Geografia

Água subterrânea no mundo: ~22,6 milhões de km³ até 2 km, e só uma fração pequena tem menos de 50 anos

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Água na Terra

Estimativas globais apontam cerca de 22,6 milhões de km³ de água subterrânea nos 2 km superiores da crosta continental. Só cerca de 1,3 milhão de km³ (faixa de 0,1 a 5,0) tem menos de 50 anos, ou seja, menos de 6% do total. Outro estudo trabalha com cerca de 44 milhões de km³ contando mais fundo, a maior parte abaixo de 500 m, onde a renovação leva milhões de anos.

Água subterrânea é a que preenche os poros e as fraturas das rochas e dos sedimentos abaixo da superfície. Seu volume global não é medido: é estimado combinando porosidade, tipo de rocha e profundidade, e o resultado muda conforme até onde se conta. A idade de uma água subterrânea é o tempo desde que a chuva se infiltrou; ela vai de meses a milhões de anos. Os estudos chamam de 'recente' (ou 'moderna') a água infiltrada nas últimas décadas, e de 'fóssil' a infiltrada antes do Holoceno, a época atual. Quase todas as estimativas globais de idade vêm de traçadores, substâncias dissolvidas na água cuja concentração depende de quando ela se infiltrou, como o trítio (hidrogênio radioativo) e os isótopos de carbono. Por isso os números são faixas, não valores exatos.

Uma lâmina de 3 metros sobre os continentes

Segundo Gleeson e colegas, a água subterrânea recente equivale a uma camada de cerca de 3 m de água espalhada sobre as terras emersas, um volume que supera todos os outros componentes ativos do ciclo hidrológico.

O volume depende de até onde se conta

Gleeson e colegas estimam cerca de 22,6 milhões de km³ nos 2 km superiores da crosta continental. Um estudo de 2023 parte de uma estimativa maior, cerca de 44 milhões de km³, e afirma que a maior parte da água subterrânea está abaixo de 500 m. Os dois números não se contradizem: contam profundidades e métodos diferentes. O 'volume global' só faz sentido com a profundidade declarada, e volume armazenado não é água utilizável.

O que é água 'recente' e o que é 'fóssil'

Os estudos usam cortes diferentes. Gleeson e colegas chamam de moderna a água recarregada nos últimos 50 anos; Thaw e colegas, nos Estados Unidos, usam a chuva que caiu depois de 1953. No outro extremo, Jasechko e colegas chamam de fóssil a água infiltrada há mais de ~12.000 anos, antes do Holoceno, e estimam que ela forme 42% a 85% do armazenamento no 1 km superior. Entre os dois extremos há mistura: metade dos poços dominados por água fóssil também tem trítio detectável.

Como sabemos a idade: traçadores e seus limites

Ninguém vê a idade da água; ela é inferida por traçadores. O trítio, isótopo radioativo do hidrogênio, disparou na chuva há cerca de 50 anos pelos testes termonucleares; medindo-o em poços e comparando com a série histórica da chuva, estima-se a fração recente de cada amostra. Para a água antiga, Jasechko e colegas analisaram isótopos de carbono de 6.455 poços. Os limites: as amostras se concentram em bacias sedimentares permeáveis, o que tende a superestimar a água moderna, e um poço mistura águas de idades diferentes. Por isso o resultado sai como faixa.

Por que a fração recente importa, mesmo sendo pequena

Contaminantes de superfície são desproporcionalmente comuns na água infiltrada há poucas décadas, e é nessa água recente que os riscos para o abastecimento se concentram. Nos EUA, a água moderna tende a alcançar profundidades maiores onde o bombeamento é intenso, o que sugere que poços podem puxar para baixo água recente. Esse é um resultado estatístico dos EUA, não uma regra mundial. O esgotamento dos aquíferos, outro tema, é tratado à parte.

Como sabemos

Números centrais lidos nos textos de Gleeson 2016, Jasechko 2017 (manuscrito) e Ferguson 2023; volume total e fração recente são estimativas com faixas largas, e os ~44 milhões de km³ vêm de segunda mão.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Geoscience (cópia em PDF no site do grupo de pesquisa, Universidade de Victoria) — The global volume and distribution of modern groundwater
    Gleeson, T.; Befus, K. M.; Jasechko, S.; Luijendijk, E.; Cardenas, M. B. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ngeo2590
  2. Nature Geoscience (manuscrito no repositório do IIASA) — Global aquifers dominated by fossil groundwaters but wells vulnerable to modern contamination (manuscrito aceito)
    Jasechko, S.; Perrone, D.; Befus, K. M.; Cardenas, M. B.; Ferguson, G.; Gleeson, T.; et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ngeo2943
  3. Communications Earth & Environment (versão em EarthArXiv) — Groundwater deeper than 500 m contributes less than 0.1% of global river discharge
    Ferguson, G.; McIntosh, J. C.; Jasechko, S.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s43247-023-00697-6
  4. Nature Communications — Modern groundwater reaches deeper depths in heavily pumped aquifer systems
    Thaw, M.; GebreEgziabher, M.; Villafañe-Pagán, J. Y.; Jasechko, S. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-022-32954-1
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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