Ecologia

Por que a água fica verde: nutrientes, calor e estratificação nas florações de cianobactérias

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Micróbios

Florações de cianobactérias não têm causa única. Os fatores mais citados são o excesso de nutrientes (nitrogênio e fósforo), o calor, a estratificação da água e o maior tempo de residência. Em dois reservatórios do semiárido de Pernambuco, a biomassa média do fitoplâncton foi de 4 a 5 vezes maior na estratificação do que na mistura, e as cianobactérias dominaram o ano todo.

Floração (bloom) é o crescimento rápido e o acúmulo de fitoplâncton, a vida microscópica que flutua na água. As cianobactérias, também chamadas de algas azuis, estão entre as formadoras mais notórias. O processo de fundo é a eutrofização: o enriquecimento da água por nitrogênio e fósforo, que no caso de lagos e represas vem de esgoto, efluentes e escoamento de campos e ruas. Sobre esse pano de fundo atuam o calor e a estratificação, em que a coluna d'água se separa em camadas de temperatura diferente. Este texto não trata de efeitos sobre a saúde, e as florações marinhas ficam no post sobre a maré vermelha.

Na seca, a água do reservatório para de se misturar

Nos reservatórios de Arcoverde e Pedra (PE), as coletas de novembro e fevereiro, na seca, encontraram a coluna d'água estratificada. As de maio e agosto, na época das chuvas, a encontraram misturada. A biomassa foi maior na primeira situação.

Nutrientes: o enriquecimento de fundo

A EPA e Marrone e colegas apontam o aporte de nitrogênio e fósforo, vindo de esgoto, efluentes e escoamento das bacias, como um dos motores das florações. A revisão de Paerl e colegas diz que, embora cortar um só nutriente funcione em alguns corpos d'água, a redução conjunta de nitrogênio e fósforo costuma ser necessária para um controle duradouro. Há também gêneros que fixam nitrogênio da atmosfera, o que os deixa dominar quando falta nitrogênio dissolvido.

Calor e estratificação: quem flutua leva vantagem

Cianobactérias têm crescimento relativamente maior com temperaturas altas, e o calor muda a densidade da água e a estrutura da coluna. Em Microcystis, vesículas de gás ajudam a se beneficiar da estratificação. Paerl e colegas descrevem que gêneros formadores de floração migram entre a superfície, rica em luz, e o fundo, rico em nutrientes. Secas com aquecimento podem estratificar a coluna e concentrar nutrientes, segundo Zepernick e colegas, que descrevem o modelo tradicional.

Como sabemos: oito coletas em dois reservatórios

Dantas e colegas coletaram água em novembro de 2007 e em fevereiro, maio e agosto de 2008, a 0,1 m de profundidade e a 1 m acima do sedimento, em Arcoverde e Pedra (PE). Mediram temperatura, oxigênio, fósforo e nitrogênio, contaram o fitoplâncton ao microscópio e usaram análise de correspondência canônica. A biomassa média foi de 5,1 e 4,0 vezes maior com a água estratificada. É um estudo observacional: mostra associação forte, mas com amostra pequena e sem experimento que isole a estratificação.

O que não é regra, e o que falta saber

A estratificação não é condição obrigatória: há florações persistentes o ano todo em ambientes rasos e isotérmicos, e nos reservatórios de Pernambuco as cianobactérias seguiram dominantes mesmo na mistura, ainda que com menos biomassa. A espécie dominante também mudou, de Cylindrospermopsis raciborskii na estratificação para uma mistura de espécies. Marrone e colegas lembram que ainda há grandes lacunas sobre o que dispara e sustenta uma floração, e Zepernick e colegas pedem uma definição quantitativa de floração.

Como sabemos

Fatores gerais bem sustentados por cinco fontes; o dado brasileiro vem de um único estudo de 2011 com oito coletas, e a revisão de 2001 foi lida só pelo resumo.

Em debate: Zepernick et al. (2024) argumentam que a palavra floração precisa de definição quantitativa e que relatos de cianobactérias em águas frias ou pobres em nutrientes podem refletir águas mais quentes e mais enriquecidas, não um novo paradigma. O debate está em aberto.

Fontes

  1. Anais da Academia Brasileira de Ciências — Cyanobacterial blooms in stratified and destratified eutrophic reservoirs in semi-arid region of Brazil
    Dantas, E. W.; Moura, A. N.; Bittencourt-Oliveira, M. C. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S0001-37652011000400019
  2. The Scientific World Journal — Harmful Freshwater Algal Blooms, With an Emphasis on Cyanobacteria
    Paerl, H. W.; Fulton, R. S.; Moisander, P. H.; Dyble, J. · 2001 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1100/tsw.2001.16
  3. US EPA — What Causes HABs
    US Environmental Protection Agency · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  4. Journal of Great Lakes Research — A tale of two blooms: do ecological paradigms for algal bloom success and succession require revisiting?
    Zepernick, B. N. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/j.jglr.2024.102336
  5. ACS ES&T Water (Los Alamos National Laboratory) — Toward a Predictive Understanding of Cyanobacterial Harmful Algal Blooms through AI Integration of Physical, Chemical, and Biological Data
    Marrone, B. L. et al. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1021/acsestwater.3c00369
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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