Zoologia

Urubu-de-cabeça-vermelha acha carniça também pelo cheiro, ao contrário do que Audubon defendeu em 1826

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

O urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) usa o olfato para achar carniça: em experimentos de campo relatados em 1964, sem pista visual de alimento, detectou iscas escondidas e reagiu ao etil-mercaptano, composto sulfurado de odor forte. Audubon defendera o contrário em 1826. O urubu-de-cabeça-vermelha tem bulbos olfatórios cerca de 4 vezes maiores que os do urubu-de-cabeça-preta.

Olfato é a detecção de moléculas no ar. O bulbo olfatório é a região do cérebro que recebe esse sinal, e as células mitrais são as que o enviam adiante. Por muito tempo as aves foram tidas como quase sem olfato; hoje o olfato é reconhecido como importante em aves, mas varia muito entre espécies. Os abutres do Velho Mundo parecem usar só a visão, e entre os urubus do Novo Mundo o uso do olfato também varia. O urubu-de-cabeça-vermelha é o caso mais estudado de busca de carniça pelo cheiro. Audubon concluiu em 1826 que urubus não cheiram; Stager, em 1964, refez a pergunta com testes que isolavam a pista visual.

Urubus e vazamentos de gás

Segundo um engenheiro aposentado de uma petroleira, citado por Stager, vazamentos num gasoduto na Califórnia foram achados onde havia urubus, depois que se pôs etil-mercaptano na linha. É um relato de segunda mão, não um experimento.

Como Stager separou cheiro de visão

Stager (1964) usou, no campo, iscas animais escondidas em câmaras, uma carcaça de cervo montada como isca só visual e etil-mercaptano. Segundo ele, a carcaça montada não atraiu urubus; a carcaça fresca, de mesmo tamanho e aparência, atraiu rápido; as iscas escondidas foram detectadas. A lógica é isolar a pista: se a visão bastasse, a carcaça montada serviria. Limite: é um único autor, com observação direta do comportamento das aves, sem as estatísticas atuais.

O que a anatomia acrescenta

Em 2017, Grigg e colegas mediram bulbos olfatórios e contaram células mitrais em cérebros preservados de três urubus-de-cabeça-vermelha e três urubus-de-cabeça-preta. Os bulbos do primeiro são cerca de 4 vezes maiores e têm o dobro de células mitrais, com um cérebro 20% menor. Estimativas anteriores usavam moldes do crânio, que segundo os autores não refletem bem o tamanho do bulbo. Limite: amostra pequena, de três indivíduos por espécie.

Olfato em aves: varia de espécie para espécie

A ideia de que aves não cheiram é histórica e hoje é vista como exagero: o olfato é reconhecido como importante em aves, mas a importância varia. Entre os urubus, os do Velho Mundo parecem usar só a visão, o urubu-de-cabeça-preta parece depender pouco do cheiro e o urubu-de-cabeça-vermelha se destaca. Por isso a pergunta 'aves têm olfato?' não tem uma resposta única: depende da espécie e da tarefa.

No Brasil: o Cerrado do Piauí

Um estudo de 2022 colocou carcaças no Cerrado do Piauí, onde convivem quatro espécies de urubus americanos. Os autores viram que urubus de olfato desenvolvido, do gênero Cathartes, chegavam entre os primeiros e que a presença deles servia de pista visual para os demais. Os próprios autores ressalvam que os dados são correlacionais; é um retrato de uma comunidade, não um teste isolado do olfato.

Como sabemos

Experimentos de Stager e anatomia de Grigg concordam; um estudo de sensibilidade a odores (Smith e Paselk, 1986) não foi lido por meio permitido e fica pendente.

Em debate:

Fontes

  1. Los Angeles County Museum, Contributions in Science, n. 81 — The role of olfaction in food location by the turkey vulture (Cathartes aura)
    Stager, K. E. · 1964 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  2. Scientific Reports — Anatomical evidence for scent guided foraging in the turkey vulture
    Grigg, N. P.; Krilow, J. M.; Gutierrez-Ibanez, C.; Wylie, D. R.; Graves, G. R.; Iwaniuk, A. N. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-17794-0
  3. Proceedings of the Royal Society B — Scavenging in the realm of senses: smell and vision drive recruitment at carcasses in Neotropical ecosystems
    Naves-Alegre, L.; Morales-Reyes, Z.; Sánchez-Zapata, J. A. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2022.0843
  4. Frontiers in Veterinary Science — Birds and Dogs: Toward a Comparative Perspective on Odor Use and Detection
    Prada, P. A.; Furton, K. G. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3389/fvets.2018.00188
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos