Botânica

Vitória-régia: como a folha de até 3 m sustenta carga na água e a espécie Victoria boliviana, proposta em 2022

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Em Victoria cruziana, a lâmina da folha tem cerca de 1 mm e as veias chegam a ser cerca de 50 vezes mais espessas, numa rede ramificada; testes de carga e simulações indicam que essa rede, somada ao empuxo da água, deixa a folha muito mais rígida que a das ninfeias menores. Em 2022, morfologia e DNA levaram Smith e colegas a propor uma terceira espécie, Victoria boliviana, da Bolívia.

Victoria é um gênero sul-americano de plantas aquáticas da família Nymphaeaceae, a das ninfeias. A folha é peltada: o pecíolo, o talo da folha, prende-se ao centro da face de baixo da lâmina, o disco que aparece na superfície. A flutuação vem do empuxo, a força para cima que a água exerce sobre o volume que a folha desloca; o que decide se ela aguenta peso sem dobrar é a rigidez à flexão, que depende da forma e da espessura. Taxonomia é o trabalho de delimitar e nomear espécies: exige caracteres que separem uma espécie das outras e, em geral, um exemplar de referência, o tipo. Aqui entram a estrutura da folha e a revisão de 2022; polinização e usos locais ficam de fora.

Uma lâmina de 1 mm sobre vigas

Na V. cruziana medida, a lâmina tem cerca de 1 mm, mas a espessura máxima da veia chega a cerca de 50 vezes isso. Nas ninfeias comuns medidas no mesmo estudo, a razão ficou perto de 2,7.

Uma lâmina fina sobre vigas ramificadas

Vista de baixo, a folha de Victoria tem veias grossas que irradiam do pecíolo e se ramificam em rede, cortadas por veias menores em arco. Box et al. (2022) contaram oito veias principais em V. cruziana e mediram a lâmina em cerca de 1 mm. Segundo os autores, a espessura vertical das veias principais diminui de forma linear com a distância ao pecíolo, de modo que, longe do centro, a rigidez vem de mais ramos, e mais finos.

Como se mediu: carga, empuxo e simulação

Os autores empurraram o pecíolo de folhas flutuantes e mediram o quanto elas afundavam: o deslocamento cresceu na proporção da força, e a razão entre as duas é a rigidez efetiva. Compararam seis folhas de V. cruziana e três de cada uma de duas Nymphaea. Depois simularam folhas-modelo de mesmo volume. A rede de veias sozinha subestimava a rigidez; só somando o empuxo da água se chegava ao valor medido. O limite: poucas folhas, de plantas cultivadas, e só V. cruziana.

O que mudou na taxonomia em 2022

Smith et al. (2022) partiram de quatro formas distinguidas por folha, flor e semente e as testaram com DNA de cloroplasto e dados nucleares. Três grupos se sustentaram: V. amazonica, V. cruziana e uma espécie nova, V. boliviana, dos Llanos de Moxos, na Bolívia. Uma quarta forma segue incerta. Sem as coleções-tipo originais, perdidas, os autores recorreram a imagens do iNaturalist e a exsicatas.

O que ainda é hipótese

Por que a folha é tão grande segue em debate. Box et al. (2022) sugerem que a vantagem de cobrir muita área com pouco material, em poças que secam, favoreceu o gigantismo; Wen et al. (2025) propõem genes e microRNAs que regulam o crescimento da folha. Nenhuma das duas ideias foi testada por experimento de seleção ou por edição gênica. Também falta saber se outros especialistas adotarão as três espécies e quanto houve de hibridização entre elas.

Como sabemos

A estrutura da folha e a proposta de 2022 vêm de artigos abertos lidos e conferidos; a mecânica foi medida em V. cruziana e a taxonomia ainda pode ser debatida.

Em debate: Tratamentos recentes reconhecem uma, duas ou, com a proposta de 2022, três espécies. A separação de V. boliviana se apoia em morfologia, DNA de cloroplasto e dados nucleares de uma amostra pequena.

Fontes

  1. Science Advances (AAAS); Universidade de Manchester e Universidade de Oxford — Gigantic floating leaves occupy a large surface area at an economical material cost
    Box, F.; Erlich, A.; Guan, J. H.; Thorogood, C. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.abg3790
  2. Frontiers in Plant Science; Royal Botanic Gardens, Kew — Revised Species Delimitation in the Giant Water Lily Genus Victoria (Nymphaeaceae) Confirms a New Species and Has Implications for Its Conservation
    Smith, L. T.; Magdalena, C.; Przelomska, N. A. S.; et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3389/fpls.2022.883151
  3. Plant Communications; Universidade de Zhejiang — The genome of giant waterlily provides insights into the origin of angiosperms, leaf gigantism, and stamen function innovation
    Wen, X.; Liang, Y.; Shan, H.; et al. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/j.xplc.2025.101342
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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