Ciências da Terra

Falha do Mar Morto: transformante que desliza cerca de 5 mm por ano e rompeu no Golfo de Aqaba em 1995

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

A falha do Mar Morto é uma transformante continental de 1.000 a 1.200 km (conforme a fonte) entre a placa Arábica e a microplaca do Sinai, que desliza para a esquerda cerca de 5 mm por ano, segundo o GPS. O sismo de Mw 7,3 de 1995, no Golfo de Aqaba, foi o único grande evento na falha em mais de 200 anos. Dois estudos quantificam o risco de modos diferentes: déficit de deslizamento de pelo menos 2 m e recorrência média de 1.400 anos para grandes sismos.

Uma falha transformante é um limite em que duas placas deslizam lado a lado, sem criar nem destruir crosta; o post sobre os três tipos de fronteira explica a ideia, e o de San Andreas mostra o exemplo mais conhecido. A falha do Mar Morto é sinistral, ou lateral esquerda. Ela liga o Mar Vermelho, ao sul, à região da Turquia, ao norte, e no caminho forma o Golfo de Aqaba, o vale do Araba, o Mar Morto e o vale do Jordão. Duas feições a distinguem: bacias que afundam onde as extremidades da falha se sobrepõem, e uma curva, no Líbano, que ergue montanhas. A taxa de movimento é de ordem diferente da de San Andreas, e o risco é medido por registros longos, não por medição instrumental.

O fundo do Mar Morto guarda um arquivo de terremotos

As camadas de lama do fundo do Mar Morto ficam dobradas e quebradas quando a terra treme. Um testemunho de sedimento permitiu reconstruir 220 mil anos de grandes terremotos da região, e as camadas mais recentes batem com abalos conhecidos, como o de 1956.

Como sabemos: GPS, trincheiras e lama do fundo do lago

O deslizamento atual vem do GPS: estações de cada lado da falha se afastam lateralmente cerca de 5 mm por ano. O passado vem de três arquivos. As crônicas históricas relatam terremotos; uma trincheira no vale do Araba mostrou doze rupturas de superfície em 8.000 anos; e as camadas de sedimento do Mar Morto, dobradas por tremores, cobrem 220 mil anos. Cada método enxerga uma janela de tempo diferente, e nenhum é completo: o testemunho do lago, por exemplo, tem pequenas lacunas onde o material foi mal recuperado.

Golfo de Aqaba: onde a falha encontra o Mar Vermelho

No Golfo de Aqaba a falha deixa de ser só lateral. Ao sul ela se liga ao Mar Vermelho, que se abre por extensão. Por isso a bacia de Dakar mostra extensão, a de Eilat mostra deslizamento lateral e a de Aragonese, os dois regimes. Um estudo de 2023 chegou a isso invertendo 113 mecanismos focais, e estudos anteriores discordavam entre si. Os maiores terremotos do golfo são rasos, com profundidade de até 15 km, e o de 1995 teve Mw 7,3.

Curva do Líbano: a falha que levanta montanhas

No Líbano o traçado da falha se curva e muda de direção em relação ao resto. Nessa curva restritiva os dois lados se comprimem enquanto deslizam, e a crosta sobe: o Monte Líbano chega a 3.088 m, e é o único trecho da falha que produz relevo positivo significativo. Um modelo numérico de 88 falhas reproduziu as direções de deslizamento observadas no campo. Mas é um modelo: a geometria em profundidade é pouco conhecida e foi montada a partir de mapas, exemplos naturais e experimentos analógicos.

O risco: o que dois estudos dizem, e o que não dizem

A trincheira do vale do Araba indica um déficit de deslizamento de pelo menos 2 m nos últimos 1.600 anos e sugere que um grupo de terremotos pode ocorrer na região; as probabilidades calculadas usam premissas simplificadas. O testemunho do Mar Morto dá média de 1.400 anos entre grandes terremotos, bem menos que os 11.000 anos estimados antes, e um padrão em grupos. Os dois trabalhos apontam risco real, mas nenhum prevê data: é probabilidade, não previsão.

Como sabemos

Conceitos e taxas conferidos no texto integral de quatro artigos abertos; o risco sísmico depende de estimativas de dois estudos, com premissas explícitas.

Em debate: Um estudo calcula déficit de deslizamento de pelo menos 2 m e sugere que um grupo de terremotos pode ocorrer no futuro; outro, de 220 mil anos de sedimentos, dá recorrência média de 1.400 anos e reduz muito a estimativa antiga de 11.000 anos. As duas abordagens apontam risco real, mas nenhuma prevê data, e os intervalos de confiança dependem de premissas simplificadas.

Fontes

  1. Scientific Reports — Updating the seismotectonic setting for the Gulf of Aqaba
    Abdelazim, M.; ElGabry, M. N.; Gobashy, M. M.; Khalil, M. H.; Hussein, H. M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-38759-6
  2. Scientific Reports — A validated geomechanical model for the strike-slip restraining bend in Lebanon
    Fedorik, J. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-24718-0
  3. Science Advances — A 220,000-year-long continuous large earthquake record on a slow-slipping plate boundary
    Lu, Y. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aba4170
  4. Scientific Reports — Slip deficit and temporal clustering along the Dead Sea fault from paleoseismological investigations
    Lefevre, M. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-22627-9
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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