Ecologia

Quanto desmatamento uma área protegida evita? Pareamento, viés de localização e a evidência na Amazônia

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Conservação com evidências

Num estudo com pareamento estatístico na Amazônia Legal, as áreas protegidas evitaram o desmatamento de cerca de 2% da floresta protegida em cada período de quatro anos, metade do que uma comparação simples sugeriria (cerca de 4%). A diferença vem da localização: elas tendem a ficar longe de estradas e cidades, onde a pressão para desmatar já é baixa.

Uma área protegida é um território com limites e regras legais de uso, como parques, reservas e, no estudo principal deste post, também terras indígenas. Ver a floresta de pé dentro dela não prova que a proteção funcionou: se aquele trecho nunca seria derrubado, a área não fez diferença. O efeito é a diferença entre o que ocorreu e o que teria ocorrido sem proteção (o contrafactual), que não pode ser observado e precisa ser estimado com áreas desprotegidas parecidas. É o papel do pareamento (matching): para cada pixel protegido, busca-se um pixel não protegido com características semelhantes, como distância a estradas e cidades, solo e relevo. Como o PRODES mede o desmatamento e por que a série mudou ao longo do tempo estão nos posts ligados abaixo.

Floresta de pé dentro da área não é efeito

Em 2000–2004, o desmatamento foi da ordem de 0,5% dentro das áreas protegidas e acima de 5% fora delas. Ao comparar só com terras parecidas, a parte atribuível à proteção caiu para pouco mais de 2% da floresta protegida.

Como sabemos: pareamento pixel a pixel

Pfaff e colegas usam o desmatamento do PRODES em 2000–2004 e 2004–2008. Primeiro, um modelo estatístico (probit) estima a probabilidade de cada pixel estar protegido a partir da distância a estradas (1985) e a cidades (1991), da distância à borda da floresta, do solo, da chuva, da declividade, da vegetação e do estado. Depois, cada pixel protegido é comparado com o pixel desprotegido de probabilidade mais parecida. As distâncias foram medidas antes da maior parte da proteção, para não refletir o efeito dela. Após o pareamento, as diferenças médias entre os grupos ficaram, em geral, entre zero e 10%.

Viés de localização: por que a comparação simples engana

Segundo Joppa e Pfaff (2009), em 147 países as redes de áreas protegidas ficam, em maioria significativa, em terras altas, íngremes e distantes de estradas e cidades. Na Amazônia, o padrão se repete: as áreas criadas antes de 2000 ficavam mais longe de estradas que as terras desprotegidas, e o desmatamento foi da ordem de 0,5% dentro delas e acima de 5% fora. Parte dessa diferença vem de onde a proteção foi colocada, não do que ela fez, e por isso a estimativa pareada é cerca de metade da simples.

De que depende o efeito: a pressão para desmatar

Na lógica do modelo de uso da terra, a proteção só evita o corte do que seria cortado sem ela. Por isso o efeito acompanha a pressão. Dividindo as áreas por distância a estradas, as mais próximas evitaram cerca de 5 vezes (2000–2004) e 3 vezes (2004–2008) mais desmatamento que as distantes. No leste da Amazônia Legal, o efeito foi sempre pelo menos dez vezes o do oeste. No segundo período o efeito médio foi menor, porque outras políticas já tinham reduzido o desmatamento.

Tipo de gestão e terras indígenas

Nolte e colegas analisaram 292 áreas protegidas da Amazônia brasileira. Para um mesmo nível de pressão, as de proteção integral evitaram mais desmatamento que as de uso sustentável, e as terras indígenas foram particularmente eficazes onde a pressão era alta. Entre 2000 e 2005, as de proteção integral foram criadas mais em locais de alta pressão que as demais. Em escala pantropical, Bebber e Butt (2017) acharam que fatores locais pesam mais que a designação. São resultados de métodos e escalas diferentes, e as terras indígenas terão artigo próprio.

O que o método não resolve: variáveis ocultas e vazamento

O pareamento equilibra só o que foi medido. Pfaff e colegas reconhecem que fatores não observados podem afetar a proteção e o desmatamento; o teste de sensibilidade de Rosenbaum indica robustez, sem eliminar a dúvida. O outro limite é o vazamento (leakage), o deslocamento do desmatamento para fora da área. Na Costa Rica, o vazamento foi desprezível (Andam et al., 2008). Na escala tropical, Bebber e Butt não detectaram vazamento local, mas o de longa distância não foi quantificado, e eles tratam a estimativa como limite superior.

Como sabemos

O núcleo (pareamento, viés de localização e dependência da pressão) está em texto integral de um estudo, com apoio de outros três; as afirmações sobre tipo de gestão e terras indígenas vêm só de resumos.

Em debate: Nolte et al. (2013), na Amazônia brasileira e condicionando à pressão, acham que as de proteção integral evitam mais que as de uso sustentável; Bebber e Butt (2017), em escala pantropical, dizem que o efeito das designações é difícil de interpretar e que fatores locais pesam mais. Os estudos diferem em método, região e escala.

Fontes

  1. PLoS ONE — Protected Areas' Impacts on Brazilian Amazon Deforestation: Examining Conservation – Development Interactions to Inform Planning
    Pfaff, A.; Robalino, J.; Herrera, D.; Sandoval, C. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0129460
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Measuring the effectiveness of protected area networks in reducing deforestation
    Andam, K. S.; Ferraro, P. J.; Pfaff, A.; Sanchez-Azofeifa, G. A.; Robalino, J. A. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0800437105
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Governance regime and location influence avoided deforestation success of protected areas in the Brazilian Amazon
    Nolte, C.; Agrawal, A.; Silvius, K. M.; Soares-Filho, B. S. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1214786110
  4. PLoS ONE — High and far: biases in the location of protected areas
    Joppa, L. N.; Pfaff, A. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0008273
  5. Scientific Reports — Tropical protected areas reduced deforestation carbon emissions by one third from 2000–2012
    Bebber, D. P.; Butt, N. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-14467-w
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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