Grandes descobertas
Fósseis, rochas e marcas de geleiras levaram Wegener a propor, em 1912, que os continentes se movem
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 6 de janeiro de 1912, o meteorologista alemão Alfred Wegener apresentou em Frankfurt a ideia de que os continentes já formaram uma só massa de terra, a Pangeia. Não partiu de um mecanismo, e sim de pistas: costas que se encaixam, os mesmos fósseis em continentes separados por oceano, cadeias de montanhas que continuam do outro lado e marcas de geleiras antigas em regiões hoje quentes. As pistas eram boas. A explicação que ele deu para o movimento, não.
Wegener notou o encaixe entre América do Sul e África em dezembro de 1910 e levou a ideia a uma reunião da Associação Geológica de Frankfurt em janeiro de 1912. Em 1915 publicou o livro A origem dos continentes e oceanos, revisto até 1929. Para ele, uma única Pangeia havia se partido e seus pedaços se afastaram. A recepção dos geólogos foi hostil, e o problema era a causa: a força de fuga dos polos que ele propôs, ligada à rotação da Terra, mostrou-se fraca demais, e o geofísico Harold Jeffreys concluiu que a ideia de continentes abrindo caminho pelo assoalho oceânico era fisicamente impossível. Só a partir da década de 1950, com o paleomagnetismo e o estudo dos oceanos, a ideia voltou, dentro da tectônica de placas.
Gelo que saiu da Namíbia e chegou ao Paraná
Estudos recentes seguiram o rastro do gelo de cerca de 300 milhões de anos atrás: uma geleira que descia por um vale no noroeste da Namíbia seguiu por pelo menos mais 200 km antes de chegar aos mares da Bacia do Paraná, no Brasil. Isso só faz sentido com os dois lados juntos.
De onde veio a ideia
Wegener era meteorologista, não geólogo. Em dezembro de 1910 reparou no encaixe entre as costas da América do Sul e da África, algo que Ortelius já havia notado três séculos antes. Em 1912 levou o assunto a geólogos em Frankfurt e, em 1915, publicou o livro em que reuniu as pistas de várias ciências, de fósseis a clima antigo. O livro foi revisto e traduzido, e a edição final saiu em 1929.
Fósseis que não atravessam um oceano
A lógica é simples: seres terrestres e de águas rasas não cruzam o Atlântico aberto. O mesmo conjunto de plantas e animais fósseis na América do Sul e na África sugere continentes unidos. O mesossauro é o caso clássico: um réptil aquático do Permiano inicial, achado só no leste sul-americano e no sul africano, nos depósitos de um mesmo mar interior.
O gelo que sobrou nas rochas
Há cerca de 300 milhões de anos, geleiras cobriam partes do sul de Gondwana. Suas marcas estão no sul da África e no Brasil. Estudos recentes mostram que o gelo fluía da região da Namíbia para a Bacia do Paraná, o que exige os dois lados próximos. É uma checagem independente, feita mais de um século depois da proposta de Wegener.
Por que levou 40 anos
Wegener dizia que os continentes se moviam, mas não sabia dizer por quê. A força que propôs era fraca demais, e seus críticos tinham razão nesse ponto. A hipótese só voltou a ser levada a sério a partir da década de 1950, quando o paleomagnetismo e o estudo dos oceanos trouxeram dados novos. Ele morreu em 1930, na Groenlândia, sem ver isso.
Como sabemos
Fatos históricos e geológicos confirmados em fontes institucionais e em artigos revisados por pares.
- Fato estabelecido: Wegener apresentou a teoria da deriva continental à Associação Geológica de Frankfurt em 6 de janeiro de 1912. [3]
- Fato estabelecido: Wegener notou o encaixe entre América do Sul e África em dezembro de 1910. [3]
- Fato estabelecido: Em 1915 publicou A origem dos continentes e oceanos, com revisão final em 1929. [3]
- Fato estabelecido: Wegener propôs que os continentes formaram uma só massa de terra, a Pangeia. [2] [3]
- Fato estabelecido: O encaixe das costas da América do Sul e da África já havia sido notado por Ortelius, cerca de três séculos antes. [1]
- Consenso científico: Os mesmos fósseis de plantas e animais da mesma idade foram achados na América do Sul e na África. [1] [2]
- Fato estabelecido: A samambaia Glossopteris foi achada em regiões hoje polares. [1]
- Consenso científico: Os mesossauros são encontrados exclusivamente em depósitos de um mar interior hipersalino que cobria o leste da América do Sul e o sul da África, no Permiano inicial. [4]
Relato clássico fala em réptil de água doce; o estudo de 2022, com 270 espécimes, descreve o mar como hipersalino. O texto evita a expressão água doce. - Consenso científico: Estrias de geleiras indicaram que África e América do Sul estiveram próximas no Pensilvaniano, com marcas correspondentes nos dois lados. [2]
- Fato estabelecido: Há evidências de glaciação na África hoje árida, como no vale do rio Vaal, e plantas fósseis de clima quente na Antártida. [1]
- Consenso científico: Cadeias de montanhas e depósitos de carvão se continuam entre continentes quando estes são reunidos. [3]
- Fato estabelecido: A hipótese ficou sem mecanismo aceito: a força de fuga dos polos ligada à rotação da Terra foi calculada como insuficiente, e Jeffreys mostrou que continentes abrindo caminho no assoalho oceânico era impossível. [1] [2]
- Consenso científico: A recepção inicial foi amplamente hostil, e Wegener não conseguiu uma cátedra em universidade alemã. [3]
- Consenso científico: A partir de meados da década de 1950, paleomagnetismo e estudos oceânicos confirmaram a ideia, que levou à tectônica de placas. [3]
- Evidência forte: Uma geleira que descia por um vale do noroeste da Namíbia seguiu por pelo menos mais 200 km até chegar aos mares da Bacia do Paraná; as reconstruções colocam o sudeste do Brasil junto do norte da Namíbia nessa época. [5]
Interpretação de Andrews e colegas (2019), com base em dados de direção do fluxo de gelo.
Fontes
- USGS — Historical perspective: Continental drift (This Dynamic Earth)
consultada em 05/10/2026 - UCMP, Universidade da Califórnia em Berkeley — Wegener and continental drift (Geology: history of tectonics)
consultada em 05/10/2026 - NASA Earth Observatory — Alfred Wegener
consultada em 05/10/2026 - PeerJ — Ontogenetic, dietary, and environmental shifts in Mesosauridae (Verrière e Fröbisch, 2022)
consultada em 05/10/2026 - PLoS ONE — First description of subglacial megalineations from the late Paleozoic ice age in southern Africa (Andrews et al., 2019)
consultada em 05/10/2026
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