Ciências da Terra

Tyndall e o tubo de sal-gema: como medidas de 1859 a 1861 mostraram que vapor d'água e CO2 absorvem calor

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Tempo e clima

Em 1859, John Tyndall enviou calor radiante por um tubo de 4 pés (cerca de 1,2 m), fechado com placas de sal-gema, e mediu quanto cada gás o absorvia. Ar seco, oxigênio, nitrogênio e hidrogênio quase nada absorveram (cerca de 0,33%); o gás oleificante cortou cerca de 81% numa das provas. Nas medidas de 1861, o CO2 absorveu, em pequenas quantidades, cerca de 150 vezes mais que o oxigênio, e o vapor d'água do ar do laboratório, ao menos 13 vezes mais que o ar seco.

Calor radiante é a energia que um corpo quente emite como radiação, mesmo sem luz visível; hoje chamamos essa faixa de infravermelho. Desde Fourier, na década de 1820, suspeitava-se que gases do ar retinham parte do calor da superfície, mas medir isso era difícil: Melloni concluíra que o ar absorvia de modo imperceptível o calor radiante numa distância de 18 ou 20 pés. Tyndall montou um tubo de 4 pés com placas de sal-gema nas pontas, porque o vidro barra esse calor, ligou-o a uma bomba de ar e comparou o calor que chegava a uma pilha termoelétrica com o tubo vazio e com o tubo cheio de gás. Ele chamava o CO2 de "ácido carbônico". A nota de 1859 anunciou o método; as medidas quantitativas saíram na Bakerian Lecture de 1861.

Menos de 3 cm³ de gás moveram a agulha 50 graus

Numa das provas, Tyndall abriu uma torneira por um instante e deixou entrar no tubo, no máximo, um sexto de polegada cúbica de gás oleificante (menos de 3 cm³, conta nossa). A agulha do galvanômetro saiu do zero e parou em 50°.

O aparelho e a balança entre duas pilhas

Um tubo de 4 pés, bomba de ar, placas de sal-gema nas pontas e uma pilha termoelétrica ligada a um galvanômetro. O problema era de sensibilidade: com pouco calor, a fração absorvida era pequena demais para ver; com muito, a agulha ia para uma faixa em que cada grau valia muito mais calor (no instrumento dele, de 60° a 61° pedia cerca de vinte vezes o calor de 11° a 12°). A solução foi opor duas pilhas e trazer a agulha a zero com o tubo cheio de ar.

O que ele mediu

Ar seco, oxigênio, nitrogênio e hidrogênio absorveram cerca de 0,33% do calor; o gás oleificante cortou cerca de 81% numa prova. Em pequenas quantidades, o ácido carbônico absorvia cerca de 150 vezes mais que o oxigênio, e o óxido nitroso cerca de 250 vezes mais que o ar. A ordem dos gases que mais irradiavam calor era a mesma dos que mais absorviam. Era a tese de que o ar "transparente" não é transparente a todo calor.

Do tubo à atmosfera: inferência, não medição

Com uma medida de um dia, Tyndall estimou que o vapor d'água absorvia ao menos 13 vezes o que o ar absorve, e argumentou que, sendo transparente à luz, aumentaria a diferença entre o calor que chega e o que sai. Daí propôs que pequenas variações de vapor e CO2 bastariam para mudar o clima. Era hipótese: ele mesmo deixou "duvidosa" a extensão do efeito, e não calculou temperaturas.

Eunice Foote e a questão da prioridade

Em 1856, Foote mediu o aquecimento ao sol de cilindros com ar comprimido, rarefeito, úmido, seco e com gás carbônico, e escreveu que uma atmosfera com mais desse gás daria à Terra uma temperatura alta. O NOAA ressalva que o desenho dela não revelava o mecanismo e que Tyndall não a citou, sem saber se a conhecia. O experimento de Tyndall mediu calor escuro, isolou gases e quantificou; os dois trabalhos são distintos.

O que veio depois

A objeção de saturação, a partir de uma medida em tubo ligada a Knut Ångström, levou muitos a descartar o CO2 por décadas, apesar de falha de lógica. Cálculos realistas só vieram com a teoria quântica, medições de infravermelho e computadores digitais, entre os anos 1930 e 1950. O cálculo quantitativo anterior, de Arrhenius em 1896, e o balanço de energia que explica os 33 °C têm seus próprios posts.

Como sabemos

Os números e o aparelho vêm dos textos originais de Tyndall (OCR do Internet Archive, conferido por trecho); a questão da prioridade de Foote vem de fontes secundárias institucionais e está formulada com cautela.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society of London, v. 10, p. 37-39 (exemplar digitalizado, Internet Archive) — Note on the Transmission of Radiant Heat through Gaseous Bodies
    Tyndall, J. · 1859 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspl.1859.0017
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, v. 151 (exemplar digitalizado, Internet Archive) — The Bakerian Lecture: On the Absorption and Radiation of Heat by Gases and Vapours, and on the Physical Connexion of Radiation, Absorption, and Conduction
    Tyndall, J. · 1861 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rstl.1861.0001
  3. The American Journal of Science and Arts, 2ª série, v. 22, p. 382-383 (exemplar digitalizado, Internet Archive) — Circumstances affecting the heat of the Sun's rays (Art. XXXI)
    Foote, E. · 1856 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. NOAA Climate.gov — Happy 200th birthday to Eunice Foote, hidden climate science pioneer
    Huddleston, A. (revisão: Mariotti, A.) · 2019-07-17 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. American Institute of Physics, Center for History of Physics — The Carbon Dioxide Greenhouse Effect (The Discovery of Global Warming)
    Weart, S. R. · s.d. · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos