linked to terrestrial carbon stocks
    Soudzilovskaia, N.A. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-019-13019-2
  4. ScienceDaily — Fungi stores a third of carbon from fossil fuel emissions and could be essential to reaching net zero, new study reveals
    University of Sheffield (via ScienceDaily) · 2023-06-05 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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