Zoologia

Como se conta uma onça sem tocá-la: câmeras de armadilha, rosetas e captura-recaptura

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

Câmeras de armadilha fotografam as onças que passam, e cada animal é reconhecido pelo padrão de rosetas da pelagem. Um modelo de captura-recaptura usa a frequência com que os mesmos indivíduos reaparecem para estimar os que nunca apareceram. O resultado, em indivíduos por 100 km², vem sempre com um intervalo de incerteza, às vezes muito largo.

A captura-recaptura nasceu para animais pegos, marcados e soltos. Com onças, a 'captura' é uma foto e a 'marca' é a própria pelagem: para cada indivíduo identificado, registra-se em quais câmeras e em quais ocasiões ele apareceu (a 'história de captura'). Se as fotos repetem os mesmos animais, poucos escaparam; se quase todas mostram animais novos, deve haver muitos ainda não vistos. O modelo converte isso em número de indivíduos e, dividido pela área efetivamente amostrada, em densidade. Densidade, aqui, é indivíduos por 100 km², e não o total de um estado ou bioma. A onça-pintada tem rosetas (manchas em forma de anel, com pintas dentro), não listras como o tigre; é o desenho das rosetas que se compara.

Uma foto vale como 'captura'

Nenhum animal é tocado: a 'captura' é uma foto independente, e a 'recaptura' é outra foto do mesmo indivíduo. No Parque Estadual do Rio Doce (MG), 7.431 noites de câmera em 2016/17 renderam apenas 16 registros independentes de onça.

O que o método assume

Dois pressupostos sustentam o modelo clássico: a população é fechada durante a pesquisa e todo indivíduo tem alguma chance de ser fotografado. Há ainda o problema da área: o cálculo de densidade exige saber de que território vêm os animais fotografados. Os modelos clássicos resolvem isso somando ao mapa das câmeras uma faixa ligada à distância percorrida pelos animais, escolha em parte arbitrária. Os modelos espaciais estimam o centro da área de vida de cada onça e dispensam essa faixa.

Três estudos, três tamanhos de incerteza

No Rio Doce (MG), 16 registros em 2016/17 deram 0,11 por 100 km² e intervalo de 0,02 a 0,69; em 2020, com 82 registros e 9 onças identificadas, 1,61 e intervalo de 0,79 a 3,27. Na Costa Rica, 19 onças deram 2,6 fêmeas (1,7 a 4,0) e 5,0 machos (3,4 a 7,4) por 100 km². No México, 1,29 (0,93 a 1,70). Quanto mais fotos e animais, mais estreita a faixa; mas ela nunca desaparece.

Onde o método pode errar

Uma comparação anterior com telemetria por satélite apontou superestimativa de 70% no modelo clássico. Na Costa Rica, a única fêmea com coleira apareceu em só 13 câmeras apesar de a rede cobrir quase toda a sua área de vida, o que sugere (hipótese dos autores) viés pela posição das câmeras e pelo sexo. No México, fotos de baixa qualidade, sem identificação possível, foram aproveitadas por um modelo especial em vez de descartadas.

O que isso diz sobre o Brasil

A estimativa mais direta lida aqui é a do Parque Estadual do Rio Doce, na Mata Atlântica, onde a densidade foi baixa e o intervalo, largo. Segundo o estudo colombiano, outros autores relataram valores muito mais altos no sudoeste da Amazônia (4,4 ± 0,7) e no Pantanal (até 6,7 ± 1,1). Esses dois números vêm de segunda mão; antes de citá-los sozinhos, convém abrir os estudos originais.

Como sabemos

Método e premissas bem documentados em quatro estudos abertos, mas as estimativas do Pantanal e da Amazônia e o viés de 70% vêm de segunda mão.

Fontes

  1. Animals (MDPI) — The Use of Camera Traps and Auxiliary Satellite Telemetry to Estimate Jaguar Population Density in Northwestern Costa Rica
    Montalvo, V. H.; Sáenz-Bolaños, C.; Cruz-Díaz, J. C.; Carrillo, E.; Fuller, T. K. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/ani12192544
  2. PLOS ONE — Jaguar Densities across Human-Dominated Landscapes in Colombia: The Contribution of Unprotected Areas to Long Term Conservation
    Boron, V.; Tzanopoulos, J.; Gallo, J.; Barragan, J.; Jaimes-Rodriguez, L.; Schaller, G.; Payán, E. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0153973
  3. Ecology and Evolution (Wiley) — Jaguar Density at the Northeastern Limit of Its Distribution in Mexico
    Manuel-de la Rosa, Z. A.; Soria-Díaz, L.; Barriga-Vallejo, C.; Mendoza-Gutiérrez, G. R.; Martínez-González, N.; Astudillo-Sánchez, C. C.; Jiménez, J. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ece3.72932
  4. Ecology and Evolution (Wiley) — Density and habitat use of one of the last jaguar populations of the Brazilian Atlantic Forest: Is there still hope?
    de Azevedo, F. C. C.; Pasa, J. B.; Arrais, R. C.; Massara, R. L.; Widmer, C. E. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ece3.8487
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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