Botânica

Welwitschia, a planta de duas folhas: o meristema que não para e o que o genoma sugere sobre a longevidade

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A Welwitschia mirabilis tem só duas folhas, que crescem sem parar a partir de um meristema na base, enquanto o meristema do ápice morre cedo. O genoma (6,8 Gb) tem cópias extras de genes ligados ao crescimento e ao estresse, ativos nesse tecido; é hipótese que isso ajude a explicar a longevidade. Datação por carbono-14 indicou mais de 1.500 anos para alguns dos maiores indivíduos.

A Welwitschia é a única espécie da família Welwitschiaceae e pertence às gnetófitas, uma linhagem antiga de gimnospermas. Vive no deserto do Namibe (Namib), no norte da Namíbia e no sul de Angola. "Meristema" é o tecido cujas células se dividem e geram órgãos novos; na maioria das plantas, o meristema do ápice do caule produz as folhas, que depois envelhecem e caem. Na Welwitschia o ápice morre cedo e o meristema da base assume o trabalho, de modo que as duas folhas só alongam por baixo e se desgastam na ponta. O artigo aqui é sobre esse mecanismo de crescimento e sobre o que o genoma sugere. A fotossíntese (C3, CAM) é tratada no post sobre as três rotas de captura de carbono, e a tolerância a seca extrema em outra planta, no post sobre as plantas de ressurreição.

Uma folha que mede anos de crescimento

Para comparar tecidos, os autores coletaram trechos de folha jovem e de folha velha separados por mais de 6 anos de crescimento. A idade de cada trecho foi estimada pela taxa de crescimento medida em plantas naturais da estação de Gobabeb, na Namíbia.

Duas folhas, uma esteira de crescimento [a1][a3]

Na maioria das plantas, o meristema do ápice do caule produz folhas novas, e as velhas caem. Na Welwitschia, esse meristema apical morre na planta jovem, pouco depois de surgirem as folhas verdadeiras, e o meristema basal assume o papel. Ele gera as duas folhas fibrosas e em forma de tira, que saem de dois sulcos no alto do caule como numa esteira. Como o crescimento nunca termina, a ponta das folhas se desgasta e se rasga, enquanto a base segue produzindo tecido novo.

O que o genoma mostra no meristema basal [a8][a9][a10]

Os autores compararam a expressão de genes no meristema basal, em folhas jovens e em folhas velhas. No meristema há mais castasterona, um brassinosteroide ligado à proliferação de células, e mais genes de reparo de DNA em atividade. Também há 11 cópias de uma subfamília de genes MYB, contra no máximo cinco nas outras plantas comparadas. Os autores sugerem, como hipótese, que isso mantenha a divisão celular lenta e contínua, mas a função desses genes não foi testada na própria Welwitschia.

Estresse, calor e o hormônio ABA [a11][a12]

O genoma, de 6,8 Gb, passou por uma duplicação inteira há cerca de 86 milhões de anos e é muito pobre em GC. Entre os genes com cópias extras estão os do NCED4, que participa da síntese do hormônio ABA, ligado às respostas ao estresse. No meristema basal, o NCED4 é mais expresso e o ABA acompanha essa expressão. Os próprios autores dizem que falta demonstrar a ligação entre esses genes, a metilação do DNA e a proteção contra o calor.

Como sabemos, e onde a evidência acaba [a5][a6][a12]

O genoma e as comparações de expressão vêm de uma planta macho cultivada num jardim botânico na China, e as idades das folhas foram estimadas com taxas de crescimento medidas em plantas naturais da Namíbia. A idade acima de 1.500 anos vem de datação por carbono-14 de alguns dos maiores indivíduos, citada de outro estudo que não lemos. O que se mede é expressão e número de cópias de genes; o vínculo causal com a longevidade continua hipótese.

Como sabemos

A anatomia do crescimento e os dados do genoma vêm de um estudo em acesso aberto; a ligação entre os genes e a longevidade segue como hipótese e a idade de 1.500 anos é citada de segunda mão.

Fontes

  1. Nature Communications — The Welwitschia genome reveals a unique biology underpinning extreme longevity in deserts
    Wan, T. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-021-24528-4
  2. Scientific Reports — Welwitschia: Phylogeography of a living fossil, diversified within a desert refuge
    Jürgens, N.; Oncken, I.; Oldeland, J.; Gunter, F.; Rudolph, B. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-81150-6
  3. PLOS ONE — Does a gender of Welwitschia mirabilis plants influence their photosynthetic activity?
    Wiland-Szymańska, J.; Kazimierczak-Grygiel, E.; Drapikowski, P.; Borowiak, K.; Drapikowska, M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0291122
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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