Zoologia

Tralhoto: o peixe que enxerga acima e abaixo d'água ao mesmo tempo

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Cada olho do tralhoto (Anableps anableps) tem duas pupilas e duas córneas, uma voltada para o ar e outra para a água, mas uma só lente e um só nervo óptico. A luz de cima e a de baixo caem em metades diferentes da retina, que usa proteínas sensíveis à luz (opsinas) distintas em cada metade.

Num olho típico de peixe, a luz entra pela pupila, atravessa a córnea e a lente e chega à retina, onde células chamadas cones a detectam. Cada cone usa uma opsina, proteína sensível a uma faixa de comprimentos de onda (as "cores"). No tralhoto, uma faixa de pigmento no meio da córnea cria duas pupilas: a de cima olha o ar, a de baixo olha a água, e o peixe nada com os olhos rente à superfície. O gênero Anableps tem três espécies. A. anableps vive em estuários da Amazônia e do Nordeste, do Amapá ao Piauí; os estudos citados aqui usaram peixes do Pará.

O olho começa a se dividir antes do nascimento

O tralhoto é vivíparo: a fêmea dá à luz filhotes formados. A divisão da pupila começa no estágio larval 3, descrito em larvas obtidas de fêmeas grávidas, e a diferença entre as opsinas das duas metades da retina também já aparece nessa fase.

Duas pupilas, uma lente, um nervo

Em cada olho, a luz de cima e a de baixo passam por pupilas e córneas separadas e atravessam uma lente única, em forma de pera, até a mesma retina. Segundo uma revisão de 2026 (Posner), medidas de retinoscopia feitas pelas duas pupilas indicam que partes diferentes da lente são ajustadas ao foco no ar e na água. Esse resultado vem de um estudo clássico de 1976 (Sivak), que não lemos no original.

Cada metade da retina, um conjunto de opsinas

A luz que vem do ar cai na retina de baixo; a que sobe da água, na de cima. Cones com a opsina rh2-1, sensível a comprimentos médios, ficam sobretudo embaixo, e cones com lws, de comprimentos longos, só em cima; as opsinas de comprimentos curtos aparecem nas duas metades. Os autores estimam, por comparação com parentes, picos de 492 a 539 nm para rh2-1 e de 543 a 576 nm para lws.

Herdado, mas ajustável

A assimetria entre rh2-1 e lws já aparece em larvas ainda dentro da fêmea, antes de a luz chegar à retina, o que sugere controle genético. Mas, em oito juvenis mantidos 30 dias em água clara, rh2-1 passou a ser expresso na retina toda, enquanto lws ficou onde estava. Nenhum desses estudos testou o que o peixe enxerga ou escolhe; a leitura funcional continua sendo hipótese.

Como sabemos: genes lidos em cortes da retina

Os pesquisadores cortam a retina em fatias finas e usam sondas de RNA marcadas (hibridização in situ) para ver onde cada gene de opsina está ativo, e confirmam com PCR quantitativo e anticorpos. Medidas antigas de microespectrofotometria não viam diferença entre as metades; a hibridização, que examina muito mais células, viu. Os limites: poucos exemplares, e sensibilidades à luz inferidas de parentes, não medidas no tralhoto.

No Brasil: estuários do Amapá ao Piauí

A. anableps é residente de estuário, vivíparo e não migra longas distâncias. Seu registro vai do Golfo de Paria (Venezuela) ao Delta do Parnaíba (Piauí). Um estudo de DNA mitocondrial amostrou 13 populações, de Calçoene (AP) ao Parnaíba (PI), por ser uma espécie que quase não se dispersa e serve de modelo da história dos estuários. Os peixes dos estudos de olho e opsinas foram coletados em Bragança e Abaetetuba, no Pará.

Como sabemos

Anatomia e distribuição de opsinas bem documentadas em estudos de laboratório com poucos exemplares; a função adaptativa e a óptica da lente repousam em hipótese e em revisão de segunda mão.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B (UFPA, UFRJ, UFSCar) — Eye development in the four-eyed fish Anableps anableps: cranial and retinal adaptations to simultaneous aerial and aquatic vision
    Perez, L. N.; Lorena, J.; Costa, C. M.; Araujo, M. S.; Frota-Lima, G. N.; Matos-Rodrigues, G. E.; Martins, R. A. P.; Mattox, G. M. T.; Schneider, P. N. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2017.0157
  2. Biology Letters (Universidade de Victoria; Universidade de Alberta) — In the four-eyed fish (Anableps anableps), the regions of the retina exposed to aquatic and aerial light do not express the same set of opsin genes
    Owens, G. L.; Rennison, D. J.; Allison, W. T.; Taylor, J. S. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2011.0582
  3. Frontiers in Neuroscience (UFPA) — Light-induced shifts in opsin gene expression in the four-eyed fish Anableps anableps
    Salgado, D.; Mariluz, B. R.; Araujo, M.; Lorena, J.; Perez, L. N.; et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fnins.2022.995469
  4. PLoS ONE (UFPA, Campus de Bragança) — The past and present of an estuarine-resident fish, the "four-eyed fish" Anableps anableps (Cyprinodontiformes, Anablepidae), revealed by mtDNA sequences
    Watanabe, L. A.; Vallinoto, M.; Asp Neto, N.; Muriel-Cunha, J.; Saint-Paul, U.; Schneider, H.; Sampaio, I. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0101727
  5. Frontiers in Ophthalmology (Ashland University) — Contributions of aquatic organisms to understanding the vertebrate ocular lens
    Posner, M. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fopht.2026.1900415
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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