Fenômenos naturais

ZCAS: a faixa de nuvens que liga a Amazônia ao Sudeste e responde por boa parte da chuva de verão

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Tempo e clima

A Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) é uma banda de nuvens que, no verão, parte da região amazônica, atravessa o Sudeste do Brasil e segue para o Atlântico, quase parada por vários dias. Na média de 2000 a 2021, dezembro a fevereiro traz mais da metade da chuva do ano em boa parte do Sudeste e do Centro-Oeste, o que um estudo atribui à ZCAS. Ao sul da faixa, a chuva tende a diminuir.

Convergência significa que o ar de direções diferentes se encontra perto da superfície e é obrigado a subir; ao subir, o vapor de água esfria, condensa e forma nuvens de chuva. No verão, o calor da Amazônia alimenta tempestades profundas, e uma corrente de ar rápida a leste dos Andes, o jato de baixos níveis, leva calor e umidade para o sudeste do continente. Quando essa umidade encontra um sistema frontal parado e a convecção tropical, forma-se uma banda de nuvens no sentido noroeste-sudeste. É a ZCAS: um sistema do verão do Hemisfério Sul, diferente da ZCIT, que fica perto do equador.

Quando a faixa se instala sobre o oceano

No verão de 2021/2022 houve sete episódios de ZCAS oceânica, o maior número da década. Todos tiveram características de rio atmosférico, como os 'rios voadores', e ajudaram a produzir chuva muito acima da média no Sudeste.

Como sabemos que um episódio é ZCAS

A definição clássica exige pelo menos 4 dias seguidos com convergência de umidade perto da superfície, um cavado em altitude a oeste, ventos de sul ao sul da faixa e nebulosidade persistente no satélite. Ambrizzi e Ferraz (2015) propuseram usar a precipitação, e não só a nuvem. Em 1995 a 2005, o critério coincidiu com 83% dos casos nos dados observados, mas contou 25% eventos a mais, o que mostra que nenhuma regra automática substitui a análise de quem classifica.

De onde vem a umidade

Segundo uma revisão da USP e do INPE, a faixa pode se alimentar de dois fluxos: ventos de nordeste vindos do Atlântico tropical e o jato de baixos níveis que leva umidade amazônica para o sudeste. Há ainda uma hipótese de que a posição média da ZCAS esteja ligada à convecção profunda da Amazônia, apoiada por modelos, mas outros estudos apontam também o papel de frentes e ciclones de latitudes médias.

Chuva, deslizamentos e inundações

Em 2021/2022, sete episódios oceânicos coincidiram com 574 alertas geológicos e 660 hidrológicos do Cemaden no Sudeste, e o sistema S2id registrou 148 mortes e R$ 15,9 bilhões em danos. Os autores atribuem parte do impacto ao relevo montanhoso, que concentra a chuva, e à chuva acumulada nos primeiros episódios, que deixou solos saturados. Perdas também dependem de onde e como as pessoas vivem, e números municipais podem estar subnotificados.

O que a ZCAS não explica sozinha

Longe do eixo da faixa, ela pode reduzir a chuva: no sul do Brasil, sul do Paraguai e Uruguai, a revisão descreve que a ZCAS inibe a precipitação por causa do ar descendente em seu flanco. E uma ZCAS longa mas menos intensa pode somar tanta chuva quanto uma intensa e curta, de modo que durar mais ou ser mais forte não leva automaticamente a extremos. Cada episódio exige análise própria.

Como sabemos

Definição, identificação e impactos vêm de dois artigos abertos e de uma revisão brasileira, mas a ligação com a convecção amazônica é hipótese e vários pontos são de segunda mão.

Fontes

  1. Frontiers in Environmental Science (Universidade de São Paulo; Universidade Federal de Santa Maria) — An objective criterion for determining the South Atlantic Convergence Zone
    Ambrizzi, T.; Ferraz, S. E. T. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fenvs.2015.00023
  2. Scientific Reports — Oceanic SACZ produces an abnormally wet 2021/2022 rainy season in South America
    Pezzi, L. P.; Quadro, M. F. L.; Souza, E. B.; Miller, A. J.; Rao, V. B.; Rosa, E. B.; Santini, M. F.; Bender, A.; Souza, R. B.; Cabrera, M. J.; Parise, C. K.; Carvalho, J. T. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-28803-w
  3. Revista Brasileira de Meteorologia (USP; INPE/CPTEC) — Regimes de precipitação na América do Sul: uma revisão bibliográfica
    Reboita, M. S.; Gan, M. A.; Rocha, R. P. da; Ambrizzi, T. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/S0102-77862010000200004
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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