Ecologia

Veredas do Cerrado: brejos de solo encharcado com buritis, ligados a nascentes, que guardam água e carbono

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

As veredas são áreas úmidas do Cerrado que ocupam vales rasos e depressões ligadas a nascentes e riachos, com solo orgânico encharcado, capim, arbustos e, muitas vezes, buritis. Funcionam como reserva de água subterrânea e, na estação seca, podem ser a única fonte perene de água do ecossistema. Se o lençol freático baixa por drenagem, irrigação, desmatamento ou menos chuva, a vereda seca e perde o que a define.

O Cerrado é uma savana com estação seca de vários meses. Nele, a vereda é uma faixa estreita e comprida no fundo de um vale raso, onde a água do subsolo chega perto da superfície. O lençol freático é o topo da água subterrânea; quando ele fica raso o ano todo, o solo permanece encharcado e a matéria orgânica se decompõe devagar. Assim se forma a turfa, um solo escuro feito de restos vegetais. Do cerrado seco em volta até o centro da vereda, a vegetação muda em faixas: campo úmido, arbustos e árvores, e o buriti (Mauritia flexuosa), uma palmeira. O aquífero é a rocha ou o sedimento que armazena a água do subsolo e a libera aos poucos.

Palmeira de plantas separadas

O buriti é dioico: há plantas só com flores masculinas e plantas só com flores femininas. É uma palmeira de vida longa, cujo tronco pode chegar a 40 metros de altura.

Onde a água fica perto da superfície

A vereda ocupa um vale raso, ligado a nascentes e riachos pequenos. O centro costuma ficar saturado o ano todo; o campo úmido das margens alterna entre alagado e seco, e o nível da água nessa borda varia muito entre as estações. Como o estado da vereda acompanha o lençol freático, os pesquisadores a tratam como um “barômetro” do aquífero. Em regiões onde a seca dura de seis a oito meses, essa água rasa pode ser a única disponível ao ecossistema.

Um solo que guarda carbono

Com o solo encharcado, a matéria orgânica se decompõe devagar e se acumula como turfa. Um estudo de 2026 estimou cerca de 1.200 Mg de carbono por hectare nas veredas e campos úmidos amostrados, formados ao longo de cerca de 20 mil anos. Mas essa turfa é menos estável que a de outras turfeiras tropicais, e cerca de 70% das emissões anuais de CO2 e CH4 foram medidas na estação seca. Se a água baixa, o carbono antigo fica exposto ao oxigênio e pode voltar à atmosfera.

Como sabemos o que há no solo e quantas veredas existem

O carbono do solo foi medido em amostras de campo; a idade da turfa veio de datação por radiocarbono, a estabilidade da matéria orgânica por espectroscopia de infravermelho, e as emissões por medições de gás ao longo das estações. A área total vem de um modelo de aprendizado de máquina, ou seja, é uma predição. O mapeamento por satélite também tem limites: com imagens de radar, a acurácia global ficou entre 62% e 69%, e veredas estreitas escapam da resolução das imagens. Por isso a extensão real ainda é incerta.

O que ameaça a vereda

Irrigação excessiva em lavouras vizinhas e represas que inundam a vereda podem destruí-la, segundo estudos de mapeamento. Para outros autores, o secamento recente vem da retirada da vegetação natural, que prejudica a recarga do lençol, somada à redução da chuva. Com a vereda mais seca, espécies lenhosas do cerrado vizinho avançam sobre ela; em uma vereda monitorada por drone, elas ficaram mais verdes na virada da seca, o que sugere, sem ter medido, maior perda de água. Em algumas regiões, até 50% das áreas teriam sido degradadas, número que os autores veem como incerto.

Como sabemos

Conceitos e ameaças sustentados por estudos revisados por pares; carbono, extensão e perda por degradação são estimativas ainda incertas.

Fontes

  1. Sensors (Basel) — An Evaluation of Radarsat-1 and ASTER Data for Mapping Veredas (Palm Swamps)
    Maillard, P.; Alencar-Silva, T.; Clausi, D. A. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/s8096055
  2. The New Phytologist — Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil's Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability
    Verona, L. S. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/nph.71027
  3. Scientific Reports — Ecological networks in savannas reflect different levels of hydric stress in adjacent palm swamp forest ecosystems
    Araújo, W. S.; Silveira, L. T. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-024-72479-9
  4. International Journal of Biometeorology — Woody plant encroachment alters the vegetative and reproductive phenology of a Vereda palm swamp in Cerrado
    Alves, N. F. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s00484-026-03256-8
  5. Ecology and Evolution — Rivers shape population genetic structure in Mauritia flexuosa (Arecaceae)
    Sander, N. L. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ece3.4142
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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