Evolução

Tilacino, o marsupial com cara de lobo: no genoma, a convergência está nas regiões reguladoras

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

O tilacino (Thylacinus cynocephalus) e o lobo-cinzento se separaram há cerca de 160 milhões de anos, mas ficaram com crânios muito parecidos. No genoma, as proteínas dos dois mostram pouca convergência adaptativa; o sinal está em trechos de DNA que regulam genes do crânio e do rosto. Já a forma do crânio sugere que o análogo mais próximo não é o lobo, e sim chacais e raposas sul-americanas.

Convergência é quando linhagens separadas desenvolvem traços parecidos de forma independente, e não por herança de um ancestral que já os tinha (a diferença está no post sobre homologia e analogia). O tilacino é um marsupial; o lobo-cinzento, um mamífero placentário, e os dois grupos se separaram há cerca de 160 milhões de anos. Para perguntar "o que convergiu", é preciso separar níveis: a forma do crânio (morfologia), as proteínas (sequências de aminoácidos) e os trechos do DNA que ligam e desligam genes (elementos reguladores, ou cis-regulatórios). Cada nível pode contar uma história diferente, e é isso que os estudos recentes encontraram.

Um crânio grande demais para o corpo

Segundo uma análise de 2026, o crânio do tilacino é muito maior do que o esperado para o seu corpo. Entre as espécies de crânio mais parecido em forma, só os lobos-cinzento e guará têm crânio de tamanho comparável.

No crânio, a semelhança é parcial: o focinho se parece, a caixa do cérebro menos

A forma geral do crânio do tilacino fica entre a dos canídeos e a de outros marsupiais carnívoros. Em uma análise de 2026 com 60 espécies, ele se aproxima de canídeos no focinho e na região derivada do primeiro arco faríngeo, e de marsupiais na caixa do cérebro. O tamanho também pesa: o crânio é muito grande para o corpo, o que pode ter reforçado a impressão de "lobo".

Como sabemos: medir a forma e testar a convergência com muitas espécies

A convergência foi medida com morfometria geométrica 3D: pontos de referência marcados em crânios de 56 espécies, de 12 famílias, e dois testes estatísticos de convergência. O resultado de 2021 é que o tilacino se parece mais com chacais africanos e raposas sul-americanas, que caçam presas menores que 45% do próprio peso, do que com lobo ou cão. A caixa do cérebro, porém, o põe no grupo de presas grandes: o padrão é misto.

No genoma: proteínas quase não convergem, mas trechos reguladores sim

O genoma de 2018 mostrou que as trocas de aminoácido parecidas entre tilacino e canídeos são em grande parte neutras. Em 2019, os mesmos autores compararam a velocidade de evolução de trechos reguladores do DNA, usando alinhamentos de 60 vertebrados: 339 elementos aceleraram nas duas espécies, e os genes próximos tendem a atuar em vias TGF-beta e BMP do crânio. É um padrão estatístico, não um teste funcional.

O que ainda está em aberto

O estudo de 2019 sugere seleção convergente em elementos reguladores do crânio. O de 2026 propõe que a função do crânio do tilacino foi diferente da dos canídeos e que as semelhanças genômicas provavelmente não vêm de seleção para uma função parecida. Falta teste experimental, e o tilacino está extinto: a pergunta sobre o que convergiu depende, em boa parte, de como se mede "parecido".

Extinção: perseguição, poucos genes e um continente sem tilacinos

No continente, o declínio dos tilacinos coincidiu com a chegada do dingo; na Tasmânia, a recompensa por animais mortos, que existiu desde 1840, e a perseguição levaram ao fim: o último animal conhecido morreu em Hobart em 1936. Amostras de museu mostram pouca diversidade genética, já em declínio antes dos humanos. Isso descreve o contexto, mas não prova que a genética tenha causado a extinção.

Como sabemos

Os dados centrais são de artigos revisados e abertos, mas a interpretação funcional ainda divide a literatura e o artigo de 2018 foi lido só no resumo.

Em debate: O estudo de 2019 propõe seleção convergente em elementos reguladores do crânio; o de 2026 sugere que as semelhanças genômicas provavelmente não vêm de seleção para uma função de crânio parecida, e que o crânio do tilacino não tem análogo vivo claro. As duas leituras seguem sem teste experimental.

Fontes

  1. Nature Ecology & Evolution — Genome of the Tasmanian tiger provides insights into the evolution and demography of an extinct marsupial carnivore
    Feigin, C. Y. et al. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41559-017-0417-y
  2. Genome Research — Widespread cis-regulatory convergence between the extinct Tasmanian tiger and gray wolf
    Feigin, C. Y.; Newton, A. H.; Pask, A. J. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1101/gr.244251.118
  3. Nature Communications — Skull morphology of the extinct Tasmanian tiger suggests unique biting style
    Weisbecker, V.; Pask, A. J.; Newton, A. H.; Rovinsky, D. S. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-026-76614-0
  4. BMC Ecology and Evolution — Functional ecological convergence between the thylacine and small prey-focused canids
    Rovinsky, D. S.; Evans, A. R.; Adams, J. W. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/s12862-021-01788-8
  5. PLoS ONE — Limited genetic diversity preceded extinction of the Tasmanian tiger
    Menzies, B. R. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0035433
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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