Corpo humano
Da variolação à vacina de Jenner, a varíola foi declarada erradicada em 1980
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
A varíola matava cerca de 3 em cada 10 pessoas infectadas. Por séculos, a única defesa foi a variolação, que inoculava material de pústulas de doentes. Em 1796, Edward Jenner usou material de varíola bovina, bem menos perigosa. Dois séculos depois, após uma campanha global intensificada em 1967, a Assembleia Mundial da Saúde declarou a doença erradicada em 8 de maio de 1980. Segundo a OMS, é a única doença infecciosa a receber essa declaração.
A variolação existia na Ásia muito antes de Jenner: na China, a partir de meados do século XVI, as crostas secas eram sopradas no nariz. Na Europa, a prática chegou em 1721, trazida do Império Otomano por Lady Mary Wortley Montagu. Funcionava, mas expunha a pessoa a uma doença real, com risco de forma grave e de morte. A vacina de Jenner usou o vírus bovino, e a vacinação se espalhou pelo mundo no século XIX. A erradicação veio de uma estratégia de vigilância: procurar casos casa a casa e vacinar os contatos em anel. O último caso natural ocorreu na Somália, em 1977. O último óbito conhecido foi o de uma fotógrafa médica infectada num laboratório em Birmingham, em 1978.
A varíola e o século XX
A OMS afirma que a varíola matou cerca de 300 milhões de pessoas só no século XX. O programa que a eliminou custou cerca de 300 milhões de dólares, e a OMS diz que a economia desde 1980 supera 1 bilhão de dólares por ano.
Antes da vacina: a variolação
Muito antes de Jenner, populações da Ásia já tentavam provocar uma forma branda de varíola. Na China, desde meados do século XVI, crostas secas eram moídas e sopradas no nariz; na Índia, usavam-se lancetas. A prática chegou à Europa em 1721, por meio de Lady Mary Wortley Montagu, que a vira no Império Otomano. No mesmo ano, em Boston, Cotton Mather a defendeu durante uma epidemia. O método reduzia o risco, mas era perigoso: expunha a pessoa à doença real, com possibilidade de forma grave e morte.
O experimento de Jenner
Em Gloucestershire, o médico Edward Jenner notou que ordenhadoras que tinham pegado varíola bovina pareciam protegidas da humana. Em maio de 1796, vacinou o menino James Phipps, de 8 anos, com material de uma ordenhadora, Sarah Nelmes. Em julho, inoculou-o com varíola humana, e Phipps permaneceu saudável. Em 1798, Jenner publicou o Inquiry, reunindo casos. A prática de vacinar se difundiu: no século XIX, houve vacinação obrigatória na Grã-Bretanha e em outros lugares.
A campanha global
A Assembleia Mundial da Saúde pediu a erradicação em 1958, e o programa começou em 1959. Só em 1967, com o Programa Intensificado, a campanha ganhou escala. A estratégia combinava vigilância, busca ativa de casos, teste, rastreamento de contatos, quarentena e comunicação. Em vez de vacinar todo mundo, equipes isolavam cada surto e vacinavam em anel os contatos. Segundo a OMS, milhares de profissionais aplicaram meio bilhão de vacinas. A América do Sul eliminou a doença em 1971, a Ásia em 1975 e a África em 1977.
Os últimos casos
O último caso natural foi em 1977, na Somália: Ali Maow Maalin, cozinheiro de hospital, se recuperou. Em 1978, em Birmingham, a fotógrafa médica Janet Parker contraiu o vírus no laboratório e morreu em setembro, a última vítima conhecida. A comissão global certificou a erradicação em 9 de dezembro de 1979, e a 33.ª Assembleia Mundial da Saúde a declarou em 8 de maio de 1980. Pequenas amostras do vírus continuam guardadas para pesquisa em dois laboratórios designados, nos Estados Unidos e na Rússia.
Como sabemos
Datas centrais conferidas em páginas da OMS e do CDC e num artigo de revisão; as cifras de mortes são estimativas da OMS.
Em debate: O local e a data do último caso natural variam conforme a forma da doença: o CDC registra Rahima Banu, em Bangladesh, em 1975, como último caso de varíola maior, e Ali Maow Maalin, na Somália, em 1977, como último de varíola menor. O texto fala em 'último caso natural' usando a referência da OMS para 1977.
- Estimativa: A varíola matava em média cerca de 3 em cada 10 infectados. [2] [1]
O CDC fala em 30% de letalidade média; a OMS diz 'pelo menos 1 em cada 3'. O valor varia por forma da doença. - Evidência forte: Na China, a partir de meados do século XVI, as crostas de varíola eram secas, moídas e sopradas no nariz (variolação por insuflação). [1]
- Fato estabelecido: Lady Mary Wortley Montagu introduziu a variolação na Europa em 1721, depois de observá-la no Império Otomano; no mesmo ano, Cotton Mather a promoveu em Boston durante uma epidemia. [1]
- Fato estabelecido: A variolação envolvia risco de doença grave e de morte. [4]
- Fato estabelecido: Em maio de 1796, Jenner vacinou James Phipps, de 8 anos, com material de varíola bovina da ordenhadora Sarah Nelmes; em julho, inoculou-o com varíola humana e o menino permaneceu saudável. [1] [4]
- Fato estabelecido: Jenner publicou o Inquiry into the Causes and Effects of the Variolae Vaccinae em 1798. [4]
- Fato estabelecido: A OMS lançou o Programa Intensificado de Erradicação em 1967, usando vigilância, busca ativa de casos e vacinação em anel dos contatos. [1] [2] [3]
- Fato estabelecido: O último caso de varíola adquirido naturalmente ocorreu em outubro de 1977, na Somália (Ali Maow Maalin, cozinheiro de hospital). [1] [2]
- Fato estabelecido: Janet Parker, fotógrafa médica da Universidade de Birmingham, adoeceu em 11 de agosto de 1978 e morreu em 11 de setembro, a última morte confirmada por varíola. [2]
- Fato estabelecido: Uma comissão global certificou a erradicação em 9 de dezembro de 1979, e a 33.ª Assembleia Mundial da Saúde a declarou em 8 de maio de 1980. [2] [3]
- Estimativa: A varíola matou cerca de 300 milhões de pessoas no século XX. [3]
Cifra citada pela OMS, sem apresentação de método; é estimativa histórica. - Estimativa: O programa custou cerca de 300 milhões de dólares, e a OMS afirma que a economia desde 1980 supera 1 bilhão de dólares por ano. [1] [3]
Valores citados pela OMS. - Fato estabelecido: Segundo a OMS, a varíola é a única doença infecciosa cuja erradicação foi declarada. [5]
- Fato estabelecido: Pequenas amostras do vírus são mantidas para pesquisa em dois laboratórios de segurança máxima designados, nos Estados Unidos e na Federação Russa. [5]
Fontes
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — History of smallpox vaccination
consultada em 04/10/2026 - Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — Smallpox: history
consultada em 04/10/2026 - Organização Mundial da Saúde (OMS) — Commemorating smallpox eradication: a legacy of hope
consultada em 04/10/2026 - PubMed Central (artigo de revisão) — Edward Jenner's Discovery of Vaccination: Impact and Legacy
consultada em 04/10/2026 - Organização Mundial da Saúde (OMS) — Smallpox
consultada em 04/10/2026
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