Genética

Cerca de 45% do genoma humano deriva de transposons: o que são, o que fazem e o que ainda mudam

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Genética

Transposons são sequências de DNA capazes de se multiplicar dentro do genoma. Cerca de 45% do genoma humano é reconhecível como derivado deles, quase tudo cópias antigas e inativas. Só L1, Alu e SVA ainda se inserem em novos pontos, às vezes causando doença; outros trechos foram aproveitados pelo genoma.

Transposons (elementos transponíveis) são trechos de DNA que se espalham pelo genoma. Os mais numerosos em humanos são retrotransposons, que se copiam passando por um intermediário de RNA: uma enzima transcreve o RNA de volta em DNA (transcrição reversa) e o insere em outro lugar. L1 (LINE-1), com cerca de 6 mil pares de bases, codifica as proteínas necessárias; Alu, com cerca de 300, não codifica nenhuma e as toma emprestadas de L1. Já os transposons de DNA, como o Hsmar1, usam uma enzima (transposase) para cortar e colar o próprio trecho.

Um parasita do parasita

Alu depende da maquinaria de L1 para se multiplicar, por isso a literatura os chama de "parasita de um parasita". Com mais de 1 milhão de cópias, é o transposon mais numeroso do genoma humano.

Quanto do genoma são transposons?

O primeiro rascunho do genoma humano (2001) reconheceu cerca de 45% como derivado de transposons, e os autores já suspeitavam que parte do restante fosse a mesma coisa, antiga demais para ser identificada. No genoma completo de 2022, a anotação automática lista 631,64 milhões de pares de bases (Mpb) de LINEs, 390,27 Mpb de SINEs, 269,91 Mpb de LTRs e 109,35 Mpb de transposons de DNA. Dividindo a soma por 3.055 Mpb, dá cerca de 46% (cálculo nosso). L1 sozinho responde por cerca de 17%.

Quem ainda se move

Dos mais de 500 mil L1, menos de 100 estão intactos: a maioria foi inativada por truncamentos, rearranjos internos e mutações. Só L1, Alu e SVA têm atividade comprovada em humanos hoje, com uma nova inserção Alu estimada a cada cerca de 20 nascimentos; para L1, de uma a cada 20 a uma a cada 200, conforme o método. Cada inserção nova que cai dentro de um gene ou perto dele pode alterá-lo.

Efeitos: do dano à novidade

Inserções de L1, Alu e SVA foram ligadas a dezenas de doenças hereditárias, como hemofilia e fibrose cística, e respondem por cerca de 0,3% das mutações humanas. Cópias semelhantes também recombinam entre si e apagam trechos intermediários. Por outro lado, alguns trechos foram cooptados: o gene SETMAR é a fusão de um gene de histona com a transposase do transposon Hsmar1, e há éxons de proteínas derivados de transposons, em fração incerta.

Como sabemos que um trecho de transposon tem função

Quase todas as cópias são ruído evolutivo, então é preciso um critério para separar as que servem de fato. O mais direto é a seleção purificadora: se uma sequência derivada de transposon se conserva mais do que o acaso explicaria, algo a mantém. Experimentos que removem o trecho em células ou animais testam a função. As limitações são reais: conservação não vale para inserções recentes, e função em laboratório não prova vantagem para o organismo.

Como sabemos

Números centrais vêm de duas revisões e de dois artigos do consórcio do genoma humano, todos abertos e conferidos por trecho; contagens de 2009 e 2001 podem ter mudado um pouco.

Em debate: Há função comprovada em casos individuais, mas a maior parte das cópias é antiga e sem função conhecida; estimativas da contribuição para proteínas variam de ~4% a ~0,1%.

Fontes

  1. Nature Reviews Genetics — The impact of retrotransposons on human genome evolution
    Cordaux, R.; Batzer, M. A. · 2009 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nrg2640
  2. Science — The complete sequence of a human genome
    Nurk, S. et al. (Telomere-to-Telomere Consortium) · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.abj6987
  3. Nature Reviews Genetics — Regulatory activities of transposable elements: from conflicts to benefits
    Chuong, E. B.; Elde, N. C.; Feschotte, C. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nrg.2016.139
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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