Grandes descobertas

Akira Endo achou a primeira estatina num Penicillium, depois de testar milhares de caldos de fungos

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Fungos

Em 1971, na empresa Sankyo, em Tóquio, o bioquímico Akira Endo começou a testar caldos de fungos em busca de algo que bloqueasse a HMG-CoA redutase, enzima-chave da síntese de colesterol. Em meados de 1972, o caldo de um Penicillium citrinum, isolado de arroz comprado em Kyoto, mostrou atividade. Em 1973 ele isolou o composto ML-236B, a compactina, tida como a primeira estatina.

Estatinas são uma classe de moléculas que bloqueiam a HMG-CoA redutase, a enzima que dá o passo limitante na produção de colesterol pelo organismo. Na década de 1960 a rota já era conhecida, mas os fármacos disponíveis eram pouco satisfatórios. Endo, filho de agricultores de Akita, no norte do Japão, entrou na Sankyo em 1957 e, segundo seu próprio relato, escolheu a pergunta por ter lido a biografia de Alexander Fleming, que em 1928 vira a penicilina num mofo do gênero Penicillium. A aposta era que fungos, que usam substâncias químicas contra concorrentes, poderiam produzir um inibidor da enzima. O que se segue é a história dessa busca, contada em grande parte pelo próprio Endo em 2010, sem nenhuma orientação sobre o uso de medicamentos.

A mesma molécula, achada na Inglaterra e deixada de lado

Um grupo da Beecham, na Inglaterra, isolou a mesma molécula de outro Penicillium (P. brevicompactum), como antifúngico, e a chamou de compactina. Segundo Endo, eles desistiram de usá-la contra o colesterol porque ela não baixava o colesterol de ratos.

Como se procura uma molécula em milhares de caldos

Endo não testou a enzima purificada: o HMG-CoA marcado com carbono-14 era caro demais para milhares de amostras. Usou então extratos de fígado de rato e perguntou se o caldo de cada fungo reduzia a incorporação de acetato marcado em lipídios. Os positivos passavam por um segundo teste, com mevalonato marcado. Quem falhava só no primeiro bloqueava uma etapa entre acetato e mevalonato. Foi assim que surgiram a citrinina e, depois, a compactina.

Por que a molécula encaixa na enzima

A compactina se parece com o HMG-CoA, o substrato que a enzima transforma em mevalonato, e disputa o mesmo sítio: por isso é chamada de inibidor competitivo. Em células de mamíferos em cultura, a inibição chegou à metade com 0,4 ng/ml. As células morriam em doses muito altas, mas voltavam a crescer ao receber um pouco de mevalonato, sinal de que o alvo era mesmo essa etapa. O texto não trata de uso do remédio em pessoas.

O ano em que a compactina parecia um beco sem saída

Em 1974, ratos que comeram compactina por sete dias não tiveram queda do colesterol. Endo conta que isso quase encerrou o projeto, depois de dois anos e mais de 6.000 testes. Ele passou dois anos investigando e viu que a dose repetida elevava a enzima no fígado em 8 a 10 vezes. Ao testar galinhas, cães e macacos, o efeito apareceu. A lição é de método: um modelo animal que falha não encerra a pergunta, mas obriga a entender por quê.

Da Sankyo à Merck: a passagem da bandeira

A Sankyo interrompeu a compactina em 1980. Antes, a Merck recebera amostras e confirmara os dados de Endo. Em 1979 ela isolou do Aspergillus terreus uma molécula quase idêntica, e Endo, já na Universidade de Agricultura e Tecnologia de Tóquio, achou a monacolina K no Monascus ruber; as duas eram o mesmo composto, a lovastatina, aprovada em 1987.

Como sabemos

A cronologia vem do relato do próprio Endo, em artigo aberto, e foi cruzada com a fundação Lasker e com o obituário no PNAS; não houve fonte independente dos fatos da Beecham nem dos linfomas em cães.

Em debate: Por que a compactina não baixava o colesterol de ratos

Fontes

  1. Proceedings of the Japan Academy, Series B (The Japan Academy) — A historical perspective on the discovery of statins
    Endo, A. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.2183/pjab.86.484
  2. Albert and Mary Lasker Foundation — Akira Endo: Lasker~DeBakey Clinical Medical Research Award 2008 (descoberta das estatinas)
    Lasker Foundation · 2008 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Akira Endo, who discovered a “penicillin” for heart attacks (1933 to 2024)
    Goldstein, J. L.; Brown, M. S. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2416550121
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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