Astronomia
Vênus gira em 243 dias, mais que os 225 de sua órbita, e no sentido contrário: lá o Sol nasce no oeste
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Sistema Solar
Vênus completa uma volta sobre si mesmo em cerca de 243 dias terrestres, mais que os cerca de 225 dias que leva para dar uma volta ao redor do Sol, e gira em sentido retrógrado, oposto ao da maioria dos planetas. Por isso o Sol nasce no oeste, e o intervalo entre dois meios-dias lá é de cerca de 117 dias.
Há três contagens de tempo. O dia sideral é a volta completa do planeta em relação às estrelas distantes: em Vênus, cerca de 243 dias terrestres. O ano é a volta ao redor do Sol: cerca de 225 dias. O dia solar é o intervalo entre dois meios-dias, quando o Sol volta ao mesmo ponto do céu: cerca de 117 dias. Rotação retrógrada é girar no sentido contrário ao do movimento orbital; na Terra, o giro tem o mesmo sentido da órbita. O eixo de Vênus está quase de pé em relação à órbita, inclinado cerca de 3 graus, sem estações marcadas.
Um dia que varia cerca de 20 minutos
Medições por radar de 2006 a 2020 mostraram que o período de rotação de Vênus não é constante: varia em torno de 61 partes por milhão, cerca de 20 minutos. Os autores atribuem a variação a trocas de momento angular com a atmosfera densa.
Dia sideral, ano e dia solar
O dia sideral (243 dias) é mais longo que o ano (225 dias), mas ninguém viveria 243 dias de Sol: como o planeta gira ao contrário da órbita, os dois movimentos se somam e o Sol volta ao mesmo ponto do céu depois de cerca de 117 dias, o dia solar. Esse valor confere com o cálculo 1/(1/225 + 1/243), que é nosso. Na Terra o efeito é o oposto, e o dia solar de 24 h é pouco maior que o sideral.
Como sabemos: radar através das nuvens
Nuvens densas e persistentes escondem a superfície, então a rotação foi medida por radar. A Magellan, em órbita desde 1990, mapeou a superfície com radar de abertura sintética, e centenas de marcos nas imagens deram 243,0185 dias. De 2006 a 2020, Goldstone e Green Bank registraram o mesmo padrão de manchas do eco de radar; o atraso entre as gravações dá o período instantâneo. Limite: uma equipe, um método, 21 medições, e o período varia cerca de 20 minutos.
Por que a maré solar não travou o giro
A maré sólida do Sol tenderia a sincronizar o giro com os 225 dias da órbita. Gold e Soter propuseram que uma maré térmica na atmosfera, com a atração do Sol sobre a protuberância de ar, empurra no sentido oposto, e o giro se acomodaria onde os torques se equilibram. As variações de cerca de 20 minutos sugerem troca intensa de momento angular com a atmosfera. Os autores de 2021 dizem que a resposta do giro ao desequilíbrio ainda não foi elucidada.
Como ficou ao contrário: duas rotas, nenhuma provada
Modelos de Correia e Laskar (2001) apontam duas rotas até o estado atual: o eixo teria virado cerca de 180 graus (atrito núcleo-manto e marés atmosféricas), ou Vênus teria começado com rotação prograde e freado até ficar retrógrado, com a obliquidade indo a zero. São resultados de simulação a partir de condições iniciais, sem registro direto do passado do planeta; a origem do giro retrógrado segue hipótese.
Como sabemos
Os números de rotação e órbita vêm de fontes da NASA e de um artigo de 2021 lido em texto integral; a origem do giro retrógrado vem de modelos (resumo de 2001) e permanece hipótese.
- Fato estabelecido: O dia sideral de Vênus (uma volta completa em relação às estrelas) dura cerca de 243 dias terrestres, mais que o ano venusiano, de cerca de 225 dias terrestres. [1] Seção Orbit and Rotation [2] Tabela Orbital parameters
Contexto: Valores nominais da NASA; o sinal negativo do período de rotação (-5832,6 h, ou cerca de 243,0 dias) indica rotação retrógrada. · Limitações: Conversão de -5832,6 horas em dias (÷ 24 = 243,025) é cálculo nosso. O valor médio medido depende do intervalo de observação (ver a7). · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Vênus gira em sentido retrógrado, oposto ao da maioria dos planetas, de modo que, visto da superfície, o Sol nasceria no oeste e se poria no leste. [1] Seção Orbit and Rotation [2] Tabela Orbital parameters
Contexto: A obliquidade de 177,36 graus (mais que 90) é a forma numérica de dizer que o giro é contrário à órbita. · Limitações: Descrição para um observador hipotético; as nuvens espessas impediriam ver o Sol da superfície. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O dia solar de Vênus (intervalo entre dois meios-dias, quando o Sol volta ao mesmo ponto do céu) dura cerca de 117 dias terrestres, menos que o ano. [2] Tabela Orbital parameters [1] Seção Orbit and Rotation
Contexto: Na tabela da NASA, "length of day" é o dia solar: 2.802 horas ÷ 24 = 116,75 dias. · Limitações: A página da NASA descreve os 117 dias como "do nascer ao pôr do Sol", mas o valor corresponde ao dia solar completo (de um meio-dia ao seguinte). Metade disso, cerca de 58 dias, é o tempo aproximado de cada período de luz, cálculo nosso. O valor de 117 dias também confere com nosso cálculo 1/(1/224,701 + 1/243,025), que soma o giro retrógrado ao movimento orbital. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O eixo de rotação de Vênus é inclinado cerca de 3 graus em relação à órbita (2,6392 ± 0,0008 graus na medição por radar), pouco demais para produzir estações do ano perceptíveis. [1] Seção Orbit and Rotation [3] Resumo
Contexto: O valor de 2,64 graus é o complemento de 177,36 graus (a2): o eixo está quase perpendicular ao plano da órbita, só que de ponta-cabeça em relação à Terra. · Limitações: Aqui a inclinação é tomada em módulo; o sentido retrógrado vem do valor de 177,36 graus (a2). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A superfície de Vênus fica sob nuvens densas e persistentes, o que obriga a medir a rotação com radar, que não depende de luz visível. [1] Seção Surface [3] Resumo
Contexto: O radar emite ondas de rádio e registra o eco; é a base tanto das medições feitas da Terra quanto do mapeamento da sonda Magellan. · Limitações: A fonte da NASA afirma as nuvens densas; a necessidade do radar como consequência é inferência nossa. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A sonda Magellan, da NASA, entrou em órbita de Vênus em 10 de agosto de 1990 com um radar de abertura sintética; a análise de centenas de marcos em suas imagens de radar, do início dos anos 1990, deu um período médio de rotação de 243,0185 ± 0,0001 dias. [6] Quadro de dados da missão [3] Introdução
Contexto: Segundo Margot e colegas (f3), que citam o trabalho de Davies e colegas; o valor foi uma média de cerca de 500 dias. Não lemos o artigo original da Magellan. · Limitações: Estimativa média de cerca de 500 dias; não detecta variações de curta duração. Informação de segunda mão sobre o trabalho original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Observações de radar feitas da Terra entre 2006 e 2020 deram um dia sideral médio de 243,0226 ± 0,0013 dias terrestres e mostraram que o período de rotação varia: a rotação do planeta sólido oscila cerca de 61 partes por milhão, perto de 20 minutos. [3] Seção Spin period and length-of-day variations
Contexto: Método: dois radiotelescópios (a antena de 70 m de Goldstone e o Green Bank Telescope, de 100 m) registram o mesmo padrão de "manchas" do eco de radar, que varre a superfície da Terra conforme Vênus gira; o atraso entre as duas gravações dá o período instantâneo. · Limitações: Uma única equipe e um único método; 21 medições em quase 15 anos. Valores diferem dos de outras estimativas médias (243,0185 e 243,0212 dias), porque as médias cobrem intervalos distintos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores das medições de 2006 a 2020 concluem que as variações do dia de Vênus implicam transferência, para o planeta sólido, de pelo menos cerca de 4% do momento angular da atmosfera. [3] Seção Spin period and length-of-day variations
Contexto: Momento angular é a "quantidade de rotação" de um corpo; a atmosfera de Vênus tem muito, por ser massiva e circular o planeta em cerca de 4 dias (superrotação). · Limitações: Interpretação dos autores; eles próprios dizem não conseguir atribuir as variações a causas específicas com confiança. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Teoria científica: Sem outras forças, as marés sólidas causadas pelo Sol sincronizariam a rotação de Vênus com o período orbital de 225 dias; manter a rotação retrógrada de 243 dias exige uma explicação adicional. [3] Introdução
Contexto: Maré sólida é a deformação da rocha do planeta pela gravidade do Sol, que tende a travar o giro ao movimento orbital (como a Lua trava a face voltada à Terra). · Limitações: A comparação com a Lua é nossa, para explicar o conceito de sincronização. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Teoria científica: Gold e Soter propuseram que o torque solar sobre uma maré atmosférica de origem térmica poderia contrabalançar o torque da maré sólida e estabilizar a rotação; pensa-se que o giro se acomoda onde os dois torques se equilibram. [3] Introdução [5] Introdução
Contexto: A maré térmica nasce do aquecimento da atmosfera pela luz solar: o ar se acumula no lado mais frio e se afasta do lado quente, criando uma protuberância cuja atração do Sol empurra o giro no sentido oposto ao da maré sólida. · Limitações: Modelo teórico para planetas com atmosfera densa; f5 trata de planetas do tipo Vênus em geral e mostra que há equilíbrios retrógrados e progrados possíveis. · Hipótese proposta em 1969 e refinada por modelos posteriores; ainda sem teste direto em Vênus. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: A rotação retrógrada de 243 dias e a superrotação de 4 dias da atmosfera de Vênus não são totalmente compreendidas, e a magnitude das variações do giro em torno do equilíbrio não foi elucidada. [3] Introdução
Contexto: Avaliação de 2021 dos autores das medições mais recentes. · Limitações: Estado do conhecimento até a publicação de f3; trabalhos posteriores podem ter avançado. · Questão aberta registrada pelos autores de f3 em 2021. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Simulações de Correia e Laskar (2001) indicam duas rotas para a rotação atual de Vênus: a inversão do eixo em cerca de 180 graus, por atrito núcleo-manto e marés atmosféricas, ou um começo prograde que freia até a rotação retrógrada, com a obliquidade indo a zero. [4] Resumo
Contexto: Resultado de modelagem numérica da evolução do giro de planetas rochosos com atmosfera densa, a partir de várias condições iniciais; não há registro direto do passado de Vênus. · Limitações: Lemos apenas o resumo (acesso a texto integral indisponível). Não decide qual rota ocorreu. Não tratamos de hipóteses alternativas, como um impacto gigante. · Resultado de modelo, não observação; as duas rotas coexistem como hipóteses. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Uma hipótese antiga sugeria que Vênus estaria preso em ressonância com a Terra; as variações medidas no dia seriam grandes demais para permitir essa captura, segundo os autores das medições de 2006 a 2020. [3] Seção Spin period and length-of-day variations
Contexto: Ressonância com a Terra significaria que o giro de Vênus se acertaria com os encontros dos dois planetas a cada 584 dias, mostrando sempre a mesma face na aproximação máxima. · Limitações: A explicação sobre o que seria a ressonância é nossa; f3 diz apenas que a captura é provavelmente impedida. · Conclusão dos autores de f3, formulada com "likely"; não é consenso. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- NASA — Venus Facts
NASA Science · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - NASA Goddard Space Flight Center — Venus Fact Sheet
NASA Space Science Data Coordinated Archive (NSSDCA) · 2024 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Nature Astronomy (versão lida: pré-publicação no arXiv) — Spin state and moment of inertia of Venus
Margot, J.-L.; Campbell, D. B.; Giorgini, J. D.; Jao, J. S.; Snedeker, L. G.; Ghigo, F. D.; Bonsall, A. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41550-021-01339-7 - Nature — The four final rotation states of Venus
Correia, A. C. M.; Laskar, J. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/35081000 - Astronomy & Astrophysics (versão lida: pré-publicação no arXiv) — The rotation of planets hosting atmospheric tides: from Venus to habitable super-Earths
Auclair-Desrotour, P.; Laskar, J.; Mathis, S.; Correia, A. C. M. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1051/0004-6361/201628701 - NASA / JPL — Magellan
NASA Science · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)