Biologia

"Uma formiga, um fungo": a hipótese dos fungos-zumbi nasceu em Minas Gerais e já tem dados contrários

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Em 2011, quatro espécies de Ophiocordyceps coletadas em Minas Gerais, cada uma em uma espécie diferente de formiga-carpinteira, levaram à hipótese de que cada formiga tem o seu fungo. Descrições posteriores em vários países a reforçaram, mas um estudo chinês de 2023 propõe que mais de um fungo pode atacar a mesma formiga. A regra segue em teste.

Ophiocordyceps unilateralis é o fungo que faz formigas morrerem presas à vegetação, o chamado fungo-zumbi. Hoje o nome designa um complexo de espécies: grupo de organismos parecidos, antes tratados como uma só espécie e depois separados por forma dos esporos, genes e hospedeiro. Os hospedeiros são formigas da tribo Camponotini, que inclui as formigas-carpinteiras (Camponotus). A pergunta é se cada espécie de fungo ataca uma única espécie de formiga. Há um cuidado de método: quando o nome do fungo é dado pelo hospedeiro, a especificidade vira critério de classificação, e não só resultado. Por isso contam também as medidas independentes, como as árvores genéticas e a falta de infecção cruzada observada.

O exemplar-tipo foi ilustrado numa saúva que parece ser outra formiga

A descrição de 1865 apontava uma saúva (Atta cephalotes). Ao reexaminar a ilustração, os autores de 2018 concluíram que a formiga é a carpinteira Camponotus sericeiventris. O exemplar original sumiu, e foi designado um novo tipo de Juiz de Fora (MG).

Como sabemos: o que a hipótese mede e o que não mede

As provas vêm de três tipos de dado: forma dos esporos e das fases do fungo, árvores genéticas e coletas de campo sem infecção cruzada. A forma separou as quatro espécies mineiras de 2011. Em 2012, na Tailândia, dois genes separaram três linhagens ligadas a três formigas. O limite é que o hospedeiro também serve de nome: sem teste de infecção, a associação é inferida de onde o fungo é achado, e o nome pode embutir a conclusão.

O tipo de O. unilateralis é mineiro

O exemplar de 1865 desapareceu, e a ilustração aponta para a formiga Camponotus sericeiventris, não para uma saúva. Em 2018 foi designado um epítipo, um novo exemplar de referência, coletado em Juiz de Fora (MG), em 2014. Os autores avisam que a espécie tem cinco subespécies, e três delas só ocorrem na Mesoamérica. Assim, o nome O. unilateralis em sentido estrito fica atrelado a um fungo de uma formiga do sudeste do Brasil.

Quantas espécies podem existir

Se a regra valesse sempre, o número de fungos seguiria o de formigas Camponotini. A estimativa de cerca de 580 espécies, dos autores de 2018, não tem método publicado, e a previsão de 2011 fala em dezenas ou centenas de espécies a delimitar. São projeções, não contagens. No Brasil, o artigo do ICMBio de 2022 registra no Ceará 210 formigas de uma só espécie com um mesmo fungo, o que ilustra a regra, mas não a testa.

O que muda com os contraexemplos

Em Yunnan, quatro fungos distintos aparecem na mesma formiga "Camponotus sp.", e Polyrhachis diferentes abrigam o mesmo fungo. O estudo cita ainda um trabalho de 2020, que não li, sobre uma espécie que infectaria oito formigas. Nada disso derruba as séries de Minas e da Tailândia, mas torna a regra uma tendência a testar, caso a caso, com identificação precisa da formiga e infecções experimentais.

Como sabemos

Os fatos de Minas Gerais e do epítipo vêm de artigos lidos na íntegra; a regra geral é hipótese com apoio e contrapontos, e dois resultados (Kobmoo e Lin) vêm só de resumo ou de segunda mão.

Em debate:

Fontes

  1. Studies in Mycology — Zombie-ant fungi across continents: 15 new species and new combinations within Ophiocordyceps. I. Myrmecophilous hirsutelloid species
    Araújo, J.P.M., Evans, H.C., Kepler, R., Hughes, D.P. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.simyco.2017.12.002
  2. PLoS ONE — Hidden diversity behind the zombie-ant fungus Ophiocordyceps unilateralis: four new species described from carpenter ants in Minas Gerais, Brazil
    Evans, H.C., Elliot, S.L., Hughes, D.P. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0017024
  3. Fungal Systematics and Evolution — Epitypification and re-description of the zombie-ant fungus, Ophiocordyceps unilateralis (Ophiocordycipitaceae)
    Evans, H.C., Araújo, J.P.M., Halfeld, V.R., Hughes, D.P. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3114/fuse.2018.01.02
  4. Molecular Ecology — Molecular phylogenies reveal host-specific divergence of Ophiocordyceps unilateralis sensu lato following its host ants
    Kobmoo, N., Mongkolsamrit, S., Tasanathai, K., Thanakitpipattana, D., Luangsa-ard, J.J. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/j.1365-294X.2012.05574.x
  5. IMA Fungus — Six new species of zombie-ant fungi from Yunnan in China
    Tang, D., Huang, O., Zou, W., Wang, Y., et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s43008-023-00114-9
  6. Biodiversidade Brasileira (ICMBio) — O que tem em sua cabeça, zumbi? Formigas Camponotus renggeri parasitadas pelo fungo entomopatogênico Ophiocordyceps camponoti-renggeri em um relicto de Mata Atlântica no bioma Caatinga, Brasil
    Alencar, C.L.S., Vicente, R.E., Pires, J.C., Fonseca, E.O., Sobczak, J.F. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.37002/biobrasil.v12i4.2081
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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