Ciências da Terra

Tomografia sísmica: o que as imagens do manto mostram sobre placas afundadas e o que ainda é incerto

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

A tomografia sísmica transforma registros de terremotos em mapas 3D do manto, mostrando onde as ondas passam mais rápido ou mais devagar. Zonas rápidas no manto profundo costumam ser lidas como placas frias que afundaram, mas os modelos divergem, e um estudo de 2024 mostra anomalias rápidas onde não há registro de subducção.

O manto é a camada rochosa de cerca de 2.890 km de espessura entre a crosta e o núcleo. Ninguém o perfurou, então a imagem vem de ondas sísmicas: o tempo que elas levam para ir de um terremoto a uma estação depende do material atravessado. Combinando milhares de percursos, um cálculo de inversão produz um mapa de regiões mais rápidas (em geral mais frias ou mais densas) e mais lentas. Uma placa que mergulha na subducção é fria; por isso, uma faixa rápida sob uma zona de subducção antiga é lida como a placa que afundou. O mapa não traz etiqueta: a velocidade é consequência de temperatura e composição ao mesmo tempo.

Um sinal onde não há placa conhecida

Modelos de forma de onda completa mostram uma anomalia rápida sob o Pacífico ocidental, entre 900 e 1.200 km de profundidade, em região sem registro geológico de subducção. Os autores sugerem origens mais variadas para essas anomalias.

Por que a imagem depende de onde há terremotos e estações

A maior parte dos terremotos e das estações sísmicas está em margens de placas, como o cinturão que vai da Ibéria ao sudeste da Ásia e o entorno do Pacífico. Já grande parte da África, a Antártida, o norte da Ásia e os oceanos têm poucas fontes e poucos receptores. Por isso a resolução é melhor sob limites de placa do que sob interiores. Sob interiores, a maioria dos raios se concentra na base do manto, e parte do manto inferior fica mal resolvida.

Placa ou outra coisa? O que a velocidade não diz

A velocidade sísmica depende de temperatura e composição ao mesmo tempo, então uma faixa rápida pode ser uma placa fria ou um material de composição diferente. Por isso interpretar a natureza de uma anomalia é difícil. A interpretação como placa ganhou peso pela correlação estatística com zonas de subducção reconstruídas, mas a reanálise com FWI de 2024 mostra que só até cerca de 60 a 70% de uma geometria de subducção cai sobre uma anomalia positiva.

Quanto os modelos concordam

Um estudo de 2017 sobrepôs 14 modelos globais de ondas P e S e contou quantos votam numa mesma anomalia positiva em cada profundidade. Em média, cerca de 20% da profundidade de cada modelo é marcada como possível placa, mas poucas feições aparecem em todos. A concordância tem pico entre 1.000 e 1.400 km e cai até cerca de 2.000 km. Os autores indicam duas leituras possíveis: menor resolução nessa faixa ou mudanças reais no fluxo de subducção e na viscosidade.

Até quando uma placa fica visível

Quanto mais tempo uma placa passa no manto, mais ela se esquenta por difusão, se deforma e se mistura, e o sinal se borra. A visibilidade tomográfica do manto é citada em torno de 200 milhões de anos, com escalas de 250 a 300 milhões sugeridas. Um estudo teórico de 2003 estima que acúmulos de placas na base do manto persistem por um tempo comparável a 120 a 200 milhões de anos. Placas de 150 milhões de anos podem, então, ainda aparecer, mas com resolução limitada e interpretação em disputa.

Como sabemos

Base em dois artigos abertos lidos em texto e um resumo teórico de 2003; o debate entre FWI e tempo de percurso é recente e segue aberto.

Em debate:

Fontes

  1. Scientific Reports — On the consistency of seismically imaged lower mantle slabs
    Shephard, G. E.; Matthews, K. J.; Hosseini, K.; Domeier, M. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-11039-w
  2. Scientific Reports — Full-waveform inversion reveals diverse origins of lower mantle positive wave speed anomalies
    Schouten, B.; Gebraad, L.; Noe, S.; Gülcher, A.; Thrastarson, S.; van Herwaarden, D.-P.; Fichtner, A. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-024-77399-2
  3. Comptes Rendus Géoscience — Simple features of mantle-wide convection and the interpretation of lower-mantle tomograms
    Sleep, N. H. · 2003 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/s1631-0713(03)00008-7
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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