Astronomia

Como se mediu a unidade astronômica: de Vênus em 1761 e 1769 ao radar e à definição exata de 2012

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sistema Solar

Desde 2012, a unidade astronômica (símbolo oficial: au) vale exatamente 149 597 870 700 m, por definição da União Astronômica Internacional. Antes disso ela foi medida: as expedições aos trânsitos de Vênus de 1761 e 1769 deram, segundo a NASA, o primeiro bom valor da distância ao Sol, e os ecos de radar em Vênus, em 1961, a fixaram perto de 149,6 milhões de km.

Uma unidade astronômica é, em essência, o tamanho da órbita da Terra: aproximadamente a distância média entre a Terra e o Sol, cerca de 150 bilhões de metros. As leis de Kepler dão as distâncias dos planetas ao Sol apenas como proporções. Faltava uma única régua em unidades humanas, e com ela todo o Sistema Solar ganhava escala. Durante séculos a régua veio da paralaxe, a mudança aparente de posição de um objeto visto de pontos diferentes. No século XX veio o radar, que mede o tempo de ida e volta de uma onda de rádio. Em 2012 a medição deixou de ser a definição: o valor passou a ser fixo, e o que se mede agora é outra coisa, como a massa do Sol.

Por que a gota negra atrapalhava

Perto do contato interno, a silhueta de Vênus não se soltava limpa da borda do Sol. Isso pôs o erro de tempo mais perto de um minuto do que dos um ou dois segundos esperados. Observações do trânsito de Mercúrio, que quase não tem atmosfera, mostraram que a causa não é só a atmosfera de Vênus.

A régua que faltava: o método de Halley

Kepler descreveu o Sistema Solar em proporções. Faltava transformar uma delas em quilômetros. Edmond Halley propôs usar os trânsitos de Vênus: de lugares distantes da Terra, Vênus parece cruzar o Sol em cordas diferentes, e a diferença nas durações revela a paralaxe. Os trânsitos vêm em pares separados por 8 anos, com mais de um século entre pares, e por isso eram oportunidades raras e planejadas décadas antes.

1761 e 1769: expedições pelo mundo

Dezenas de expedições de vários países foram ao mundo todo observar esses trânsitos; a mais famosa levou James Cook ao Taiti em 1769. Segundo a NASA, o resultado foi o primeiro bom valor da distância ao Sol. O limite estava na medição do tempo: a gota negra impedia marcar o contato interno com precisão, e a imprecisão ficou mais perto de um minuto do que de um ou dois segundos. Pasachoff e colegas apontam que a causa não é só a atmosfera de Vênus.

O radar em Vênus, 1961

O radar trocou a cronometragem de um evento raro por uma medição repetível. Em 10 de março de 1961, a antena de Goldstone enviou ondas de rádio a Vênus e captou o eco. O tempo de ida e volta, com a velocidade da luz, dá a distância em quilômetros. Os resultados de 1961 concordaram em torno de 149,6 milhões de km, e os radares do MIT e de Jodrell Bank de 1958 e 1959 foram descartados. Em 1964 a UAI adotou o valor do JPL, arredondado.

2012: de medida a definição

Até 2012, a unidade astronômica era definida pela constante gravitacional de Gauss: o comprimento para o qual k vale 0,01720209895. Medições de distância tão precisas tornaram esse arranjo desnecessário, e a UAI fixou a unidade em 149 597 870 700 m exatos. A mudança deixa a unidade independente de outras constantes e do modelo do Sistema Solar; o que se mede agora, com as mesmas técnicas, é outra grandeza.

Como sabemos

A definição de 2012 e o histórico do radar vêm de documentos institucionais e de um capítulo da NASA de 1962; a parte dos trânsitos de 1761 e 1769 se apoia em duas fontes (NASA/Espenak e Pasachoff et al.), sem o valor numérico obtido.

Fontes

  1. NASA/JPL Solar System Dynamics — au (astronomical unit)
    NASA/JPL Solar System Dynamics · 2026 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. SYRTE, Observatoire de Paris (PSL) — New IAU definition of the astronomical unit of length (IAU 2012 Resolution B2)
    SYRTE, Observatoire de Paris · 2012 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. NASA Goddard Space Flight Center (eclipse.gsfc.nasa.gov) — 2004 and 2012 Transits of Venus
    Espenak, F. · 2002 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. arXiv (astro-ph/0310379) — Space Studies of the Black-Drop Effect at a Mercury Transit
    Schneider, G.; Pasachoff, J. M.; Golub, L. · 2003 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. NASA — Radar Astronomy, em Lunar and Planetary Sciences in Space Exploration (NASA SP-14)
    Victor, W. K. · 1962 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  6. IMCCE, Observatoire de Paris — À la recherche de la parallaxe solaire (10/11): Écho radar sur Vénus, Lettre d'information de l'IMCCE n° 106
    IMCCE · 2014-11 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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