Genética

Lewontin e Edwards: a variação está sobretudo dentro das populações, e muitos marcadores ainda separam grupos

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Genética

Em 1972, Lewontin concluiu que, como a maior parte da variação genética humana (cerca de 85%) está entre indivíduos da mesma população, dividir a espécie em raças não se justifica. Em 2003, Edwards objetou que essa conclusão ignora a correlação entre os marcadores. Os dois pontos se sustentam nos dados: com muitos marcadores, as populações são classificadas com precisão, e pares de indivíduos de populações diferentes ainda podem ser mais parecidos do que pares da mesma população.

Marcador genético é uma posição do DNA que varia entre pessoas; alelo é cada uma de suas versões. Dizer que cerca de 85% da variação está dentro das populações significa que a diferença entre populações responde por uma fração pequena da variância total. Edwards argumenta que essa conta trata cada fator por vez, enquanto a informação que distingue populações está na correlação entre eles. Cline é uma mudança gradual das frequências dos alelos ao longo do espaço; agrupamento (cluster) é um conjunto de indivíduos que um programa reúne por semelhança genética, sem rótulo prévio, e o número de grupos (K) é uma escolha da análise. A pergunta é o que cada ferramenta consegue dizer sobre as mesmas pessoas.

Mais parecido com o outro grupo do que com o seu

Numa reanálise de 377 marcadores em 1.056 pessoas, europeus eram mais parecidos com asiáticos do que com outros europeus em 38% das vezes, segundo Witherspoon e colegas, que citam Bamshad e colegas (2004). Com milhares de marcadores em populações geograficamente separadas, essa taxa cai a zero.

A conta de 1972: o que mede e o que concluiu

Segundo Edwards (2003), costuma-se dizer que cerca de 85% da variação genética total se deve a diferenças entre indivíduos da mesma população e apenas 15% a diferenças entre populações ou grupos étnicos. A conclusão atribuída a Lewontin (1972) é que dividir a espécie em grupos não se justifica. Um estudo de 2002, com 377 microssatélites em 1.056 pessoas, encontrou 93 a 95% dentro das populações e 3 a 5% entre grandes grupos. As proporções variam conforme o estudo. O texto de Lewontin não foi lido: a descrição vem de Edwards e Roseman.

Como sabemos que as duas coisas valem ao mesmo tempo

Edwards (2003) objeta que a informação que distingue populações está na correlação entre os fatores, não em cada um isolado. Witherspoon e colegas (2007) testaram o argumento: definiram ω como a frequência com que um par de indivíduos de populações diferentes é mais parecido do que um par da mesma população. Em um dos conjuntos, ω era cerca de 20% com 100 loci e cerca de 10% com 1.000, e chegava a zero com muitos milhares. Já os métodos de classificação usam propriedades agregadas das populações e chegam perto de 100% de acerto com cerca de 100 loci.

Gradientes ou agrupamentos: o debate de 2004 e 2005

Serre e Pääbo (2004) analisaram uma amostra mais homogênea geograficamente e viram gradientes de frequências, não grupos nítidos, ressalvando que isso não exclui subdivisões. Rosenberg e colegas (2005), com 993 marcadores, responderam que a dispersão geográfica da amostra pesa pouco e que os agrupamentos refletem pequenos saltos entre populações separadas por barreiras. Witherspoon e colegas (2007) julgam que os estudos de amostragem contínua não tinham poder estatístico para decidir. Há acordo em um ponto: indivíduos de regiões intermediárias aparecem com pertencimento misto.

O que cada leitura conclui

Roseman (2021) argumenta que Edwards errou o alvo: a crítica de Lewontin visava a utilidade da classificação racial, não a atribuição de indivíduos a grupos, e é a estrutura de correlação inteira entre grupos locais que torna a taxonomia racial inútil. Edwards concluiu o contrário, segundo Roseman. Witherspoon e colegas calculam que características controladas por uma dúzia de loci ou menos devem se sobrepor bastante entre populações. Agrupar é possível com muitos marcadores; quantos grupos aparecem e onde ficam as fronteiras dependem do desenho do estudo.

Como sabemos

O núcleo (Witherspoon 2007 e Serre e Pääbo 2004) foi lido no texto; Lewontin 1972, Edwards 2003, Roseman 2021 e os dois estudos de Rosenberg só no resumo.

Em debate: Serre e Pääbo (2004) viram gradientes de frequências quando a amostragem era homogênea e apontaram que a atribuição aos grupos mudava com o número de grupos. Rosenberg e colegas (2005) responderam que a dispersão geográfica da amostra pesa pouco e que os agrupamentos refletem pequenos saltos entre populações separadas por barreiras. Witherspoon e colegas (2007) consideram que os estudos de amostragem contínua não tinham poder estatístico para decidir a questão. Os trabalhos descrevem indivíduos de regiões intermediárias com pertencimento misto; divergem sobre a origem dos agrupamentos.

Em debate: Edwards (2003) sustenta que a conclusão de Lewontin não decorre da conta, porque a informação que distingue populações está na correlação entre os fatores. Roseman (2021) responde que Edwards errou o alvo da crítica de Lewontin, dirigida à utilidade da classificação racial, e que a estrutura de correlação completa reforça essa crítica. Ambos descrevem a conta de forma compatível; divergem sobre o que ela mostra.

Fontes

  1. BioEssays — Human genetic diversity: Lewontin's fallacy
    Edwards, A. W. F. · 2003 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/bies.10315
  2. BioEssays — Lewontin did not commit Lewontin's fallacy, his critics do: Why racial taxonomy is not useful for the scientific study of human variation
    Roseman, C. C. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/bies.202100204
  3. Genetics — Genetic similarities within and between human populations
    Witherspoon, D. J.; Wooding, S.; Rogers, A. R.; et al. · 2007 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Genome Research — Evidence for gradients of human genetic diversity within and among continents
    Serre, D.; Pääbo, S. · 2004 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1101/gr.2529604
  5. Science — Genetic structure of human populations
    Rosenberg, N. A.; Pritchard, J. K.; Weber, J. L.; Cann, H. M.; Kidd, K. K.; Zhivotovsky, L. A.; Feldman, M. W. · 2002 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1078311
  6. PLoS Genetics — Clines, clusters, and the effect of study design on the inference of human population structure
    Rosenberg, N. A.; Mahajan, S.; Ramachandran, S.; Zhao, C.; Pritchard, J. K.; Feldman, M. W. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pgen.0010070
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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