Ecologia

Há mais biodiversidade dentro das áreas protegidas? 10,6% mais espécies por amostra e limites da comparação

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

Numa análise de 156 estudos (Gray et al., 2016), amostras dentro de áreas protegidas tiveram 10,6% mais espécies e 14,5% mais indivíduos que amostras fora. Mas é uma comparação espacial: não mostra o que ocorreria sem proteção, e a diferença é atribuída sobretudo ao tipo de uso da terra, não à proteção em si.

Quatro medidas aparecem nessas comparações. Riqueza é o número de espécies numa amostra; abundância, o número de indivíduos. A riqueza rarefeita é o número esperado de espécies se cada local tivesse rendido o mesmo número de indivíduos: separa "mais espécies porque há mais indivíduos" de "mais espécies para o mesmo número de indivíduos". A endemicidade, no estudo, é o inverso do tamanho médio de distribuição das espécies da comunidade. O problema central é o contrafactual: o que existiria no local se ele não tivesse sido protegido. Como isso não se observa, comparam-se áreas protegidas com áreas vizinhas, o que só vale se as duas fossem parecidas antes.

Uma efetividade de 41%, com intervalo de 2 a 81%

Gray et al. extrapolaram os modelos para toda a rede e estimaram 41% de efetividade para a riqueza de espécies, numa escala em que 0% é igual a locais desprotegidos. O intervalo de confiança é tão largo (2 a 81%) que o número indica ordem de grandeza, não medida precisa.

Como sabemos: o desenho da comparação

Gray e colegas usaram o banco PREDICTS, que reúne dados de espécies de estudos que compararam locais sob diferentes pressões humanas. Cruzaram as coordenadas dos locais com o World Database on Protected Areas e ficaram com 156 estudos que tinham locais dentro e fora de áreas protegidas: 1.939 dentro e 4.592 fora de 359 áreas, em 48 países. Modelos de efeitos mistos descontaram diferenças de método entre estudos. Os locais amostrados são só 0,18% da rede de áreas protegidas.

Por que a diferença não é só efeito da proteção

Áreas protegidas não estão espalhadas ao acaso. Em 147 países, as redes nacionais tendem a ficar em altitudes maiores, declives mais íngremes e longe de estradas e cidades, onde a terra seria menos convertida mesmo sem proteção. Gray et al. incluíram elevação, declividade e aptidão agrícola como covariáveis, e a maior parte do efeito restante se atribui ao uso da terra. Se a diferença vem da escolha do lugar ou do manejo, a comparação espacial não separa.

O contrafactual que falta

O ideal seria comparar cada área com o que teria acontecido sem a proteção. Coetzee et al. (86 estudos locais) reconhecem que o tamanho de efeito que calcularam não considera esse cenário, e Gray et al. dizem que seus dados não têm cobertura geográfica para pareamento individual. O pareamento de locais é mais comum em estudos de desmatamento, que são um indicador indireto da biodiversidade.

Onde o resultado muda

Em vegetação primária e secundária a proteção pouco muda a biodiversidade local; em plantações e cultivos, o efeito aparece, mas só nos trópicos. Pareando os locais pelo mesmo uso da terra, não houve efeito significativo. Na metanálise de Coetzee et al. o efeito não foi significativo para plantas nem para a América do Sul; para o Brasil, só há um estudo citado de segunda mão, sobre reservas privadas, sem base para generalizar.

O que as áreas protegidas não cobrem

A comparação mede abundância e riqueza locais, não tudo o que uma área protegida deve proteger. Gray et al. não acharam benefício consistente para espécies de distribuição restrita. Uma análise de lacunas de 2004 concluiu que a rede era incompleta para representar a diversidade de espécies. Em 60 reservas tropicais, cerca de metade foi efetiva ou razoável, e o que ocorre logo fora da reserva pesou quase tanto quanto o de dentro.

Como sabemos

Os números vêm de artigos lidos em texto integral, mas a conclusão causal é limitada pelo desenho observacional e dois dos cinco artigos foram lidos só no resumo.

Fontes

  1. Nature Communications — Local biodiversity is higher inside than outside terrestrial protected areas worldwide
    Gray, C. L. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms12306
  2. PLoS ONE — Local scale comparisons of biodiversity as a test for global protected area ecological performance: a meta-analysis
    Coetzee, B. W. T.; Gaston, K. J.; Chown, S. L. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0105824
  3. PLoS ONE — High and far: biases in the location of protected areas
    Joppa, L. N.; Pfaff, A. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0008273
  4. Nature — Averting biodiversity collapse in tropical forest protected areas
    Laurance, W. F. et al. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature11318
  5. Nature — Effectiveness of the global protected area network in representing species diversity
    Rodrigues, A. S. L. et al. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature02422
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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