Astronomia

Wolf-Rayet: como os ventos despem estrelas massivas e o que isso muda nas supernovas Ib e Ic

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Estrelas

Estrelas que nascem com mais de cerca de 25 massas solares (metalicidade solar) podem perder as camadas externas em ventos densos e expor o interior, onde o hidrogênio já foi consumido: são as Wolf-Rayet. Se explodirem assim, a supernova sai sem hidrogênio (tipo Ib) ou também sem hélio (tipo Ic). A ligação é provável, mas nas revisões de 2007 e 2015 nenhuma progenitora estava confirmada como Wolf-Rayet: companheiras em binárias também despem estrelas.

Massa solar (M☉) é a massa do Sol. Estrelas muito massivas vivem poucos milhões de anos e, enquanto vivem, sopram ventos: fluxos de gás que saem da superfície. Nas Wolf-Rayet, o vento é cerca de dez vezes mais denso que o de uma estrela O comum, e o gás em expansão é tão espesso que as linhas do espectro aparecem em emissão, largas, e não em absorção. Esse gás vem de camadas já processadas pela fusão nuclear: nas WN predominam hélio e nitrogênio (hidrogênio queimado pelo ciclo CNO); nas WC, a fusão do hélio. A metalicidade, a fração da massa em elementos mais pesados que o hélio, regula a força do vento. As supernovas Ib e Ic são explosões de colapso de núcleo sem hidrogênio (Ib) ou sem hidrogênio e hélio (Ic).

Uma estrela que já jogou fora dez Sóis

A WR 124, a cerca de 15 000 anos-luz, na constelação da Flecha (Sagitta), já lançou o equivalente a 10 massas solares de material, segundo a ESA/Webb. O gás esfria ao se afastar e forma poeira cósmica, que o Webb detecta no infravermelho.

O que o vento arranca e o que fica à vista

Nas Wolf-Rayet, o vento é tão denso que remove camadas inteiras. Nas WN, a superfície mostra o que sobrou da fusão do hidrogênio pelo ciclo CNO, com hélio e nitrogênio; nas WC, o que a fusão do hélio produziu, como carbono e oxigênio. A hipótese de que essa composição anômala vinha de material processado nuclearmente é de 1943, mas só se firmou de modo geral nos anos 1990. As taxas medidas em WN da Via Láctea vão de 10^-5,6 a 10^-4,4 massa solar por ano, cerca de 2,5 a 40 milionésimos (cálculo nosso).

Metalicidade e massa decidem quem fica nu

O vento fica mais fraco quando há menos elementos pesados. Em WN com hidrogênio, a taxa na Pequena Nuvem de Magalhães, com 1/5 da metalicidade solar, é 0,4 dex menor (fator de cerca de 2,5, cálculo nosso) que na Via Láctea, o que sugere dM/dt ∝ Z^m, com m ≈ 0,8 ± 0,2. Em modelos de estrela única, Ib e Ic pedem metalicidade e massa altas; no valor solar, o limite citado é de cerca de 34 massas solares sem rotação. Os 25 massas solares para formar uma WR e os 34 para uma Ib/c vêm de modelos diferentes e não são o mesmo número.

Como sabemos quanto a estrela perdeu

O vento não é medido diretamente; é inferido. Em rádio, o gás do vento produz um excesso de emissão livre-livre que depende da taxa de perda de massa, da velocidade terminal e da distância. No óptico e no infravermelho, a intensidade das linhas de emissão cresce com o quadrado da densidade, de modo que um vento cerca de 10 vezes mais denso que o de uma supergigante O já gera um espectro Wolf-Rayet. O limite: o vento é grumoso. Corrigir isso reduz as taxas por um fator de 2 a 4, e os modelos ainda supõem simetria esférica e estrutura simplificada.

O que muda na explosão

Sem o envelope de hidrogênio, a supernova muda de assinatura. Nas supernovas II comuns, o hidrogênio define grande parte do espectro e da curva de luz; nas Ib e Ic, segundo os modelos de Heger e colaboradores, a curva de luz passa a depender de forma sensível da massa do núcleo de hélio. As Ib não mostram hidrogênio e as Ic não mostram hidrogênio nem hélio, e daí vem a ideia de que WN e WC, estrelas cujas superfícies já são assim, sejam as progenitoras. É uma expectativa, não uma observação.

Como se testa o elo e por que ainda é aberto

Há duas rotas para uma Ib/c: a estrela única despida pelo vento ou uma estrela de menor massa despida por um companheiro. Em 12 supernovas Ibc estudadas em imagens anteriores à explosão, nenhuma progenitora foi detectada; se fossem WR como as da Grande Nuvem, a chance seria de 16%. A taxa de Ibc é cerca de duas vezes maior que a de WR únicas, o que favorece binárias. No caso de PTF13bvn, uma WR única não pode ser descartada, mas um binário se ajusta melhor.

Como sabemos

Mecanismo e composição são bem estabelecidos nas revisões abertas; a origem das Ib/c e as escalas de perda de massa seguem em debate, e duas das quatro fontes têm de 2003 a 2007.

Em debate: Revisões de 2007 e 2015 apontam que a ligação direta entre WR únicas e Ib/c não foi demonstrada. Argumentos de taxa favorecem binárias como principal rota, mas a observação de progenitoras, como a de PTF13bvn, ainda admite os dois cenários.

Fontes

  1. Annual Review of Astronomy and Astrophysics (versão arXiv), Universidade de Sheffield — Physical Properties of Wolf-Rayet Stars
    Crowther, P. A. · 2007 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. The Astrophysical Journal (versão arXiv) — How Massive Single Stars End their Life
    Heger, A.; Fryer, C. L.; Woosley, S. E.; Langer, N.; Hartmann, D. H. · 2003 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Publications of the Astronomical Society of Australia (versão arXiv), Queen’s University Belfast — Observational constraints on the progenitors of core-collapse supernovae: the case for missing high mass stars
    Smartt, S. J. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. ESA/Webb — Webb Telescope Captures Rarely Seen Prelude to Supernova (WR 124)
    ESA/Webb; NASA, ESA, CSA, STScI · 2023-03-14 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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