História da África

Tráfico atlântico: cerca de 12,5 milhões de africanos embarcados, e o Brasil como maior destino

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Entre o século XVI e 1867, navios negreiros embarcaram cerca de 12,5 milhões de africanos rumo às Américas, segundo as estimativas reunidas na base de dados Slave Voyages. Cerca de 10,7 milhões sobreviveram à travessia. O Brasil foi o maior destino: recebeu perto de 40% dos que chegaram, algo em torno de 4,8 milhões de pessoas. São estimativas, calculadas a partir dos registros de dezenas de milhares de viagens.

Os números resultam de décadas de pesquisa reunidas numa base pública, hoje chamada Slave Voyages. Ela mudou a escala do debate: cifras de dezenas ou centenas de milhões, que já circularam, são hoje consideradas muito exageradas. O tráfico se concentrou no século XVIII, quando partiram mais da metade de todos os cativos. A África Centro-Ocidental, faixa de costa que vai do cabo Lopez, no atual Gabão, até Benguela, em Angola, foi a região que mais gente perdeu, e dela saiu a grande maioria dos levados ao Brasil. O comércio dependia também de chefes e mercadores africanos que vendiam cativos trazidos do interior, e enfrentou resistência: revoltas a bordo e conspirações nos entrepostos da costa. O Atlântico não foi a única rota. Pelo Saara, pelo mar Vermelho e pelo oceano Índico, cerca de 5 milhões de pessoas foram levadas da África subsaariana entre os séculos XVI e XIX.

O porto que mais embarcou cativos ficava em Angola

Por muito tempo se pensou que Uidá, no atual Benin, tivesse sido o porto negreiro mais movimentado da África. A base Slave Voyages indica que Luanda o superou: só de lá partiram cerca de 1,3 milhão de pessoas escravizadas, num tráfico que começou na década de 1570 e durou até o século XIX.

Como se chega a 12,5 milhões

A base Slave Voyages, construída por David Eltis, David Richardson e colaboradores, reúne os registros de dezenas de milhares de viagens negreiras. A partir deles, os historiadores estimam o volume total do tráfico, incluindo o que os arquivos não preservaram. O resultado é uma ordem de grandeza estável: cerca de 12,5 milhões de pessoas embarcadas e 10,7 milhões desembarcadas. Outras sínteses usam faixas um pouco diferentes, como 10 a 12 milhões de transportados. Para cada navio registrado, a base permite saber o porto de partida, o de chegada, quantas pessoas embarcaram e quantas morreram no caminho.

O Brasil no centro do tráfico

O tráfico para o Brasil começou por volta de 1560, puxado pelo açúcar. Por volta de 1630, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro forneciam quase todo o açúcar consumido na Europa, produzido sobretudo por africanos escravizados. O ouro de Minas Gerais, a partir do fim do século XVII, e o café e o açúcar, a partir do fim do século XVIII, ampliaram a demanda. Embora navegassem com bandeira portuguesa, os traficantes da rota do Atlântico Sul dirigiam o negócio a partir de portos brasileiros, com ligação direta com Angola. No sudeste do Brasil, cerca de 80% dos africanos desembarcados vinham da África Centro-Ocidental.

A travessia

A viagem média da costa africana às Américas durava pouco mais de dois meses; do Alto Guiné podia levar três semanas. Os cativos eram separados por sexo, mantidos despidos e amontoados, e os homens passavam longos períodos acorrentados. Pelo menos 26% das pessoas a bordo eram classificadas como crianças, proporção sem paralelo nas migrações anteriores ao século XX. Na média de todo o período, entre 12% e 13% dos embarcados morreram no mar, de doenças, epidemias e da repressão a revoltas. A mortalidade caiu ao longo do tempo, mas as condições pioraram em parte do período ilegal.

Proibir não bastou

Grã-Bretanha e Estados Unidos proibiram seus tráficos em 1807. A partir de 1810, tratados permitiram à marinha britânica deter navios de outras bandeiras, e quase 2 mil foram capturados depois de 1808. O Brasil aprovou uma lei contra o tráfico em 1831, mas mais de 700 mil africanos foram escravizados ilegalmente entre as décadas de 1830 e 1850. Só a Lei Eusébio de Queirós, de 4 de setembro de 1850, aplicada com rigor e sob pressão britânica, encerrou as chegadas: a partir de 1853 não houve mais registros de desembarque ilegal. A última viagem transatlântica conhecida chegou a Cuba em 1867. A escravidão no Brasil durou até 1888.

Além do Atlântico

Pessoas escravizadas também saíam da África subsaariana pelo Saara, pelo mar Vermelho e pelo oceano Índico. Para os séculos VII a XIV, só há conjecturas. Para os séculos XVI a XIX, as estimativas mais citadas ficam em torno de 5 milhões de pessoas, cerca de dois terços pela rota transaariana, muitas delas compradas no norte da própria África. O tráfico pelo Índico foi mais intenso no século XIX. Somados todos os tráficos externos, o pico ocorreu na década de 1820, com perto de 1 milhão de pessoas levadas por década. Esses números são menos seguros que os do Atlântico, porque dependem de relatos narrativos e não de registros de viagem.

Como sabemos

Números e datas vêm do ensaio de David Eltis na base Voyages e de sínteses acadêmicas convergentes; os totais estão marcados como estimativas.

Em debate: O total exato embarcado é estimativa. A base Voyages chega a cerca de 12,5 milhões; outras sínteses falam em 10 a 12 milhões transportados. Para o Brasil, as leituras variam entre 4,8 e 4,9 milhões de desembarcados.

Em debate: A participação de elites e mercadores africanos na captura e venda de cativos é tema de debate historiográfico, inclusive sobre o peso relativo da violência europeia direta e do comércio com Estados africanos.

Em debate: Os tráficos pelo Saara, mar Vermelho e oceano Índico têm estimativas muito menos seguras que o atlântico, porque dependem de relatos narrativos; números acima de 10 milhões circulam, mas as sínteses acadêmicas mais citadas ficam em torno de 5 milhões entre os séculos XVI e XIX.

Em debate: A historiadora Beatriz Mamigonian contesta a ideia de que a lei brasileira de 1831 tenha sido feita só 'para inglês ver'.

Fontes

  1. Voyages: The Trans-Atlantic Slave Trade Database (Emory University), cópia arquivada pela Saylor Academy — A Brief Overview of the Trans-Atlantic Slave Trade
    consultada em 03/10/2026
  2. Encyclopedia Virginia (Virginia Humanities) — The Transatlantic Slave Trade and the Middle Passage
    consultada em 03/10/2026
  3. African Economic History Network / Universidade de Gotemburgo — The Slave Trades out of Africa (The History of African Development)
    consultada em 03/10/2026
  4. Arquivo Nacional (História Luso-Brasileira) — Tráfico atlântico de escravizados
    consultada em 03/10/2026
  5. Senado Federal (Agência Senado, Arquivo S) — Marinha britânica forçou Brasil a acabar com tráfico negreiro
    consultada em 03/10/2026
  6. Encyclopaedia Britannica — Transatlantic slave trade
    consultada em 03/10/2026
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