Astronomia
Tunguska (1908) e Tcheliabinsk (2013): explosões no ar de cerca de 10 a 20 Mt e de 500 kt, e o que ensinaram
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Em 1908, um objeto de algumas dezenas de metros explodiu no ar sobre a Sibéria com energia estimada em 10 a 20 megatons de TNT, a cerca de 10 km de altura, sem deixar cratera nem fragmentos achados. Em 2013, um asteroide de cerca de 19 m liberou cerca de 500 quilotons sobre Tcheliabinsk, quebrando-se entre 45 e 30 km de altitude, e foi registrado em vídeo. O segundo evento serviu para calibrar os modelos do primeiro.
Um asteroide que se fragmenta na atmosfera despeja a energia no ar, numa explosão aérea (em inglês, airburst), e, acima de um certo tamanho, a atmosfera absorve energia suficiente para impedir o impacto no solo, de modo que a maior parte do dano vem da onda de choque. A energia é dada em equivalente de TNT: 1 quiloton (kt) são mil toneladas e 1 megaton (Mt), mil quilotons. A altura da explosão pesa tanto quanto a energia, como mostra a comparação entre os dois casos. Tunguska e Tcheliabinsk são os dois grandes casos do período moderno, e um completa o outro: o de 1908 tem a escala, mas quase nenhum dado medido; o de 2013 tem os dados, mas com energia pelo menos dez vezes menor. Chicxulub e a sonda DART têm artigos próprios.
Tunguska refeita no computador
Em janeiro de 2018, cerca de 50 especialistas se reuniram no Centro Ames, da NASA, para reexaminar Tunguska com as ferramentas criadas depois de Tcheliabinsk. Quatro códigos de simulação diferentes concordaram, em linhas gerais, na faixa de 10 a 20 Mt.
Por que a altura da explosão pesa tanto
Em Tcheliabinsk, a análise dos vídeos indica que o asteroide se quebrou em pedaços pequenos entre 45 e 30 km, o que evitou danos mais sérios no solo. O objeto de 1908, com energia de 10 a 20 Mt, explodiu bem mais baixo, a cerca de 10 km nos modelos mais prováveis. Os modelos que reproduzem o caso de 2013 só dão uma altura baixa para Tunguska se o objeto de 1908 fosse bem mais resistente, o que é uma condição, não uma medição. O de 2013 tinha resistência de cerca de 1 megapascal.
Como sabemos o que aconteceu em Tunguska, sem câmeras
Em 1908 ninguém registrou a explosão por instrumentos no local. A primeira pesquisa científica veio cerca de duas décadas depois, e os dados são árvores caídas e queimadas, poucos relatos de testemunhas, registros sísmicos e infrassom. Dois microbarógrafos de boa qualidade e o sismógrafo de Irkutsk, a cerca de mil km, dão uma energia de 10 a 20 Mt. As árvores servem de restrição aos modelos. Cada fonte tem incerteza, e por isso o resultado é uma faixa, não um número.
O que Tcheliabinsk acrescentou: dados, não só um susto
Tcheliabinsk ocorreu numa região com mais de um milhão de habitantes e numa época de câmeras, sensores e laboratórios, o que deu medições sem precedente do evento e do meteoroide. Vídeos permitiram reconstruir a trajetória e a altura da fragmentação. A análise do dano mostrou que as relações baseadas em armas nucleares superestimam o dano, o que, segundo Brown e colegas, indica que estimativas anteriores perto do tamanho-limite eram altas.
Com que frequência isso acontece
Pela estimativa da NASA, uma explosão como a de Tcheliabinsk ocorre na Terra inteira cerca de uma vez por século, e uma com a energia de Tunguska a cada 2.000 a 4.000 anos. Em terra firme, os intervalos são cerca de três vezes maiores. A incerteza é grande: a população de asteroides nessa faixa é incerta por um fator de 2 ou mais, e Brown e colegas sugerem que objetos de dezenas de metros podem ser dez vezes mais numerosos que outras técnicas indicam.
Um número que se repete sem base: 80 milhões de árvores
O dado de que Tunguska derrubou 80 milhões de árvores é citado como fato em muitos textos. Segundo Boslough e Bruno, ele vem de um palpite do astrônomo Astapovich sobre a área devastada, repassado por citações sucessivas, e foi superestimado em cerca de quatro vezes. Eles também lembram que os ventos atrás das ondas de choque em Tunguska foram de dezenas de metros por segundo.
Como sabemos
Os números principais vêm de um relatório da NASA lido por inteiro e de dois resumos de artigos da Nature; as energias, o tamanho e a frequência são estimativas, e a natureza do objeto de Tunguska é incerta.
Em debate:
- Evidência forte: A explosão aérea de 15 de fevereiro de 2013 foi causada por um asteroide de cerca de 19 m (17 a 20 m) de diâmetro, a sudeste de Tcheliabinsk, com energia estimada em cerca de 500 kt (±100 kt) de TNT. Foi a maior explosão aérea na Terra desde Tunguska, em 1908. [3] Resumo [2] Resumo [4] Resumo
Contexto: Evento de 15 de fevereiro de 2013, sobre os Urais do Sul, na Rússia. · Limitações: Diâmetro e energia são estimativas com margem declarada pelos autores; a energia é estimada por mais de um método. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: A análise de vídeos do evento de 2013 mostrou que o asteroide se quebrou em pedaços pequenos entre 45 e 30 km de altitude, o que, segundo os autores, evitou danos mais sérios no solo. [2] Resumo [4] Resumo
Contexto: Reconstrução a partir de vídeos selecionados, com trajetória calculada por triangulação. · Limitações: A relação entre altitude e dano é a conclusão dos autores para este caso, não uma regra geral. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Em Tunguska, janelas se quebraram a 200–300 km do local e houve queimaduras em pele exposta até 50 km, mas os relatos são poucos e foram coletados décadas depois. Em Tcheliabinsk, estima-se que 1% dos moradores locais tenha se ferido, a maioria sem gravidade. [1] Background and Previous Work on Tunguska
Contexto: Síntese apresentada por Peter Jenniskens e colegas no workshop de 2018 da NASA. · Limitações: Os dados de Tunguska vêm de relatos anedóticos; o percentual de feridos em Tcheliabinsk é estimativa de levantamento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A massa total dos fragmentos sobreviventes de Tcheliabinsk com mais de 100 g foi menor do que se esperava, e a resistência do asteroide, de cerca de 1 megapascal, era parecida com a de meteoroides menores. [2] Resumo
Contexto: Fragmentos recuperados no solo depois do evento de 2013. · Limitações: O resumo não informa a massa recuperada; o artigo completo não foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Os modelos mais prováveis para Tunguska convergiram, no workshop da NASA de 2018, em uma energia de 10 a 20 Mt, liberada numa explosão aérea a cerca de 10 km de altura. Estimativas anteriores iam de 3 a 20 Mt, e a de Mark Boslough permanece em 3 a 5 Mt. [1] Background and Previous Work on Tunguska
Contexto: Resultado de modelos computacionais calibrados por dados de árvores caídas, sismógrafos e infrassom. · Limitações: A altura varia entre modelos (6 a 8 km nos modelos russos citados; 8 a 13 km nas simulações de Wheeler e Mathias). A conclusão depende de poucos dados medidos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Tunguska não há cratera de impacto e nenhum fragmento do objeto foi recuperado, talvez porque a região é pantanosa. [1] Introduction
Contexto: Região de Tunguska, Sibéria central, evento de 1908. · Limitações: A explicação do terreno pantanoso é apresentada com 'talvez'; a ausência de cratera é coerente com uma explosão no ar, mas não é, sozinha, prova disso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A primeira pesquisa científica no local de Tunguska só ocorreu cerca de duas décadas depois do evento, e os dados disponíveis se resumem a árvores caídas e queimadas, poucos relatos de testemunhas, registros sísmicos e uma onda de pressão (infrassom) medida pelo mundo. [1] Abstract
Contexto: Limites dos dados disponíveis sobre Tunguska, segundo o relatório da NASA. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A melhor estimativa combinada de infrassom e dados sísmicos para Tunguska é de 10 a 20 Mt, valor compatível com a maior parte dos modelos modernos que usam as árvores caídas e queimadas como restrição. [1] Seção sobre infrassom (Peter Brown)
Contexto: Reanálise de duas microbarografias de boa qualidade e do sinal sísmico, comparados com testes nucleares e com Tcheliabinsk. · Limitações: A relação entre a explosão e os sinais sísmico e acústico também tem incertezas, apontadas pelo relatório. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Se o objeto de Tunguska era um asteroide rochoso parecido com o de Tcheliabinsk, teria entre 50 e 80 m de diâmetro. A atribuição do evento a um cometa ou a um asteroide rochoso segue em aberto. [1] Introduction
Contexto: O tamanho depende da composição e da velocidade de entrada assumidas. · Limitações: O relatório cita 30 a 60 m em modelos russos e 50 a 70 m em outra parte do texto; o intervalo varia com as hipóteses. · O diâmetro é condicional à composição, e a natureza do objeto (cometa ou asteroide) não foi estabelecida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Tcheliabinsk deu muito mais dados quantitativos sobre uma explosão aérea destrutiva do que Tunguska, mas com energia pelo menos uma ordem de grandeza menor. Com 500 kt contra 10 a 20 Mt, a razão é de cerca de 20 a 40 vezes (cálculo nosso). [1] Introduction
Contexto: Comparação de energias estimadas. · Limitações: A razão de 20 a 40 vezes é conta nossa: 10 Mt ÷ 0,5 Mt = 20 e 20 Mt ÷ 0,5 Mt = 40, com 1 Mt = 1.000 kt. Herda a incerteza de ambas as estimativas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os modelos de explosão aérea que reproduzem Tcheliabinsk dão alturas de explosão mais altas que as estimadas para Tunguska quando escalados para ela. Eles só se conciliam se o objeto de 1908 fosse bem mais resistente que o de 2013, o que o deixaria penetrar mais fundo antes de se desintegrar. [1] Background and Previous Work on Tunguska
Contexto: Comparação de três modelos semianalíticos (panqueca, nuvem de detritos e reação em cadeia) feita por McMullan e Collins. · Limitações: É uma condição para conciliar os modelos, não uma medição da resistência do objeto de 1908. · Interpretação baseada em modelagem; a resistência do objeto de Tunguska não foi medida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Uma explosão com energia de Tunguska (10 a 20 Mt) deve ocorrer na Terra inteira a cada 2.000 a 4.000 anos, e uma do tamanho de Tcheliabinsk cerca de uma vez por século. Para impacto em terra firme, os intervalos são cerca de três vezes maiores. O relatório conclui que eventos como Tunguska ocorrem em intervalos de milênios, não de séculos. [1] Seção sobre frequência (Alan Harris)
Contexto: Extrapolação a partir do que se conhece da população de asteroides próximos da Terra. · Limitações: As pesquisas de asteroides estão longe de completas nessa faixa de tamanho; a população é incerta por um fator de 2 ou mais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Uma análise do dano de Tcheliabinsk concluiu que as relações baseadas em armas nucleares, muito usadas para estimar dano de explosões aéreas, superestimam o dano, e que objetos de dezenas de metros podem ser cerca de dez vezes mais numerosos do que estimavam outras técnicas. [3] Resumo
Contexto: Levantamento global de explosões aéreas de 1 kt ou mais, incluindo Tcheliabinsk. · Limitações: O resultado sobre a população de objetos é apresentado como possibilidade ('may be'), e contrasta com a estimativa mais baixa de frequência citada no relatório da NASA (afirmação a12). · As duas estimativas de frequência divergem; o leitor deve tratar ambas como estimativas. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: O número de 80 milhões de árvores derrubadas em Tunguska, muito repetido, vem de um palpite inicial sobre a área devastada e foi superestimado em cerca de quatro vezes. A velocidade do vento atrás das ondas de choque em Tunguska foi de dezenas de metros por segundo. [5] Seção sobre ventos
Contexto: Comentário publicado em 2025 que corrige afirmações sobre Tunguska feitas em um artigo posterior retratado. · Limitações: Trata-se de um comentário técnico de dois autores sobre a literatura; não é uma contagem nova de árvores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em janeiro de 2018, um workshop no Centro de Pesquisa Ames, da NASA, reuniu cerca de 50 especialistas para reexaminar Tunguska com ferramentas desenvolvidas após Tcheliabinsk, e quatro códigos de computador diferentes concordaram, em geral, quanto à energia. [1] Conclusions
Contexto: Workshop de um dia, em 16 de janeiro de 2018. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- NASA Ames Research Center — Tunguska Workshop: Applying Modern Tools to Understand the 1908 Tunguska Impact (NASA/TM-220174)
Morrison, D. · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Nature 503, 235-237 — The trajectory, structure and origin of the Chelyabinsk asteroidal impactor
Borovička, J.; Spurný, P.; Brown, P.; Wiegert, P.; Kalenda, P.; Clark, D.; Shrbený, L. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature12671 - Nature 503, 238-241 — A 500-kiloton airburst over Chelyabinsk and an enhanced hazard from small impactors
Brown, P. G. et al. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature12741 - Science 342, 1069-1073 — Chelyabinsk airburst, damage assessment, meteorite recovery, and characterization
Popova, O. P. et al. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1242642 - Scientific Reports 15, 13869 — Misunderstandings about the Tunguska event, shock wave physics, and airbursts have resulted in misinterpretations of evidence at Tall el-Hammam
Boslough, M.; Bruno, A. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-98362-9
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)