Paleontologia

Vale dos Dinossauros, em Sousa (PB): o que as pegadas do Cretáceo Inferior revelam

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Fósseis

As pegadas de Sousa (PB) registram dinossauros terópodes e ornitópodes que andaram, no início do Cretáceo, pelas margens de lagos rasos e temporários numa bacia formada durante a abertura do Atlântico. Só no sítio Passagem das Pedras, um levantamento de 2019 achou ao menos 11 trilhas e mais de 170 pegadas, hoje ameaçadas por erosão e pisoteio de gado.

Trilha é a sequência de pegadas deixadas por um mesmo animal ao andar. As de Sousa estão na Formação Sousa, pacote de arenitos, siltitos e argilitos da Bacia de Sousa, uma das bacias do Rio do Peixe, no oeste da Paraíba, formadas ao longo de falhas do embasamento durante a abertura do Atlântico. Dentro do Monumento Natural Vale dos Dinossauros afloram só essas rochas, e o sítio Passagem das Pedras ocupa cerca de 1.200 m² no leito do Rio do Peixe. O monumento guarda os holótipos (exemplares de referência) de pelo menos três icnogêneros, nomes dados a tipos de pegada e não ao animal que as fez. Este artigo trata do que o sítio mostra; o que é um icnofóssil tem texto próprio.

Pegadas cercadas por gravuras

No Serrote do Letreiro, outro sítio da Bacia de Sousa, pegadas de dinossauros do Cretáceo Inferior aparecem rodeadas por petróglifos. Um estudo de 2024 conclui que os gravadores reconheceram as pegadas e fizeram as gravuras em volta delas.

Quem deixou as pegadas, e até onde dá para saber

No levantamento de 2019, só a trilha A foi atribuída com segurança a um ornitópode; ao menos cinco (B, C, D, E e H) lembram terópodes, e as trilhas I e J ficaram apenas como de dinossauros bípedes. Na escala da região, Leonardi e Carvalho contaram 296 trilhas de grandes terópodes, 42 de saurópodes e 28 de ornitópodes, e só 34 trilhas em quatro grupos gregários. Para eles, as de grandes terópodes são possivelmente de abelisaurídeos, uma hipótese. É contagem de trilhas preservadas, não de animais vivos.

Como sabemos: idade, lagos e clima

A idade baseia-se em pólen e esporos fósseis, que situam os depósitos entre o Berriasiano e o Barremiano inferior; as fontes lidas não dão datação radiométrica direta das pegadas. O ambiente vem das rochas, de camadas finas depositadas em lagos, pântanos e rios meandrantes, com gretas de ressecamento e marcas de gotas de chuva. Os conchostráceos fósseis, pequenos crustáceos, indicaram lagos rasos, quentes e alcalinos. Tudo é inferência indireta.

Datas e proteção: por que o monumento tem mais de uma data

Há três marcos. O plano de manejo cita o Decreto nº 14.883, de 19/10/1992, que declarou a área de interesse social para desapropriação; o SIGEP e um artigo da UFRJ dão 20/12/1992 como a designação de Monumento Natural, e o SIGEP cita o Decreto nº 14.833. O Vale foi inaugurado em 10/07/1999, e o Decreto nº 23.832, de 27/12/2002, é a instituição legal da unidade. Não consultamos o Diário Oficial.

O que se perde: erosão, gado e pegadas retiradas

O levantamento de 2019 aponta intemperismo e erosão como principais causas da degradação, com danos irreversíveis do pisoteio de gado. Estruturas descritas por Leonardi em 1979 na trilha A, como almofadas pedais e dobras da pele do pé, não foram mais identificadas. Em 1998 abriu-se um canal de alívio para reduzir o desgaste, e duas pegadas (a 4 da Trilha A e a 6 da B) saíram do sítio antes do monumento, sem resultados formais conhecidos.

Como sabemos

Fatos sobre o sítio vêm de documentos oficiais e de um capítulo de referência lidos na íntegra, mas a contagem regional é de 2000 e as datas de criação do monumento divergem entre as fontes.

Em debate: O plano de manejo (2021) cita o Decreto nº 14.883 de 19/10/1992 (desapropriação), o capítulo do SIGEP (2000) cita o Decreto nº 14.833 de 20/12/1992 como o que criou o Monumento Natural, e o plano usa as duas numerações. A instituição legal como unidade de conservação consta no Decreto nº 23.832 de 27/12/2002.

Fontes

  1. SIGEP / DNPM-CPRM, Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil — As pegadas de dinossauros das bacias Rio do Peixe, PB (Sítio SIGEP 026)
    Leonardi, G.; Carvalho, I. S. · 2000 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Departamento de Geologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (I Simposio de Geoparques y Geoturismo en Chile) — Conservação do patrimônio geológico de Sousa, Paraíba (Brasil): importância científica, educacional e geoturística
    Santos, W. F.; Barbosa, G. M. F.; Carvalho, I. S. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. SUDEMA, Governo da Paraíba — Plano de Manejo do Monumento Natural Vale dos Dinossauros, Sousa/PB
    Superintendência de Administração do Meio Ambiente (SUDEMA-PB) · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Scientific Reports — A remarkable assemblage of petroglyphs and dinosaur footprints in Northeast Brazil
    Troiano, L. P.; Dos Santos, H. B.; Aureliano, T.; Ghilardi, A. M. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-024-56479-3
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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