Zoologia
Tubarão-da-groenlândia: o vertebrado de vida mais longa conhecido, datado pelo olho
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
O tubarão-da-groenlândia cresce menos de 1 cm por ano e não tem estruturas ósseas que registrem a idade. Em 2016, uma equipe mediu o carbono-14 no cristalino de 28 fêmeas e concluiu que vivem ao menos 272 anos. A maior, com 502 cm, teria 392 anos, com margem de erro de 120. É o vertebrado de maior longevidade conhecido, mas cada idade é uma estimativa com grande incerteza.
O tubarão-da-groenlândia (Somniosus microcephalus) vive nas águas frias do Atlântico Norte e do Ártico e passa dos 5 metros de comprimento. Como tubarões não têm ossos mineralizados, o método usual de contar anéis de crescimento não funciona. A equipe de Julius Nielsen, da Universidade de Copenhague, usou outro caminho: o núcleo do cristalino, que se forma antes do nascimento e não é renovado depois, guarda a assinatura de carbono-14 do ambiente em que o animal nasceu. Com 28 fêmeas capturadas por acidente em redes de pesca, de 81 a 502 cm, o estudo de 2016 estimou uma vida de pelo menos 272 anos. O recorde anterior entre vertebrados era de uma baleia-da-groenlândia, estimada em 211 anos.
A bomba como régua
Só os tubarões menores, de até 220 cm, traziam no cristalino o sinal de carbono-14 dos testes de bombas de hidrogênio dos anos 1950 e 1960. Isso marcou quem nasceu depois dessa época e serviu de ponto de calibração para estimar a idade dos maiores.
Por que não dá para contar anéis
Em muitos peixes ósseos, a idade sai de anéis em escamas ou otólitos. Tubarões não têm ossos mineralizados, e por isso o tubarão-da-groenlândia ficou décadas sem uma idade confiável. A saída foi olhar para um tecido que não se renova: o núcleo do cristalino se forma antes do nascimento e permanece metabolicamente inerte, de modo que guarda a assinatura de carbono-14 do ambiente em que o animal começou a vida.
O relógio da bomba
Os testes de bombas de hidrogênio dos anos 1950 e 1960 alteraram o carbono-14 da atmosfera, e esse sinal chegou às teias alimentares do oceano na década de 1960. No estudo de 2016, só os tubarões de 220 cm ou menos o traziam. Eles nasceram depois do pico, e o tamanho de quem estava na fronteira serviu de calibração. Os demais nasceram antes, e suas idades saem de faixas de probabilidade, não de uma contagem.
Por que viver devagar permite viver muito
Os autores do estudo propõem que a longevidade vem da combinação de temperatura corporal próxima do congelamento, metabolismo baixo e grande tamanho. Os números de outros trabalhos combinam com essa imagem: a espécie prefere de 0 a 0,5 °C, em geral entre 450 e 800 m de profundidade, nada a cerca de 0,27 m/s e cresce menos de 1 cm por ano. É uma explicação plausível, mas ainda uma interpretação.
Limites e conservação
A idade de 392 anos tem intervalo de mais ou menos 120 anos, e o autor principal diz que, com 95% de certeza, o maior animal tinha entre 272 e 512 anos. Em 2016, Steven Campana, especialista em idade de tubarões, pediu mais pesquisas. O estudo também levanta preocupação de conservação: a captura acidental passou de 105 toneladas por ano em parte do Canadá entre 1996 e 2015, e a espécie foi pescada por seu óleo de fígado até 1960.
Como sabemos
Os resultados numéricos vêm do resumo do estudo original de 2016 e são apresentados como estimativas com seus intervalos.
Em debate:
- Fato estabelecido: O estudo de 2016 datou por radiocarbono o núcleo do cristalino de 28 fêmeas de tubarão-da-groenlândia, de 81 a 502 cm de comprimento total. [1]
- Evidência forte: A análise indicou uma vida de pelo menos 272 anos, e o tubarão-da-groenlândia é o vertebrado de vida mais longa conhecido. [1] [2]
Conclusão de um único estudo, aceita como o recorde atual; há quem peça mais pesquisas. - Estimativa: O maior animal, com 502 cm, foi estimado em 392 anos, com intervalo de mais ou menos 120 anos (95,4% de probabilidade). [1] [3]
Idade estimada por modelo estatístico; segundo o autor principal, com 95% de certeza ela fica entre 272 e 512 anos. - Fato estabelecido: Só os tubarões de 220 cm ou menos mostraram o sinal do pico de carbono-14 (bomb pulse) do início dos anos 1960. [1]
- Estimativa: A idade de maturidade sexual das fêmeas foi estimada em pelo menos 156 mais ou menos 22 anos. [1]
Derivada das faixas de idade dos tubarões nascidos antes do pico de carbono-14. - Fato estabelecido: Tubarões não têm ossos mineralizados, por isso a equipe usou o carbono-14 do núcleo do cristalino, que se forma antes do nascimento e permanece metabolicamente inerte. [2] [4]
- Fato estabelecido: O pico de carbono-14 dos testes de bombas dos anos 1950 chegou às teias alimentares oceânicas na década de 1960 e serviu de marcador de calibração. [4] [1]
- Fato estabelecido: A idade foi calculada combinando o marcador de calibração, o tamanho dos tubarões e as taxas de crescimento, por análise estatística. [4]
- Fato estabelecido: O crescimento é inferior a 1 cm por ano. [5] [2]
- Interpretação: Os autores atribuem a longevidade à combinação de temperatura corporal próxima do congelamento, metabolismo baixo e grande tamanho. [2]
Explicação proposta pelos autores do estudo, não demonstrada experimentalmente. - Fato estabelecido: A espécie vive nas águas frias do Atlântico Norte e do Ártico, em geral entre 450 e 800 m de profundidade e em temperaturas de 0 a 0,5 °C. [5]
- Fato estabelecido: A velocidade média de natação observada foi de 0,27 m/s. [5]
- Fato estabelecido: O recorde anterior de longevidade entre vertebrados pertencia a uma baleia-da-groenlândia, estimada em 211 anos. [4]
- Fato estabelecido: O especialista em idade de tubarões Steven Campana observou que outros tubarões em geral vivem de 10 a 80 anos e aguardava mais pesquisas antes de aceitar o recorde. [4]
Opinião de um especialista na época da publicação, 2016. - Fato estabelecido: A captura acidental na pesca ultrapassou 105 toneladas por ano em divisões canadenses da NAFO (0AB) entre 1996 e 2015, e a espécie foi pescada por seu óleo de fígado até 1960. [5]
Fontes
- Science (via Europe PMC), Nielsen et al., 2016 — Eye lens radiocarbon reveals centuries of longevity in the Greenland shark (Somniosus microcephalus)
consultada em 06/10/2026 - Scientific American — Newly Crowned Oldest Vertebrate May Live to 400
consultada em 06/10/2026 - AAAS — Greenland sharks are longest-living vertebrates
consultada em 06/10/2026 - Science News — Study ranks Greenland shark as longest-lived vertebrate
consultada em 06/10/2026 - Scientific Reports (via PubMed Central) — First estimates of Greenland shark (Somniosus microcephalus) local abundances in Arctic waters
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria ampliada: +1 imagem(ns)
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