Ecologia

Anéis de fadas: o micélio cresce para fora e some do centro; o que o impede de voltar ainda é debatido

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Fungos

Os anéis de cogumelos e as faixas circulares de grama marcam um micélio que se expande do centro para fora e quase desaparece atrás da frente de crescimento. Em Marasmius oreades, um estudo de 2026 achou DNA do fungo na faixa de crescimento e quase nenhum dentro do anel. Por que o centro não é recolonizado segue em aberto: a autoinibição por DNA do próprio fungo reproduz o anel em modelo, mas sem prova química.

Micélio é a rede de filamentos finos (hifas) com que um fungo cresce no solo; o cogumelo é só o órgão reprodutivo. Num anel de fadas, o micélio parte de um ponto e avança em todas as direções, formando uma frente que se alarga a cada estação. A frente altera o solo e a grama: pode deixar uma faixa de grama morta, uma de grama mais verde, as duas ou nenhuma, e os cogumelos, quando brotam, desenham o círculo. A maioria dos fungos que fazem isso são basidiomicetos, de vida livre ou ligados a raízes de árvores, como nas micorrizas. O nome vem de crenças populares; a ideia de um fungo subterrâneo como causa aparece já em 1807. Não se confunde com os "círculos de fadas" da Namíbia, que não são causados por fungos.

Um anel de 800 m com cerca de 700 anos?

A idade de anéis grandes é estimada dividindo o diâmetro pelo avanço anual. Para um anel de 800 m de Infundibulicybe geotropa, a revisão cita cerca de 700 anos. Mas o crescimento pode parar por anos seguidos, e então a conta superestima a idade.

Três tipos clássicos de anel

Em 1917, Shantz e Piemeisel dividiram os anéis de gramado em três tipos pelo efeito na vegetação. No tipo 1, há uma faixa estreita de solo nu ou grama inibida e, por dentro, uma faixa de grama mais verde. No tipo 2, só a faixa mais verde, sem a zona morta. No tipo 3, a grama não muda, e o anel só aparece quando os cogumelos brotam. Subtipos do tipo 1 foram propostos depois, mas as fontes lidas os descrevem de formas diferentes, e por isso não os detalhamos.

Por que o micélio não volta ao centro

A falta de nutrientes no centro é a explicação mais antiga, mas um experimento de inversão de torrões contraria: Clitocybe nebularis não cresceu em solo que ele mesmo ocupara, mesmo com a matéria orgânica restabelecida. A hipótese mais discutida é a autoinibição por DNA do próprio fungo, que em simulação gerou o anel. Em encostas, a lavagem desse DNA explicaria arcos em vez de anéis. Mas não há evidência química de que os fungos de anel façam isso.

Como sabemos: medir a borda e ler o DNA do solo

Por décadas, o anel foi medido pela superfície: marca-se a borda externa, mede-se o avanço numa estação e, com o diâmetro, estima-se a idade. Em 2026, pesquisadores sequenciaram o DNA de amostras de solo de dois anéis de Marasmius oreades, num cemitério de Uppsala: o DNA do fungo estava na faixa de crescimento e quase ausente dentro do anel. Depois, moveram blocos de solo e checaram o crescimento 14 meses depois. O resultado favorece uma inibição transitória atrás da frente, mas veio de só dois anéis e vários tratamentos foram inconclusivos.

O que o anel faz com o solo e com a grama

Na frente, o micélio degrada matéria orgânica; o solo fica mais ácido e mais seco, associado a hidrofobinas, proteínas que o fungo secreta, e mudam os níveis de amônio e nitrato. Gramíneas de raiz fina costumam morrer, plantas de raiz pivotante sobrevivem, e a comunidade se recupera com o tempo. A faixa verde é atribuída a nutrientes e a possíveis substâncias estimulantes. Um modelo de 2023 indica que a hidrofobicidade basta para a faixa morta, mas os mecanismos exatos seguem em estudo.

Como sabemos

Os fatos descritivos vêm de uma revisão de 2025, mas os mecanismos dependem de modelagem e de um experimento de 2026 em apenas dois anéis.

Em debate: Por que o micélio não recoloniza o centro do anel

Fontes

  1. IMA Fungus — Fungal fairy rings: history, ecology, dynamics and engineering functions
    Zotti, M.; Bonanomi, G.; Mazzoleni, S. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3897/imafungus.16.138320
  2. Scientific Reports — Process based modelling of plants-fungus interactions explains fairy ring types and dynamics
    Salvatori, N.; Moreno, M.; Zotti, M.; Iuorio, A.; Carteni, F.; Bonanomi, G.; Mazzoleni, S.; Giannino, F. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-46006-1
  3. Royal Society Open Science — Spatial structure and growth dynamics of fairy rings formed by Marasmius oreades
    Olsson, B.; Thoren, M. H.; Eriksson, O.; Johannesson, H. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rsos.260575
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos