História do Brasil

Tiradentes foi o único inconfidente executado; o rosto barbado que conhecemos foi criado depois, pela República

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, alferes de Minas Gerais, foi preso depois de a conspiração da Inconfidência Mineira ser denunciada. Entre os acusados, só ele foi executado: enforcado no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1792. Nenhum registro da época traz uma descrição física detalhada dele. O rosto barbudo, parecido com o de Cristo, vem de pinturas dos anos 1890, feitas quando a República fez de Tiradentes seu herói nacional.

A Inconfidência Mineira nasceu num momento de queda da produção de ouro, a partir de 1760, e de insistência da Coroa em cobrar impostos atrasados, com a derrama prevista. Reunia fazendeiros, comerciantes, religiosos, militares e intelectuais, como o poeta Cláudio Manuel da Costa e o magistrado Tomás Antônio Gonzaga. Tiradentes era o principal propagandista do movimento. Depois da denúncia de Joaquim Silvério dos Reis, foi preso e ficou quase três anos encarcerado. Dos 29 acusados da devassa, ele foi o único executado; os demais tiveram penas como o degredo em Angola. Era um movimento de elite, e a maioria dos participantes defendia manter a escravidão. A Proclamação da República, em 1889, precisava de um herói popular, e em 1890 o governo instituiu o 21 de abril como feriado.

Patrono cívico da nação

A imagem de Tiradentes foi reaproveitada ao longo do tempo. Em 1936 os restos mortais de inconfidentes exilados foram trazidos ao Brasil e, em 1965, durante a ditadura militar, ele foi declarado Patrono Cívico da Nação, com ênfase em sua origem militar.

A conspiração

A produção de ouro caía desde 1760 e a Coroa insistia em cobrar impostos atrasados, com a derrama em vista. O visconde de Barbacena chegou em 1788 para impor a política mercantil da Coroa. No movimento havia fazendeiros, clérigos, militares e intelectuais, como Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Inácio José de Alvarenga. Segundo o Arquivo Nacional, a maioria defendia manter a escravidão e o movimento nunca chegou às massas. Tiradentes era o propagandista.

A devassa e a execução

Depois da delação de Joaquim Silvério dos Reis, os envolvidos foram presos e interrogados na devassa. A sentença, de abril de 1792, atingiu 29 acusados em graus diversos: Tiradentes foi o único executado, enquanto outros foram degredados para Angola. Ele foi enforcado em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro. A sentença previa ainda a decapitação e o esquartejamento, com as partes do corpo expostas ao longo da estrada de Minas.

De traidor a herói

Inconfidência significava, na linguagem da Coroa, traição. Depois de 1889, os republicanos precisavam de um herói capaz de aproximar o novo regime da população. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, escolheram Tiradentes por ser republicano, vir de Minas Gerais e encarnar o sacrifício cristão. Em 1890, um decreto criou o feriado de 21 de abril. As pinturas dos anos 1890, de Décio Villares, Pedro Américo e Aurélio de Figueiredo, fixaram a imagem barbuda e serena.

Usos da imagem

Como os registros da época não descrevem seu rosto, a imagem pôde ser preenchida pela imaginação. O Arquivo Nacional lista marcos desse processo: o feriado de 1890, o retorno dos restos mortais de inconfidentes exilados, em 1936, e a declaração de Tiradentes como Patrono Cívico da Nação, em 1965. Durante a ditadura militar, o regime enfatizou sua condição de militar e deixou na sombra o caráter revolucionário do movimento.

Como sabemos

Fatos de 1789 a 1792 conferem em fontes oficiais; a construção da imagem republicana é tese reconhecida e atribuída a quem a formulou.

Em debate: Historiadores discutem o peso de Tiradentes dentro da conspiração: a documentação o mostra como principal propagandista, não como o líder político ou econômico do movimento, que reunia homens mais ricos e influentes. Também se debate o quanto a imagem de herói foi construção republicana. Para José Murilo de Carvalho, os heróis nacionais são criados de modo intencional; no caso de Tiradentes, juntaram-se o rebelde republicano e a figura do mártir cristão.

Fontes

  1. Rádio Senado — 21 de abril de 2022: 230 anos da execução de Tiradentes
    consultada em 04/10/2026
  2. Arquivo Nacional, História Luso-Brasileira — Conjuração em Minas Gerais
    consultada em 04/10/2026
  3. Senado Notícias — Em busca de apoio popular, República fez de Tiradentes herói nacional
    consultada em 04/10/2026
  4. Arquivo Nacional, Que República é essa? — Tiradentes, 21 de abril e o imaginário político
    consultada em 04/10/2026
  5. Fundação Clóvis Salgado (Governo de Minas Gerais) — O que fazer com a imagem de Tiradentes?
    consultada em 04/10/2026
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