Evolução

Toxodon e Macrauchenia: o colágeno fóssil os ligou a cavalos, antas e rinocerontes, não a elefantes

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Em 2015, duas equipes sequenciaram o colágeno de ossos fósseis de Toxodon (notoungulado) e Macrauchenia (litoptern). Nas árvores de parentesco, os dois formam um grupo cujo parente vivo mais próximo são os perissodáctilos (cavalos, antas e rinocerontes), e não os elefantes e seus aparentados. Um genoma mitocondrial de 2017 apontou o mesmo lugar para o Macrauchenia.

Darwin coletou ossos de Toxodon e de Macrauchenia na viagem do Beagle, e nenhum anatomista soube dizer a que mamíferos vivos eles se ligavam. Os dois pertencem aos 'ungulados nativos sul-americanos', cerca de 280 gêneros que evoluíram isolados no continente, e restam as ordens Notoungulata (Toxodon) e Litopterna (Macrauchenia) até o fim do Pleistoceno. A anatomia enganava porque grupos sem parentesco próximo acabam parecidos ao viver de modo parecido (convergência). O DNA antigo quase não sobrevive em clima quente. O colágeno do osso, uma proteína muito estável, sobrevive mais, e a sequência de seus aminoácidos serve como um código de parentesco.

Um osso só entre dezessete

Na tentativa de 2017 com DNA, a equipe testou ossos de 6 Macrauchenia e 11 Toxodon. Só uma falange de Macrauchenia, achada numa caverna do Chile, rendeu DNA em quantidade suficiente para montar o genoma mitocondrial.

O enigma que Darwin deixou

Darwin recolheu em 1834 ossos de Macrauchenia na Patagônia. O anatomista Richard Owen os descreveu em 1838, sem conseguir situá-los entre os mamíferos. Desde então, o grupo foi ligado a elefantes e hiracoides, a xenartros, a ungulados do norte ou a 'condilartros'. A dúvida perdurou porque a forma do corpo não dava resposta confiável: animais de linhagens distintas acabam parecidos por viverem de maneira parecida.

Como sabemos: do osso à árvore

O colágeno do osso é cortado por uma enzima em pedaços (peptídeos). Um espectrômetro de massa mede cada pedaço e o fragmenta de novo, e a ordem dos aminoácidos é lida a partir daí. Cada espécie tem pequenas diferenças nessa ordem, e quanto mais próximas são duas espécies, mais parecidas são as sequências. Com 44 mamíferos vivos como referência, calcula-se a árvore. Buckley ainda excluiu partes sem cobertura e conferiu se a posição mudava.

Três pistas que apontam para o mesmo lugar

Dois estudos de proteína, de 2015, puseram Toxodon e Macrauchenia ao lado dos perissodáctilos. Em 2017, um genoma mitocondrial de Macrauchenia, de DNA e não de proteína, fez o mesmo e estimou que a separação ocorreu por volta de 66 milhões de anos atrás, perto do fim dos dinossauros não aviários. O intervalo de credibilidade é largo (56,64 a 77,83 milhões de anos), e o dado vem de um só marcador do DNA.

O que ainda não está resolvido

Foram sequenciados dois gêneros, de duas ordens, entre cerca de 280. Pirotérios, astrapotérios e xenungulados não têm molécula. Buckley aponta apenas uma característica compartilhada para o grupo com os perissodáctilos, e uma variação do teste reduziu o suporte estatístico. Para a anatomia, perguntas como a origem dos ungulados nativos ('condilartros') ficam como hipótese, não como resultado.

Como sabemos

Duas análises de proteína e um genoma mitocondrial concordam para Toxodon e Macrauchenia, mas o resumo de Welker et al. foi o único trecho lido do estudo e só dois dos cinco ou mais grupos nativos foram testados.

Em debate: Análises de anatomia já ligaram os notoungulados e os xenungulados a Afrotheria; a proteína de Toxodon e o DNA de Macrauchenia os põem junto dos perissodáctilos. Pirotérios e astrapotérios seguem sem molécula.

Fontes

  1. Nature — Ancient proteins resolve the evolutionary history of Darwin's South American ungulates
    Welker, F. et al. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature14249
  2. Proceedings of the Royal Society B — Ancient collagen reveals evolutionary history of the endemic South American 'ungulates'
    Buckley, M. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2014.2671
  3. Nature Communications — A mitogenomic timetree for Darwin's enigmatic South American mammal Macrauchenia patachonica
    Westbury, M. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms15951
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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