Astronomia

Parker previu o vento solar em 1958, dois revisores o julgaram errado e a Mariner 2 o confirmou em 1962

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O vento solar é um fluxo contínuo de gás ionizado que sai da coroa do Sol em todas as direções. Eugene Parker o deduziu em 1958 com as equações da hidrodinâmica, num artigo que dois revisores consideraram errado. A Mariner 2, a caminho de Vênus em 1962, mostrou que o fluxo nunca cessa e é supersônico, com velocidades de cerca de 250 a 800 km/s, e a teoria passou a ser aceita.

Plasma é gás ionizado: átomos que perderam elétrons e, por isso, respondem a campos elétricos e magnéticos. A coroa é a atmosfera mais externa do Sol e está a milhões de kelvin. Antes de 1958 já se suspeitava de partículas saindo do Sol: o astrônomo alemão Ludwig Biermann concluíra, pelo movimento das caudas de cometas, que havia gás fluindo para fora. Parker perguntou se uma coroa quente poderia ficar em equilíbrio estático ou se, ao contrário, teria de expandir-se. A resposta, em termos de física dos fluidos, foi que ela se expande e acelera até velocidades supersônicas, isto é, maiores que a do som no próprio gás. Só um instrumento fora da magnetosfera terrestre, a bolha magnética que protege a Terra, poderia medir isso.

Os pareceres que ninguém guardou

Parker contou depois que lamentava não ter guardado os dois pareceres dos revisores. Segundo ele, o editor Chandrasekhar lhe disse anos mais tarde que fora cético, mas, sem uma crítica objetiva, sentiu-se obrigado a publicar.

Por que o gás não podia ficar parado

Parker partiu da sugestão de Biermann e perguntou se a coroa poderia ficar em equilíbrio, sem fluxo. Concluiu que provavelmente não: sempre haveria alguma expansão para fora. Com uma coroa de cerca de 3 milhões de kelvin, as equações davam velocidades de 500 km/s ou mais. Nas soluções, o gás sai subsônico perto do Sol e fica supersônico mais longe. A hipótese de temperatura uniforme foi a mais simples possível.

Dois pareceres e um editor

O artigo foi enviado em 2 de janeiro de 1958. Segundo Parker, o primeiro revisor mandou-o ler mais sobre o tema e o segundo, também eminente, chegou a resultado parecido, sem apontar erro. O editor, Chandrasekhar, desconfiava, mas publicou. Em 1960, Chamberlain escreveu um artigo para mostrar por que a teoria lhe parecia errada. Isso vem do relato de Parker, sem os pareceres originais.

A prova veio de fora da Terra

Antes da Mariner 2, sondas que saíram da magnetosfera detectaram partículas do vento entre 1959 e 1961, mas só por pouco tempo. A Mariner 2, lançada em 27 de agosto de 1962, ligou seus experimentos de cruzeiro em 29 de agosto e mediu o vento durante quase toda a viagem a Vênus. O resultado: fluxo contínuo e supersônico, de cerca de 250 a 800 km/s.

O que o vento faz na Terra e o que o modelo não cobre

Correntes rápidas do vento solar que atingem a magnetosfera da Terra estão ligadas à atividade geomagnética e a variações da aurora. O modelo de Parker, esférico e de temperatura uniforme, foi ampliado: a coroa não é esférica, e o vento rápido sai de buracos coronais. A Parker Solar Probe explora hoje a região da coroa de onde o vento sai.

Como sabemos

Previsão, publicação e confirmação sustentadas por artigo original, revisões abertas e páginas da NASA; o relato dos pareceres vem da memória de Parker.

Fontes

  1. The Astrophysical Journal (Enrico Fermi Institute, University of Chicago) — Dynamics of the interplanetary gas and magnetic fields
    Parker, E. N. · 1958 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1086/146579
  2. Indian Institute of Science, Bengaluru (preprint no arXiv) — “Gene”: A personal tribute to the Life and Science of Eugene Newman Parker
    Choudhuri, A. R. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Space Science Reviews (preprint no arXiv) — Origins of the Ambient Solar Wind: Implications for Space Weather
    Cranmer, S. R.; Gibson, S. E.; Riley, P. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  4. NASA, National Space Science Data Center Archive — Mariner 2 (1962-041A)
    NASA NSSDCA · 2026 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  5. NASA — 60 Years Ago: Mariner 2 First to Explore Venus
    NASA · 2022 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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