Ecologia

Vassoura-de-bruxa na Bahia: de 356 mil t (1990/91) a 99 mil t (1999/2000), numa crise com mais de uma causa

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

O fungo Moniliophthora perniciosa já era conhecido na Amazônia desde 1898, mas só virou problema econômico quando o primeiro foco baiano foi detectado, em 1989, em Uruçuca. A produção da Bahia caiu de 356 mil t (1990/91) para 99 mil t (1999/2000), e cerca de 250 mil trabalhadores rurais foram afetados pela crise. A própria CEPLAC ressalva que a queda começou em 1987/88, antes da doença.

A vassoura-de-bruxa é uma doença do cacaueiro (Theobroma cacao) causada por um fungo hemibiotrófico: primeiro vive entre as células vivas da planta e depois as mata. Ataca gemas e frutos jovens e deforma os brotos. Na Bahia, que chegou a produzir cerca de 397 mil t em 1986/87, o fungo foi detectado em 1989, quando a lavoura já enfrentava preços baixos, custos altos e clima adverso. Boa parte do cacau do sul do estado crescia sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, no sistema chamado cabruca. A pergunta é dupla: quanto da queda se deve ao fungo, e o que ela fez com essas matas.

Esporos que saem de noite

Os basidiósporos da vassoura-de-bruxa são liberados principalmente à noite, porque não toleram bem a luz ultravioleta nem o ressecamento. Em curtas distâncias viajam com a água da chuva; em longas, com o vento.

O que o fungo faz com a planta

O fungo é hemibiotrófico, isto é, tem duas fases. Na primeira, vive entre as células vivas e invade gemas e frutos jovens, que crescem de forma anormal (as células aumentam de tamanho e de número). Brotos perdem a dominância apical e emitem ramos laterais, o que dá o aspecto de vassoura. Na segunda, o fungo invade as células, mata o tecido e passa a viver da planta morta. Os esporos saem principalmente à noite e viajam pelo vento e pela chuva.

Como sabemos que a doença foi uma causa entre várias

A evidência vem de séries de produção e de contagens de frutos infectados reunidas pela CEPLAC. Entre 1991/92 e 2006/07, os frutos doentes variaram em sentido oposto ao da produção baiana. Mas a mesma nota mostra que a produção já caía desde 1987/88, e atribui esse declínio a preços baixos, falta de crédito e custos altos. Correlação não prova causa, e a nota é um documento oficial do órgão responsável pela lavoura. Não encontramos aqui um estudo independente que separe o peso de cada fator.

Como o fungo chegou à Bahia: hipótese, não registro

A rota não está documentada. A Embrapa registra que o fungo foi introduzido provavelmente por transporte de material contaminado vindo da Amazônia (Rondônia) e usa como argumento o fato de a variabilidade genética na Bahia ser menor que na bacia amazônica. Cita ainda um estudo de eletroforese que sugere duas introduções independentes. Tudo isso é inferência, não observação direta, e o estudo foi lido apenas por meio da Embrapa.

As cabrucas: o que se sabe e o que não se mediu

Cabruca é o cacau cultivado sob árvores nativas da Mata Atlântica, predominante no sul da Bahia. A CEPLAC afirma que o sistema conserva remanescentes da floresta primária, e um estudo de 2025 com o jequitibá-rosa achou nas cabrucas um papel importante para a diversidade genética e a conexão entre populações, ainda que de uma só espécie. O corte das árvores de sombra teve picos nos anos 1960 e 1970 e se intensificou na crise dos anos 1980. As fontes falam em crise, não na vassoura: o peso do fungo nessa perda não foi medido.

Como sabemos

Datas e números de produção vêm de documentos oficiais (CEPLAC, Embrapa); o peso da doença frente às outras causas e o efeito sobre as cabrucas não foram medidos em fontes independentes.

Fontes

  1. CEPLAC / Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento — Nota Técnica: Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira, 3ª e 4ª Etapas. A crise da lavoura cacaueira, condicionantes, ação governamental, análise e recomendações
    CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira) · 2009 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia — Espécies de fungos exóticas para a cultura do cacau (Comunicado Técnico 124)
    Freitas, V. M.; Mendes, M. A. S. · 2005 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. BMC Genomics — Genome sequence and effectorome of Moniliophthora perniciosa and Moniliophthora roreri subpopulations
    Barbosa, C. S. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s12864-018-4875-7
  4. BMC Ecology and Evolution — The role of Cacao agroforests in the genetic conservation of Cariniana legalis, an emblematic species of the atlantic forest
    Santos, A. S. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s12862-025-02418-3
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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