Zoologia
O canto das jubarte muda em ondas: canções novas cruzaram o Pacífico Sul, de população em população, por 11 anos
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Assuntos: Jubarte
Só os machos da jubarte (Megaptera novaeangliae) cantam, e todos os machos de uma população cantam a mesma versão. No Pacífico Sul, um estudo seguiu a troca dessa versão ao longo de 11 anos: várias canções novas se espalharam de forma repetida e em uma só direção, como ondulações culturais, para o leste, pelas populações do Pacífico ocidental e central. Foi o primeiro registro de uma mudança cultural repetida e dinâmica em escala tão grande.
Na maior parte do mundo, o canto da jubarte muda devagar, um pouco a cada ano. No Pacífico Sul acontece também outra coisa: as chamadas revoluções do canto, em que uma população troca por completo a sua canção por outra, vinda de uma vizinha. O trabalho de Garland e colegas, publicado em 2011, reuniu gravações de populações do leste da Austrália, da Nova Caledônia, de Tonga, da Samoa Americana, das Ilhas Cook e da Polinésia Francesa. Em 2022, outra equipe encontrou temas do canto da Polinésia Francesa, gravados entre 2016 e 2018, no canto do Equador em 2018. Os autores veem nisso indício de que a transmissão chegou ao leste do oceano. Ninguém demonstrou ainda por que uma população abandona a própria canção.
Uma música com estrutura de camadas
O canto da jubarte é hierárquico: unidades formam frases, frases formam temas e temas formam a canção completa. Os pesquisadores comparam temas entre populações para saber se uma canção foi herdada de uma vizinha.
Evolução lenta e revolução rápida
Em geral, os machos de uma população cantam a mesma versão, e ela se modifica aos poucos a cada ano. Esse é o modo gradual, que predomina no Hemisfério Norte. No Pacífico Sul, porém, aparece também o modo revolucionário: uma população troca toda a sua canção por outra, introduzida por uma vizinha, de forma rápida e completa, segundo os autores do estudo de 2022.
A rota de oeste para leste
O estudo de 2011 acompanhou populações do leste da Austrália à Polinésia Francesa, passando por Nova Caledônia, Tonga, Samoa Americana e Ilhas Cook. As canções novas apareceram nas populações do oeste e seguiram para o leste, de forma repetida e em uma só direção, ao longo de 11 anos. Os autores chamam o padrão de ondulações culturais.
Do Pacífico central ao Equador
Em 2022, pesquisadores compararam o canto da Polinésia Francesa (2016 a 2018) com o do Equador (2018) e encontraram temas coincidentes. Isso sugere que a transmissão chegou ao leste do Pacífico Sul, e que há conexão vocal por toda a bacia oceânica. Os autores apontam ainda a possibilidade de transmissão ao redor de todo o Hemisfério Sul, algo que ainda precisa ser testado.
O que ainda não se sabe
Os trabalhos descrevem o caminho das canções, mas não explicam por que uma população troca de canção. Um modelo computacional indica que populações maiores tendem a transmitir canções às menores vizinhas, mas isso é simulação, não observação. Também continua em aberto qual é a função exata do canto: atrair fêmeas, organizar socialmente os machos, ou ambos.
Como sabemos
Os fatos centrais vêm de artigos revisados por pares em Current Biology (2011), Royal Society Open Science (2022) e Phil. Trans. B (2021).
- Fato estabelecido: Só os machos de jubarte cantam; o canto é estereotipado e repetitivo. [1] [2]
- Fato estabelecido: Todos os machos de uma população seguem a versão atual do canto. [1]
Vale para a maioria dos machos, segundo f2 (most males). - Interpretação: O canto serve à seleção sexual, por atrair fêmeas e/ou organizar socialmente os machos. [1]
Os autores escrevem mate attraction and/or male social sorting: a função exata segue em aberto. - Evidência forte: Várias canções se espalharam de forma rápida, repetida e em uma só direção, para leste, pelas populações do Pacífico Sul ocidental e central, ao longo de 11 anos. [1]
- Fato estabelecido: Foi o primeiro registro de mudança cultural repetida e dinâmica em várias populações numa escala geográfica tão grande. [1]
Afirmação dos autores em 2011. - Evidência forte: No Pacífico Sul, revoluções do canto levaram à substituição rápida e completa de uma canção por outra vinda de população vizinha. [2]
- Evidência forte: As canções se espalharam do leste da Austrália até a Polinésia Francesa. [2]
- Fato estabelecido: Temas do canto da Polinésia Francesa (2016 a 2018) coincidiram com temas do canto do Equador em 2018. [2]
Resultado de análise de similaridade com três anos de dados. - Interpretação: A coincidência sugere transmissão contínua para o leste, até o Equador. [2]
Os autores usam o verbo sugerir. - Consenso científico: No Hemisfério Norte o canto muda de forma gradual; no Sul, ocorrem revoluções. [3]
- Fato estabelecido: O canto tem estrutura hierárquica: unidades, frases, temas e canção. [3]
- Hipótese: Em modelo computacional, populações maiores tendem a transmitir canções às menores vizinhas. [3]
Resultado de modelagem, não observação direta.
Fontes
- Current Biology (Garland et al., 2011), PMID 21497089 — Dynamic horizontal cultural transmission of humpback whale song at the ocean basin scale
consultada em 06/10/2026 - Royal Society Open Science (Schulze et al., 2022), PMID 36061519 — Humpback whale song revolutions continue to spread from the central into the eastern South Pacific
consultada em 06/10/2026 - Philosophical Transactions of the Royal Society B (Zandberg et al., 2021), PMC — Global cultural evolutionary model of humpback whale song
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria ampliada: +1 imagem(ns)
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