Geografia
Alter do Chão: 86 mil km³ circula na imprensa; a estimativa revisada que achamos é de cerca de 33 mil km³
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Água na Terra
Dois números circulam para o aquífero Alter do Chão: 86,4 trilhões de m³ (86 mil km³), atribuído a um grupo da UFPA numa matéria de 2014, e cerca de 33 mil km³, de uma síntese revisada de 2013. Nenhum é medido: o segundo é área (410.000 km²) × espessura média (400 m) × porosidade (20%). Não achamos o estudo que sustente o primeiro.
O Alter do Chão é uma formação de arenitos e argilitos do Cretáceo, que aflora no Pará e no Amazonas e guarda água em seus poros. Ninguém mede o volume de um aquífero desse tamanho direto: calcula-se área × espessura × porosidade, com poucos poços e perfis geofísicos. O resultado é um volume armazenado, que não é o que se renova a cada ano (recarga) nem o que se pode retirar sem esgotar o sistema. O nome SAGA (Sistema Aquífero Grande Amazônia) vem de 2013 e reúne esse aquífero a outras unidades das bacias do Acre, Solimões e Marajó. Os autores o descrevem como proposta preliminar.
Mil vezes de diferença
Em Santarém, a tese de Tancredi (1996), citada em 2013, deu 86,55 km³ para 900 km². A cifra da imprensa é 86,4 trilhões de m³, ou 86.400 km³: mil vezes maior. É coincidência de dígitos que merece checagem.
Três números, três escalas
Souza et al. (2013) estimam cerca de 33.000 km³ só para o aquífero na Bacia do Amazonas. O trabalho de 2013 que propõe o SAGA soma 162.520 km³ em quatro bacias, e dá 37.900 km³ para a do Amazonas. A matéria da FAPESP de 2014 cita 86,4 trilhões de m³ (86.400 km³) para o Alter do Chão. Os dois primeiros usam porosidade de 20% e dizem que os dados são limitados; o terceiro não vem com artigo ou método.
Como sabemos: uma conta, não uma medição
Ninguém mediu esse volume direto. Os artigos multiplicam a área de ocorrência pela espessura e pela porosidade, com base em perfis de poços, sondagens e mapas geológicos. Cada fator é incerto: a área adotada por Souza et al. (410.000 km²) difere da citada da ANA (312.574 km²), e a espessura da formação chega a 1.250 m, contra 400 m de média na conta. Por isso as cifras servem como ordem de grandeza.
Um fator mil que pede checagem
Souza et al. citam que Tancredi (1996) obteve 86,55 km³ em Santarém, numa área de 900 km². Em metros cúbicos são 86,55 bilhões; a cifra de imprensa é 86,4 trilhões, mil vezes maior. Levantamos a hipótese de confusão de escala, mas ela é nossa: pode haver outro estudo que explique o número. Só o artigo ou o relatório de origem resolve.
Volume armazenado não é água disponível
O volume calculado inclui água de qualidade ainda pouco conhecida: os autores de 2013 citam sais acima de 1.000 mg/L a partir de 300 m em Urucu e ressalvam que a qualidade não entrou no cálculo do SAGA. Para exploração, o SAGA considera sobretudo até 500 a 600 m. Em Santarém, o que já se mede é a pressão local de poços sobre o aquífero urbano, e não o total. Este texto não afirma uso para consumo.
Como sabemos
Os números estão ancorados em dois documentos lidos na íntegra; a origem dos 86 mil km³ e a tese de 1996 não puderam ser conferidas.
Em debate: Estimativas publicadas variam de cerca de 33 mil km³ (só o aquífero, Bacia do Amazonas) a 162.520 km³ (SAGA, quatro bacias), e a cifra de 86 mil km³ não teve artigo localizado. Todas são cálculos de volume armazenado.
- Estimativa: Uma síntese hidrogeológica publicada em 2013 estima em cerca de 33.000 km³ a reserva de água do Sistema Aquífero Alter do Chão na Bacia do Amazonas. [1] Resumo
Contexto: Artigo revisado por pares da Geologia USP (recebido em 2012, aceito em novembro de 2012), com síntese de estudos anteriores e dados de poços em Urucu (AM). · Limitações: É uma estimativa regional de ordem de grandeza, feita com poucos dados diretos; os próprios autores dizem que estudos futuros podem mostrar valores diferentes. · Estimativa por cálculo, não medida direta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Os 33.000 km³ saem de uma conta de volume de rocha saturada: área de cerca de 410.000 km², espessura média de 400 m e porosidade efetiva de 20%. O produto dessas três grandezas (cálculo nosso: 410.000 km² × 0,4 km × 0,20) dá cerca de 32.800 km³. [1] Resultados e discussão, hidrogeologia
Contexto: Vale para o sistema na Bacia do Amazonas, com a área de ocorrência adotada pelos autores. · Limitações: O produto 410.000 × 0,4 × 0,20 é cálculo nosso, com os valores do artigo. O artigo cita a ANA (2005), que dá 312.574 km² de área para o sistema; com essa área o resultado seria menor. Porosidade efetiva e espessura médias são suposições aplicadas à área inteira. · Cálculo nosso conferido com os valores do artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores tratam o volume de saturação como ordem de grandeza da reserva permanente e dizem não ter dados suficientes para estimar o volume sob pressão. [1] Resultados e discussão, hidrogeologia
Contexto: Escolha metodológica do artigo para estimativas regionais. · Limitações: Reserva permanente é a água armazenada no sistema; não é o volume que se pode retirar nem o que se renova por ano. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A espessura da Formação Alter do Chão varia muito: na Bacia do Amazonas pode chegar a 1.250 m, bem acima dos 400 m de média usada na conta de 33.000 km³. [1] Geologia
Contexto: Espessura máxima da formação segundo a síntese; a espessura saturada de água doce é menor. · Limitações: Espessura da formação não é espessura de aquífero com água doce utilizável. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Em 2013, um grupo da UFPA e da UFC propôs o Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), que reuniria as bacias do Acre, Solimões, Amazonas e Marajó (1.305.000 km²), com reservas estimadas preliminarmente em 162.520 km³. [2] Quadro 2
Contexto: Trabalho apresentado em congresso (2013) pelos autores que propuseram o conceito de SAGA; o Alter do Chão é a unidade da Bacia do Amazonas dentro dele. · Limitações: O SAGA é uma proposta de integração de unidades de idades diferentes, não uma unidade geológica consensual; a Bacia do Amazonas aparece com 37.900 km³ nesse quadro, valor próximo do de Souza et al. e bem abaixo de 86.000 km³. · Proposta dos autores, não consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A conta do SAGA usa área das bacias, espessuras máximas e arenosas estimadas, porosidade média de 20% e um desconto de 10% para camadas arenosas não saturadas. [2] Estimativas de reservas
Contexto: Método descrito no próprio trabalho. · Limitações: Os autores afirmam que a área de ocorrência e a espessura ainda são preliminares, o que limita uma avaliação volumétrica mais precisa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os próprios autores do SAGA escrevem que a geometria do sistema em cada bacia ainda é preliminar e que a qualidade da água nas formações não entrou nos cálculos. [2] Estimativas de reservas
Contexto: Ressalvas dos autores do trabalho original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na linguagem do trabalho original, o SAGA está entre os maiores sistemas aquíferos do mundo; não o maior. Já um trabalho acadêmico posterior afirma que o Alter do Chão é considerado o maior do mundo, com 86 mil km³. [2] Resumo [5] Introdução
Contexto: Registra o que cada documento escreve; não confirma o ranking. Não encontramos fonte comparativa que sustente "maior do mundo". · Limitações: O segundo texto foi lido só no resumo e na introdução. Um ranking de aquíferos depende de como se define e se mede o volume, e as estimativas globais são pouco comparáveis. · Registro do que está escrito; o superlativo não foi confirmado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A cifra de 86,4 trilhões de m³ (86.400 km³) para o Alter do Chão aparece, na Agência FAPESP, atribuída a um estudo anterior do grupo da UFPA e da UFC em Santarém; a matéria não cita artigo nem método. [3] Texto da matéria
Contexto: Matéria de 27/08/2014 sobre apresentação na 66ª reunião da SBPC. Conversão (cálculo nosso): 86,4 trilhões de m³ = 8,64 × 10¹³ m³ = 86.400 km³, pois 1 km³ = 10⁹ m³. · Limitações: É divulgação institucional, não artigo. Não localizamos o estudo revisado por pares que traga esse número; por isso ele fica como número de imprensa. · Número de divulgação sem artigo localizado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Souza et al. (2013) citam que a tese de Tancredi (1996), em Santarém, obteve reserva permanente de 86,55 km³ para uma área de 900 km², espessura total de 480 m e porosidade efetiva de 20%. [1] Introdução
Contexto: Informação de segunda mão: segundo Souza et al., Tancredi (tese de doutorado, UFPA, 1996) é a fonte. A tese está digitalizada no repositório da UFPA sem texto pesquisável, e não pudemos conferi-la. · Limitações: Cálculo nosso com os valores citados: 900 km² × 0,48 km × 0,20 = 86,4 km³, compatível com os 86,55 km³ citados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os 86,4 km³ (cálculo nosso) de Santarém são mil vezes menores que 86.400 km³ (86,4 trilhões de m³). A coincidência dos dígitos levanta a hipótese de um erro de escala na passagem do estudo local para a matéria, mas nenhuma fonte que lemos afirma isso. [1] Introdução [3] Texto da matéria
Contexto: Comparação nossa entre dois números citados em fontes diferentes: o estudo local de Santarém e a cifra da matéria de 2014. · Limitações: Hipótese nossa, sem fonte que a confirme. Pode haver outro estudo, não localizado, que explique os 86,4 trilhões de m³. A tese de Tancredi não foi lida. · Hipótese de redação, não achado publicado. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os autores de 2013 apontam que, no Alter do Chão da Bacia do Solimões (Urucu), a água a partir de 300 m de profundidade sugere teor de sais acima de 1.000 mg/L, e que aquíferos mais profundos da Bacia do Amazonas podem ter água mais salgada. [1] Conclusões
Contexto: Dados de poucos poços na região de Urucu, a cerca de 650 km a sudoeste de Manaus; para a Bacia do Amazonas é inferência dos autores. · Limitações: Os autores qualificam as informações como poucas. O volume total, portanto, inclui água que talvez não seja doce. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Para o SAGA, os autores consideram que as reservas mais importantes para exploração estariam até 500 a 600 m de profundidade; abaixo de 1.000 m seriam reservas estratégicas, pouco consideradas nas condições atuais. [2] Estimativas de reservas
Contexto: Avaliação dos autores do SAGA, sem teste de produção que a comprove. · Limitações: Mostra que volume armazenado e água acessível são coisas distintas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Santarém, um estudo de 2026 com 212 poços do SIAGAS classificou a condição de exploração do aquífero Alter do Chão na área urbana e encontrou pior situação no aquífero livre do centro (16,03% da área em condição crítica). [4] Resumo
Contexto: Área urbana de Santarém (PA); análise espacial multicritério com dados de vazão específica, nível estático e tipo de aquífero. · Limitações: Estudo local sobre pressão de exploração; não mede o volume total do aquífero. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Geologia USP, Série Científica (Instituto de Geociências, Universidade de São Paulo) — Síntese da hidrogeologia nas bacias sedimentares do Amazonas e do Solimões: Sistemas Aquíferos Içá-Solimões e Alter do Chão
Souza, E. L.; Galvão, P. H. F.; Pinheiro, C. S. S.; Baessa, M. P. M.; Demétrio, J. G. A.; Brito, W. R. R. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.5327/Z1519-874X2013000100007 - UFPA e UFC; trabalho do III Congresso Internacional de Meio Ambiente Subterrâneo, publicado pela ABAS — O Sistema Aquífero Grande Amazônia – SAGA: um imenso potencial de água subterrânea no Brasil
Abreu, F. A. M.; Cavalcante, I. N.; Matta, M. A. S. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Agência FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) — Amazônia has an "underground ocean"
Alisson, E. · 2014-08-27 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Revista Águas Subterrâneas (ABAS) — Mapeamento temático de explotação do aquífero Alter do Chão na área urbana de Santarém/PA
Oliveira, D. R.; Pina Filho, A. C.; Nascimento, F. S. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.14295/ras.v40i1.30351 - Universidade do Estado da Bahia (UNEB), trabalho de graduação em evento acadêmico — Análise da formação do aquífero Alter do Chão e a importância da sua exploração
Souza, F. S.; Caldas, J. A.; Souza, G. C. · s.d. · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)