Corpo humano
Tu Youyou achou num texto de Ge Hong, do século IV, a pista para extrair a artemisinina contra a malária
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Em 1969, Tu Youyou assumiu a equipe de seu instituto no Projeto 523, programa secreto da China, criado em 1967 para achar tratamentos contra a malária. Ela reuniu mais de 2.000 receitas da medicina tradicional. Um texto de Ge Hong, do século IV, mandava espremer a erva qinghao em água fria, sem ferver. Em 4 de outubro de 1971, o extrato número 191, obtido a baixa temperatura, teve efeito total em animais infectados.
O Projeto 523 nasceu em 23 de maio de 1967, em plena Revolução Cultural, depois de um pedido do governo do Vietnã por ajuda contra a malária. Tu Youyou, pesquisadora do Instituto de Matéria Médica Chinesa, entrou na equipe em janeiro de 1969. Segundo seu próprio relato, a receita de Ge Hong a levou a suspeitar que o calor destruía o princípio ativo da planta. Ela trocou o álcool, que ferve a 78 °C, pelo éter, que ferve a 35 °C. O composto cristalino foi chamado de qinghaosu, hoje artemisinina. Em 2015, Tu dividiu o Nobel de Medicina, e hoje as combinações com artemisinina são o tratamento de primeira linha recomendado pela OMS.
A planta ainda funciona, mas o parasita muda
A OMS informa que a resistência parcial à artemisinina foi confirmada em Eritreia, Ruanda, Uganda e Tanzânia, e suspeita-se dela em outros países africanos. Por isso o tratamento usa a artemisinina combinada a outros medicamentos.
Um programa secreto
O Projeto 523 recebeu o nome da data de lançamento, 23 de maio de 1967. Funcionou em sigilo durante a Revolução Cultural, quando a pesquisa científica era restringida, e nasceu de um pedido do governo do Vietnã. Reuniu muitas instituições chinesas. Tu entrou em janeiro de 1969, no Instituto de Matéria Médica Chinesa, e a equipe examinou mais de 2.000 receitas, com entrevistas e leitura de textos médicos antigos.
A pista de Ge Hong
No Manual de Prescrições para Emergências, do século IV, Ge Hong descreve o qinghao: um maço, água para embeber, espremer e tomar o suco inteiro. Tu conta que a diferença para o preparo comum, que ferve as ervas, a fez suspeitar do calor. Ela passou a usar o éter, que ferve a 35 °C, em vez do etanol, a 78 °C. A conexão entre o texto antigo e o método é a leitura de Tu, e as fontes a apresentam assim.
Do extrato ao cristal
O extrato 191, de 4 de outubro de 1971, foi o primeiro a mostrar eficácia total em camundongos e macacos. Antes dos ensaios, Tu e dois colegas o tomaram, para checar a segurança. Em agosto de 1972, na ilha de Hainan, 21 pacientes foram tratados. Em novembro, isolou-se um cristal branco, o qinghaosu, hoje artemisinina, de fórmula C15H22O5. Um artigo em inglês, sem nomes de autores, só saiu em 1979.
Reconhecimento e limites
Tu recebeu o Prêmio Lasker de 2011 e, em 2015, metade do Nobel de Medicina. As fontes lembram que muitas pessoas participaram do Projeto 523, e o crédito é discutido. A OMS recomenda desde 2006 terapias combinadas com artemisinina. Em 2024, a OMS contou 282 milhões de casos e 610.000 mortes por malária no mundo, e confirma resistência parcial à artemisinina em quatro países africanos.
Como sabemos
Marcos e datas coincidem em artigos acadêmicos e na Fundação Lasker, mas a página do Nobel não abriu e o peso exato do texto de Ge Hong e do crédito é debatido.
Em debate: O crédito pela artemisinina é debatido. O Projeto 523 envolveu muitos grupos e instituições chineses, e há disputa sobre as contribuições de outros cientistas além de Tu. A Fundação Lasker e o Nobel reconheceram Tu, mas a descoberta é descrita nas fontes como obra de um esforço coletivo coordenado pelo Estado.
Em debate: O papel da receita de Ge Hong é interpretação de Tu: não há como provar que, sem ela, a equipe teria chegado ao mesmo método de extração por outro caminho.
- Fato estabelecido: O Projeto 523 foi lançado em 23 de maio de 1967, em sigilo, durante a Revolução Cultural, depois de um pedido do governo do Vietnã por ajuda contra a malária. [1] [2]
- Fato estabelecido: Tu Youyou entrou no projeto em janeiro de 1969 como chefe do grupo do Instituto de Matéria Médica Chinesa. [1] [2]
O JCI diz 'início de 1969'; o artigo da PMC diz janeiro de 1969. - Fato estabelecido: A equipe examinou mais de 2.000 receitas e reuniu 640 para avaliação adicional em três meses. [1]
- Fato estabelecido: Ge Hong escreveu no século IV o Manual de Prescrições para Emergências, que manda usar um maço de qinghao embebido em água, espremido, e beber o suco inteiro. [2] [3]
As fontes dão datas diferentes para o texto (c. 340 e 284–363); ambas caem no século IV. - Interpretação: Tu relata que a menção ao uso de água fria, e não de fervura, a levou a pensar que a alta temperatura causava a instabilidade do princípio ativo. [1] [2]
É a explicação dada pela própria pesquisadora e adotada nas fontes; o nexo causal entre o texto e o método não pode ser comprovado de forma independente. - Fato estabelecido: A equipe trocou o etanol (ponto de ebulição de 78 °C) pelo éter (35 °C) na extração. [1]
- Fato estabelecido: Em 4 de outubro de 1971, o extrato número 191 mostrou 100% de eficácia contra o parasita em camundongos e macacos. [1] [2]
- Fato estabelecido: Tu e dois colegas tomaram o extrato antes dos ensaios clínicos, para checar a segurança. [1] [2]
A PMC diz que Tu testou o extrato pessoalmente; o JCI diz que foram ela e dois colegas. - Fato estabelecido: Em agosto de 1972, na ilha de Hainan, o extrato foi testado em 21 pacientes, com inibição do parasita de 95% a 100%. [1] [2]
- Fato estabelecido: Em novembro de 1972 foi isolado um cristal branco, chamado qinghaosu (artemisinina), com fórmula C15H22O5, uma lactona sesquiterpênica. [1] [2] [3]
- Fato estabelecido: O primeiro artigo em inglês sobre a artemisinina saiu em 1979 sem autores nomeados, e o resultado foi apresentado em reunião da OMS em 1981. [3]
- Fato estabelecido: A OMS recomenda, desde 2006, terapias combinadas com artemisinina como tratamento de primeira linha da malária por P. falciparum. [3] [4]
O resumo da OMS abriu e chama as ACTs de recomendação de primeira linha, sem citar o ano; o ano de 2006 vem da Fundação Lasker. - Fato estabelecido: Em 2015, Tu Youyou recebeu metade do Nobel de Fisiologia ou Medicina por suas descobertas sobre uma nova terapia contra a malária. [1]
A página do Nobel retornou erro 403 e não foi aberta; a divisão do prêmio vem de resumo de busca da própria página. O artigo da PMC trata do Nobel no título. - Estimativa: Em 2024, a OMS registrou 282 milhões de casos e 610.000 mortes por malária no mundo. [4]
São estimativas da OMS, e não contagens diretas. - Fato estabelecido: A OMS confirma resistência parcial à artemisinina em Eritreia, Ruanda, Uganda e Tanzânia, e a suspeita em Etiópia, Namíbia, Sudão e Zâmbia. [4]
Fontes
- PubMed Central, National Library of Medicine (EUA) — The discovery of artemisinin and the Nobel Prize in Physiology or Medicine
consultada em 05/10/2026 - Journal of Clinical Investigation — From branch to bedside: Youyou Tu is awarded the 2011 Lasker~DeBakey Clinical Medical Research Award for discovering artemisinin as a treatment for malaria
consultada em 05/10/2026 - Lasker Foundation — Artemisinin therapy for malaria
consultada em 05/10/2026 - Organização Mundial da Saúde — Malaria (fact sheet)
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão