História da África

Durante a ocupação de 2012, centenas de milhares de manuscritos de Timbuktu foram levados às escondidas para Bamako

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Timbuktu, no Mali, guarda uma das maiores concentrações de manuscritos da África: textos em árabe e em línguas africanas como bambara e fula, sobre direito, religião, astronomia, medicina, poesia e história, mantidos por gerações em bibliotecas de família. Quando grupos armados ocuparam a cidade, em 2012, bibliotecários ligados à ONG SAVAMA-DCI transportaram às escondidas centenas de milhares de manuscritos até Bamako, a capital. As contagens vão de cerca de 300 mil a 350 mil.

A cidade foi um centro de estudo islâmico desde o século XIV, com auge nos séculos XV e XVI. Suas três grandes mesquitas, Djinguereber, Sidi Yahya e Sankore, eram também lugares de ensino, e no século XVI havia cerca de 180 escolas corânicas, com estudantes vindos de todo o Sahel. Estudava-se teologia, exegese, direito maliquita, gramática, retórica, lógica, astronomia, história e geografia. Os manuscritos que chegaram até hoje foram copiados e reunidos ao longo de séculos, em grande parte por famílias de letrados. Em 1973, o governo do Mali criou o Centro Ahmed Baba, depois de uma reunião da UNESCO em Timbuktu, em 1967. Na ocupação de 2012–2013, cerca de 4 mil manuscritos do novo prédio do instituto foram queimados, perdidos ou roubados. Os resgatados foram depois digitalizados em Bamako.

Uma carta que salvou um explorador

Uma das peças mais valiosas da biblioteca Mamma Haidara tem poucas páginas: uma carta de 1853 em que o xeque al-Bakkay al-Kunti, líder religioso de Timbuktu, pede ao soberano de Massina que poupe a vida do explorador alemão Heinrich Barth. Al-Bakkay argumentou que a lei islâmica proibia matá-lo. Barth voltou vivo à Alemanha.

Uma cidade de estudo

Timbuktu fica perto da curva do Níger, onde o rio encontra as rotas do Saara. Nos séculos XV e XVI, a riqueza do comércio sustentou uma camada de letrados dedicada ao culto e ao estudo. As três grandes mesquitas, Djinguereber, Sidi Yahya e Sankore, eram centros de ensino. A chamada universidade de Timbuktu não era uma instituição única, como as do Norte da África, mas um conjunto de escolas independentes. No século XVI havia cerca de 180 escolas corânicas, e os estudantes moravam com os mestres, que não recebiam salário, mas tinham o sustento garantido pela comunidade. O método era a leitura comentada dos textos.

Os mestres

O ensino superior girava em torno do direito maliquita, a especialidade dos juristas de Timbuktu, e incluía teologia, exegese do Corão, hadith, gramática, retórica, lógica, astronomia, história e geografia. Grandes famílias berberes, como os Aqit, forneceram cádis e professores por gerações. O cádi Mahmud ibn Umar Aqit (1463–1548) foi jurista e gramático; seu parente Ahmad Baba (1556–1627) é o mais conhecido dos sábios da cidade e dá nome ao instituto criado em 1973. No século XVII, letrados da região escreveram as duas grandes crônicas do Sudão ocidental, os Tarikhs, principal fonte escrita sobre os impérios do Mali e do Songai.

Bibliotecas de família

A tradição de Timbuktu é a das bibliotecas mantidas dentro de famílias de letrados, usadas e protegidas por gerações. A família Haidara, por exemplo, diz ter começado a reunir manuscritos no século XVI. Em 1973, o governo do Mali criou o Centro Ahmed Baba, depois de uma reunião da UNESCO de 1967. Entre 1984 e 2002, o bibliotecário Abdel Kader Haidara percorreu vilas da região e reuniu cerca de 16 mil manuscritos para o centro, às vezes pagando os donos com gado. A partir dos anos 1990 surgiram bibliotecas privadas, como a Mamma Haidara e o Fondo Kati, e a ONG SAVAMA-DCI foi criada para reuni-las e ajudar na conservação.

2012: a retirada

Em 2012, grupos armados tomaram Timbuktu e a ocuparam por cerca de dez meses. Destruíram mausoléus e monumentos, e os bibliotecários temiam pelos manuscritos. Equipes ligadas à SAVAMA-DCI esconderam os volumes em casas da cidade e depois os levaram para Bamako, a capital, em baús transportados por carroças, carros e barcos pelo Níger. A National Geographic fala em 350 mil manuscritos de 45 bibliotecas. No Instituto Ahmed Baba, a maior parte do acervo antigo foi salva, mas cerca de 4 mil manuscritos que estavam nas salas de conservação e digitalização do novo prédio foram perdidos ou roubados, e equipamentos foram destruídos.

A digitalização

Em 2013, a Hill Museum & Manuscript Library, da Saint John's University, nos Estados Unidos, montou com a SAVAMA-DCI um estúdio fotográfico em Bamako e treinou técnicos malianos. Uma cópia digital fica com o dono de cada biblioteca, e outras são guardadas pela HMML. O trabalho foi depois estendido a bibliotecas que permaneceram em Timbuktu e a coleções de Djenné. A HMML considera a digitalização no Mali concluída: cerca de 4,35 milhões de imagens de 308 mil manuscritos, em árabe, bambara, fula e outras línguas locais. A catalogação para acesso público continua.

O que os manuscritos mudam

A historiografia colonial sustentava que a África tinha poucas línguas escritas e que o passado anterior aos europeus só podia ser conhecido pela arqueologia e pela tradição oral. Os acervos de Timbuktu, Djenné e de outras cidades do Sahel mostram uma cultura escrita extensa, com obras de direito, correspondência política, astronomia, medicina e poesia, produzidas e copiadas na própria região. Boa parte ainda não foi estudada. A catalogação em curso deve dizer com mais precisão o que é obra local, o que é cópia de autores do mundo islâmico e de quando cada peça data.

Como sabemos

Os fatos do resgate vêm de três instituições que trabalharam com os acervos (UCT, HMML) e de reportagem da National Geographic; os números estão marcados como estimativa.

Em debate: Quantos manuscritos foram salvos: as cifras variam entre fontes (cerca de 285 mil a 350 mil), conforme se contem só os volumes evacuados para Bamako ou também os que ficaram escondidos em Timbuktu e as coleções de Djenné.

Em debate: Antiguidade dos acervos: a HMML informa documentos do século XIII na biblioteca Mamma Haidara; a síntese da UNESCO (1984) observa que quase nada da produção intelectual dos séculos XV e XVI sobreviveu. A maior parte do que existe é cópia ou obra de séculos posteriores, e a datação de cada peça depende de catalogação, ainda em andamento.

Em debate: Uso do termo 'universidade': a edição da UNESCO usa 'universidade de Timbuktu', mas ressalva que não era uma instituição organizada como as do Norte da África, e sim um conjunto de escolas independentes ligadas a mestres e mesquitas.

Fontes

  1. Tombouctou Manuscripts Project, University of Cape Town — Manuscript Libraries; Ahmed Baba Institute of Higher Learning and Islamic Research (IHERI-AB)
    consultada em 03/10/2026
  2. Tombouctou Manuscripts Project, University of Cape Town — Manuscript Libraries
    consultada em 03/10/2026
  3. Hill Museum & Manuscript Library, Saint John's University — HMML Global Operations: Mali
    consultada em 03/10/2026
  4. National Geographic — The Brave Sage of Timbuktu: Abdel Kader Haidara
    consultada em 03/10/2026
  5. Hill Museum & Manuscript Library, Saint John's University — HMML Digitizes Timbuktu's Historic Manuscript Collections
    consultada em 03/10/2026
  6. UNESCO — General History of Africa, IV (cap. 8, 'The Songhay from the 12th to the 16th century')
    consultada em 03/10/2026
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