Zoologia

Vieiras têm dezenas de olhos que formam imagem com um espelho curvo de cristais de guanina

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

A vieira forma imagem com um espelho côncavo no fundo de cada olho, não com a lente, que sozinha não tem poder para focalizar a luz. O espelho é um empilhamento de camadas, coberto por um mosaico de cristais quadrados de guanina, e lança a imagem sobre uma retina dupla. Uma vieira pode ter até 200 desses olhos ao longo da borda do manto.

Olhos de câmera comuns, como o nosso, focalizam a luz com uma lente. Nas vieiras (família Pectinidae, bivalves), os olhos ficam na ponta de pequenas hastes nas bordas do manto, em fileiras. Cada um tem córnea, lente, duas retinas sobrepostas e, no fundo, um espelho. Até os anos 1960 supunha-se que a lente fizesse o foco; medições e modelos mostraram que ela refrata pouco e que o espelho é quem forma a imagem. Um espelho côncavo reflete a luz de volta e a reúne num ponto, como o espelho de um telescópio refletor. O da vieira é feito de camadas de cristais de guanina, uma molécula orgânica. Retina é a camada de células sensíveis à luz; as duas retinas do olho da vieira respondem de modo diferente ao escuro, ao movimento e à intensidade luminosa.

Parecido com um telescópio

Os autores do estudo de 2017 comparam o espelho da vieira, inclinado e coberto de peças quadradas, aos espelhos segmentados de telescópios refletores.

Por que o espelho, e não a lente

Segundo Speiser et al. (2016), foi Land, em 1965, quem mostrou em Pecten maximus que a lente da vieira não tem poder de refração para focalizar a luz em nenhuma das retinas; a imagem vem do espelho no fundo do olho. Esse espelho é um empilhamento de camadas (empilhamento de Bragg) que reflete bem por interferência construtiva entre as reflexões em cada interface. Palmer et al. (2017) mostraram que ele é coberto por um mosaico de cristais quadrados de guanina, arranjo que reduz aberrações, e que a imagem cai sobre uma retina de duas camadas.

Duas retinas, duas tarefas?

Os modelos clássicos põem a retina distal perto do foco do espelho e a proximal fora de foco. As duas respondem de modo diferente: a distal a quedas bruscas de luz, a proximal à intensidade, e não há sinapses conhecidas entre elas. Speiser et al. propõem que a distal sirva para detectar movimento, como o de predadores, e a proximal para escolher habitat. São hipóteses dos autores. O modelo deles também indica que a proximal receberia luz parcialmente focada, com resolução de 7° contra 2° da distal.

Como sabemos: olhos vivos e comportamento

A forma do olho foi vista em animais vivos por tomografia de coerência óptica, técnica que usa luz infravermelha para fazer cortes virtuais sem abrir o tecido. Em 36 olhos de Argopecten irradians, o diâmetro máximo foi de cerca de 700 µm, com pupila de cerca de 250 µm. Esses dados alimentaram um modelo de traçado de raios, que dá as resoluções de 2° e 7°. Já a resolução de cerca de 2° vem de registros elétricos e de testes de comportamento. Em 2021, vieiras-da-baía dirigiram os tentáculos para listras escuras colocadas ao redor da concha, indicando visão espacial panorâmica de ao menos 270°.

O que ainda está em aberto

O modelo de 2016 indica que nem a aberração cromática nem a distância do objeto explicam foco nas duas retinas ao mesmo tempo. Os autores especulam que mudar o formato do olho poderia alterar isso, o que não foi testado. Outra proposta antiga trata as retinas proximais de todos os olhos como um único olho composto disperso, ideia que o modelo de 2016 não descarta. Os estudos citados usaram sobretudo Argopecten irradians e Pecten maximus; não conferimos se o mesmo vale para outras vieiras.

Como sabemos

Mecanismo do espelho bem estabelecido; a função das duas retinas ainda é hipótese, e a composição do espelho foi conferida só pelo resumo do artigo de 2017.

Fontes

  1. Integrative and Comparative Biology — Examining the Effects of Chromatic Aberration, Object Distance, and Eye Shape on Image-Formation in the Mirror-Based Eyes of the Bay Scallop Argopecten irradians
    Speiser, D. I.; Gagnon, Y. L.; Chhetri, R. K.; Oldenburg, A. L.; Johnsen, S. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/icb/icw099
  2. Science — The image-forming mirror in the eye of the scallop
    Palmer, B. A.; Taylor, G. J.; Brumfeld, V.; Gur, D.; Shemesh, M.; Elad, N.; Osherov, A.; Oron, D.; Weiner, S.; Addadi, L. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aam9506
  3. Proceedings of the Royal Society B — Panoramic spatial vision in the bay scallop Argopecten irradians
    Chappell, D. R.; Horan, T. M.; Speiser, D. I. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2021.1730
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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