Física

Por que o Sol funde hidrogênio a uma temperatura que a física clássica diria baixa demais

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Estrelas

Dois prótons se repelem com uma energia elétrica de cerca de 1,5 MeV a 1 femtômetro de distância. No centro do Sol, a energia térmica típica é de cerca de 1,3 keV, quase mil vezes menor. Pela física clássica, a fusão seria praticamente impossível. O tunelamento quântico, descrito por Gamow em 1928 e aplicado às estrelas por Atkinson e Houtermans na década seguinte, dá a prótons mais lentos uma chance pequena, mas não nula, de chegar perto o bastante.

Prótons têm carga positiva e se repelem. Essa repulsão, chamada barreira de Coulomb, só deixa de importar a cerca de 1 femtômetro (10⁻¹⁵ m), distância em que age a força nuclear forte, que tem alcance muito curto. Ali a energia elétrica entre dois prótons é da ordem de 1,5 MeV. No centro do Sol, a cerca de 15,5 milhões de kelvin, a energia térmica típica é de cerca de 1,3 keV. Na mecânica quântica, a partícula é descrita por uma onda que não termina de repente na barreira: ela decai ao entrar nela, e por isso há uma probabilidade pequena de a partícula aparecer do outro lado. Esse é o tunelamento. A probabilidade de tunelar cresce muito depressa com a energia; a de uma partícula ter muita energia térmica cai depressa. O resultado dos dois efeitos é um pico estreito, o pico de Gamow.

O termostato das estrelas

O físico John Bahcall observa que a dependência muito sensível do fator de Gamow em relação à energia das duas partículas é o que fornece o «termostato» das estrelas. A taxa de fusão não varia de forma suave com a temperatura: ela é regida por essa exponencial.

A conta que não fecha

A temperatura de referência do centro do Sol é 1,55 × 10⁷ K. Multiplicada pela constante de Boltzmann (8,617 × 10⁻⁵ eV/K), dá uma energia térmica típica de cerca de 1,3 keV. A barreira entre dois prótons a 1 fm é de cerca de 1,5 MeV, ou 1.500 keV: cerca de mil vezes mais. Para que a energia térmica típica igualasse a barreira, a temperatura precisaria passar de 10¹⁰ K (cálculo nosso). A distância de 1 fm é uma convenção de ordem de grandeza, não uma medida exata.

O que o tunelamento muda, e o que ele não resolve sozinho

Com a fórmula de Gamow, os prótons com energia bem abaixo da barreira passam a ter alguma chance de chegar perto. Essa chance sobe depressa com a energia, enquanto o número de prótons com muita energia cai depressa. As fusões saem de um pico estreito, o pico de Gamow, a cerca de 6 keV: acima da média térmica, mas muito abaixo da barreira. O tunelamento, porém, não explica tudo: segundo notas de curso de Princeton, a chance de fusão por colisão é da ordem de 10⁻³¹, porque, além da barreira, o primeiro passo exige um decaimento beta.

Como sabemos que é assim

A fórmula de Gamow nasceu para explicar taxas medidas de decaimento radioativo, sem referência a estrelas; as estrelas vieram depois. A temperatura central do Sol é obtida de modelos e checada pelo fluxo de neutrinos do boro-8, que depende dela de modo sensível. Em laboratório, as reações da cadeia solar foram medidas, na maior parte, acima do pico de Gamow, e extrapoladas para baixo. A exceção mais citada é o experimento LUNA, que chegou a 16 keV na reação ³He + ³He. O limite é que a extrapolação depende de modelo.

O que Bethe mostrou em 1939, e o que não mostrou

O tunelamento já estava calculado (Gamow, 1928) e já fora aplicado às estrelas (Atkinson e Houtermans; depois Gamow e Teller). Bethe analisou as reações possíveis, excluiu várias e identificou as duas cadeias que sustentam as estrelas: próton-próton e o ciclo CNO. Para o Sol, ele privilegiou o CNO, com temperatura central de 18,5 milhões de graus; hoje se sabe que a cadeia próton-próton domina no Sol. Mesmo assim, sua estimativa de temperatura ficou a menos de 20% do valor atual, segundo Bahcall.

Como sabemos

Os números centrais vêm de fontes abertas e as contas foram feitas por nós, mas a barreira de 1,5 MeV e a razão de mil dependem da convenção de 1 fm e o artigo de Bethe só foi lido no resumo.

Fontes

  1. Physical Review (American Physical Society) — Energy Production in Stars
    Bethe, H. A. · 1939 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1103/PhysRev.55.434
  2. Nobel e-Museum (Fundação Nobel); versão arXiv — How the Sun Shines
    Bahcall, J. N. · 2000 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Reviews of Modern Physics — Solar fusion cross sections II: the pp chain and CNO cycles
    Adelberger, E. C. et al. · 2011 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1103/RevModPhys.83.195
  4. Universidade de Princeton — The physics of fusion in stars (notas de aula, curso A403)
    Departamento de Ciências Astrofísicas, Universidade de Princeton · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. NobelPrize.org — Hans A. Bethe: Biographical
    Fundação Nobel · 1967 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos