Química

Vitrais mais grossos embaixo não são vidro que escorreu: o cálculo de Zanotto, da UFSCar, em 1998

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

Em temperatura ambiente o vidro de janela é viscoso demais para escorrer na escala da história humana. Em 1998, Edgar Zanotto, da UFSCar, estimou o tempo de relaxação a partir da composição do vidro e achou um valor acima da idade do Universo. A espessura desigual dos vitrais vem da fabricação medieval: cilindros soprados, abertos e achatados à mão.

Viscosidade mede a resistência de um material a escoar; quanto maior, mais lento o fluxo. O vidro comum é um líquido que foi resfriado tão depressa e ficou tão viscoso que não chegou a cristalizar: abaixo da temperatura de transição vítrea (Tg, na faixa de 550 a 600 °C para vidro de janela), seus átomos ficam praticamente travados e ele responde como um sólido elástico. O tempo de relaxação é o prazo típico para o material reorganizar sua estrutura e deve ser proporcional à viscosidade. Zanotto usou fórmulas empíricas que ligam a composição do vidro à curva de viscosidade e extrapolou até a temperatura ambiente. Em 2017, outra equipe mediu a viscosidade de um vidro medieval real e achou valor muito menor que o estimado antes, sem mudar a conclusão.

Um mito que Zanotto achou que era brasileiro

Zanotto conta que, ao ouvir a história dos vitrais em aulas, achou que fosse um mito brasileiro. Depois soube que um colega a tinha ouvido na Argentina e que um parecerista da revista confirmou que ela circula também nos Estados Unidos.

Como sabemos: de uma pergunta de sala de aula a uma conta

Zanotto partiu de uma pergunta de estudantes e colegas. Não havia, segundo ele, cálculo publicado. Ele relacionou a composição de vidros medievais e modernos à viscosidade, usou a relação entre viscosidade e tempo de relaxação e extrapolou à temperatura ambiente. Como a equação deixa de valer abaixo de certa temperatura, tomou o vidro de GeO2 como referência e obteve um limite inferior. Além da conta, apontou como evidência os vasos de vidro antigos que seguem sem deformação em museus.

Limites do cálculo de 1998 e a checagem de 2017

O próprio artigo diz que a extrapolação é de ordem de grandeza e que as impurezas dos vidros medievais não entram nas fórmulas. Em 2017, Gulbiten, Mauro e colegas mediram a viscosidade de um vidro com a composição típica de Westminster Abbey e acharam um valor cerca de 16 ordens de grandeza menor que o de um estudo anterior. Mesmo assim, o cálculo de escoamento deu no máximo cerca de 1 nm em 1 bilhão de anos. A estimativa numérica mudou; a conclusão não.

Por que as janelas são desiguais: a fabricação

O vidro de janela medieval era soprado em cilindros grandes, que eram abertos e achatados à mão. Peças assim não saem com espessura uniforme, ao contrário do vidro float de hoje. Quem montava a janela, segundo a página de Cambridge, tendia a pôr o lado mais grosso embaixo. Isso é uma explicação plausível para a observação, e não uma prova peça a peça; as fontes lidas não detalham outros métodos, como o do vidro em coroa.

Sólido ou líquido? Uma pergunta mal posta

O vidro não cristaliza ao esfriar, e por isso sua estrutura atômica lembra a de um líquido. Mas a viscosidade sobe tanto que, na prática, ele responde como sólido elástico. Para John Mauro, da Penn State, o vidro tem natureza híbrida: estrutura de líquido, resposta mecânica de sólido. Dizer que 'o vidro é um líquido muito lento' confunde estrutura com comportamento, e é essa confusão que alimenta a história dos vitrais.

Como sabemos

Conclusão sustentada pelo artigo original de 1998 e por medição independente de 2017; o valor numérico exato do tempo de relaxação varia entre os estudos.

Fontes

  1. University of Cambridge, Department of Materials Science & Metallurgy (DoITPoMS) — Do Cathedral Glasses Flow? (The Glass Transition in Polymers, TLP)
    DoITPoMS, University of Cambridge · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. American Journal of Physics 66(5): 392-395 — Do cathedral glasses flow?
    Zanotto, E. D. · 1998 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1119/1.19026
  3. Journal of the American Ceramic Society 101(1): 5-11 — Viscous flow of medieval cathedral glass
    Gulbiten, O.; Mauro, J. C.; Guo, X.; Boratav, O. N. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/jace.15092
  4. Penn State University — Researcher uses Westminster Abbey windows to shine light on glass myth
    Kubarek, D. · 2017-12-18 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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