Geografia

Aquífero Guarani: volume armazenado, recarga e volume explotável são três números diferentes

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Água na Terra

O Guarani armazena, segundo uma estimativa de 1997, cerca de 37 mil km³ de água, mas isso é estoque acumulado, não o que se renova. A recarga anual foi calculada em 160 km³/ano nessa mesma estimativa; um modelo regional de 2020 chega a apenas 0,6 km³/ano. O volume explotável, de 40 km³/ano, é uma fração de planejamento (25% da recarga clássica), não um limite medido.

Três grandezas costumam ser confundidas. Volume armazenado (reserva permanente) é toda a água que ocupa os poros da rocha, acumulada ao longo de milhares de anos. Recarga é a água que chega ao aquífero por ano, vinda da chuva que se infiltra; sustenta o que é renovável. Volume explotável é a parte que se pode retirar por poços sem causar danos, e depende da recarga, mas também da distância entre poços e do rebaixamento do nível da água. Como o Guarani está quase todo coberto por basalto, a recarga direta ocorre nas faixas de afloramento; o resto chegaria por infiltração lenta através do basalto. Medir esses fluxos é difícil, e por isso os números publicados divergem muito.

Chuva que entra não é chuva que chega ao Guarani

Numa bacia de afloramento perto de Brotas (SP), medições de 2004 a 2007 mostraram que de 14% a 38% da chuva chegava ao lençol freático raso, mas só 0,4% a 2,4% seguia para o aquífero regional abaixo.

Estoque, recarga e explotável: o que cada número mede

Na estimativa de 1997, o Guarani tem reservas permanentes da ordem de 37 mil km³, uma recarga média anual de 160 km³/ano e um potencial explotável de 40 km³/ano. O primeiro é um volume (estoque), os outros dois são fluxos por ano. Dividir o estoque pela recarga dá cerca de 230 anos (conta nossa), mas isso não é um prazo de esgotamento: a água armazenada não é toda recuperável, e retirar mais do que entra rebaixa o nível aos poucos. Já o explotável de 40 km³/ano é 25% da recarga, uma regra de planejamento.

Como se estima a recarga, e por que é tão difícil

Não existe aparelho que meça a recarga profunda direto. Rebouças (1976) calculou: 15% da chuva sobre a área de afloramento deram 22 km³/ano, e a infiltração pelo basalto, com valores de condutividade adotados, 138 km³/ano. Na bacia do Ribeirão da Onça, Wendland e colegas (2015) mediram a variação do nível d'água em poços e a vazão do ribeirão, e acharam recarga direta de 14% a 38% da chuva, mas só 0,4% a 2,4% descendo ao aquífero regional, dentro da margem de erro das medições. Lisímetros, modelos de fluxo e isótopos medem partes diferentes do problema.

Duas ordens de grandeza de diferença

O modelo regional de 2020 estima a recarga efetiva em cerca de 0,6 km³/ano (4,9 mm/ano), contra os 160 km³/ano clássicos, uma razão de cerca de 267 (conta nossa). O resumo diz que a recarga se restringe a faixas estreitas de afloramento e que boa parte sai para bacias locais. As fontes lidas não explicam a diferença; o peso da infiltração indireta pelo basalto, calculada com parâmetros adotados, é uma hipótese nossa. Se o valor menor se confirmar, o volume que se pode retirar sem esvaziar o estoque seria bem menor que 40 km³/ano.

Uso e riscos: mais perto da borda do que do centro

Em 1997, mais de dois mil poços exploravam o aquífero nas bordas, a 100 a 300 m de profundidade, sem política de gestão. A recarga ocorre justamente nos afloramentos, onde o aquífero é mais vulnerável à poluição, e nascentes da região de Brotas dependem dele: cerca de 80% da vazão de uma nascente monitorada vinha de água subterrânea. Um artigo de 2023 cita rebaixamento de nível em poços do Guarani. Os dados para dizer onde há sobrexplotação, e quanto, não estão nas fontes que lemos.

Como sabemos

Os números clássicos e as medições locais vêm de textos lidos na íntegra; a estimativa regional recente só foi lida no resumo, e a explicação da divergência é interpretação nossa.

Em debate: A avaliação clássica (Rebouças, 1976; Rocha, 1997) dá 160 km³/ano, a maior parte por infiltração indireta pelo basalto. Um modelo regional de 2020 estima cerca de 0,6 km³/ano. As fontes lidas não reconciliam os dois números, e o volume explotável depende de qual se adota.

Fontes

  1. Estudos Avançados, v. 11, n. 30 · Instituto de Estudos Avançados, Universidade de São Paulo — O grande manancial do Cone Sul
    Rocha, G. A. · 1997 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Águas Subterrâneas, v. 19, n. 2 (ABAS) · Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo — Uso de lisímetro para avaliação da infiltração em zona de afloramento da Formação Botucatu, na região de São Carlos – SP
    Cunha, A. T. da; Wendland, E. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Anais da Academia Brasileira de Ciências, v. 87, n. 2 · Universidade de São Paulo — Recharge contribution to the Guarani Aquifer System estimated from the water balance method in a representative watershed
    Wendland, E.; Gomes, L. H.; Troeger, U. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/0001-3765201520140062
  4. CUAHSI HydroShare (catálogo GroMoPo) — GroMoPo metadata for Guarani Aquifer System model (resumo do artigo Regional groundwater modeling of the Guarani Aquifer System, Water, 2020)
    Registro do modelo de Gonçalves, R.; Teramoto, E.; Chang, H. · 2020 · Base de dados · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/w12092323
  5. Isotopes in Environmental and Health Studies, v. 60, n. 4 · Universidade Estadual Paulista (Unesp) — How much rainwater contributes to a spring discharge in the Guarani Aquifer System: insights from stable isotopes and a mass balance model
    Donadelli Sacchi, M.; Lilla Manzione, R.; Gastmans, D. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1080/10256016.2024.2397469
  6. Águas Subterrâneas, v. 37, n. 2 (ABAS) · UFTM e Unesp — Utilização do GRACE no cálculo da recarga das águas subterrâneas no Sistema Aquífero Bauru na Bacia do Rio São Jerônimo - Triângulo Mineiro
    Campos, J. C. V.; Gastmans, D.; Santarosa, L. V. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.14295/ras.v37i2.30168
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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