Ciências da Terra
Bolhas de ar presas no gelo da Antártida registram o clima de até 800 mil anos atrás
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Na Antártida, a neve se acumula, é comprimida e, a 50 a 100 metros de profundidade, vira gelo e sela o ar em bolhas. O projeto EPICA perfurou o gelo de Dome C e analisou essas bolhas e a água do próprio gelo. O resultado é um registro contínuo que chega a cerca de 800 mil anos: o CO2 ficou entre 172 e 300 ppmv antes da era industrial e variou junto com a temperatura antártica.
O gelo antártico é uma cápsula de tempo física. A neve que cai a cada ano é soterrada pela seguinte e se compacta em firn, uma neve granulada e porosa. A 50 a 100 metros de profundidade, o firn vira gelo e o ar que restava nos poros fica selado em bolhas. Cada camada guarda uma amostra de atmosfera. Em Dome C, na Antártida Oriental, o projeto europeu EPICA obteve o registro contínuo mais antigo já publicado, com cerca de 800 mil anos. Dois tipos de medida se complementam: a composição do ar nas bolhas (CO2 e metano) e a razão de isótopos de hidrogênio na água do gelo, que serve de indicador da temperatura local.
O ar é mais novo que o gelo que o cerca
O ar só é selado no fim da transição de firn para gelo, então o gelo ao redor da bolha é mais velho que o ar dentro dela. Onde neva muito pouco, a transição leva alguns milhares de anos, e os cientistas precisam corrigir essa diferença.
Da neve à bolha
A neve fresca é porosa e fica aberta ao ar da superfície. Com o soterramento, ela se compacta em firn. Em algum ponto entre 50 e 100 metros de profundidade, o firn vira gelo e o ar dos poros fica selado em bolhas. Onde neva muito, isso leva décadas; onde neva pouco, como no interior antártico, pode levar alguns milhares de anos.
O termômetro isotópico
A água do gelo contém deutério e oxigênio-18 em proporções que se relacionam com a temperatura de superfície. Na Antártida, essa relação é consistente e linear. O perfil de deutério de Dome C, publicado em 2007, estende esse termômetro até cerca de 800 mil anos atrás, no estágio isotópico marinho 20.2.
Os gases de efeito estufa
Lüthi e colegas mediram o CO2 nos 200 metros mais profundos de Dome C e mostraram que ele acompanha a temperatura antártica em oito ciclos glaciais. Antes da era industrial, variou entre 172 e 300 ppmv. O metano, medido pelo grupo de Loulergue, oscilou entre cerca de 350 e 800 ppbv entre períodos glaciais e interglaciais nos últimos 650 mil anos.
Resolução e incerteza
O registro de metano de Dome C tem resolução média de cerca de 380 anos, suficiente para identificar variações orbitais e de escala milenar. A idade do ar é sempre menor que a do gelo ao redor, e essa diferença precisa ser estimada. Já a explicação para o CO2 muito baixo no estágio 16 é uma hipótese dos autores, ligada ao armazenamento de carbono no oceano.
Como sabemos
Os números vêm dos resumos de artigos revisados por pares (Lüthi 2008, Jouzel 2007, Loulergue 2008) e de um material universitário sobre o método.
- Fato estabelecido: O ar é aprisionado na base da camada de firn, quando a neve compactada vira gelo; essa transição ocorre normalmente entre 50 e 100 m abaixo da superfície. [4]
- Fato estabelecido: O gelo ao redor das bolhas é mais velho que o ar contido nelas. [4]
- Fato estabelecido: A transição de neve para gelo leva de algumas décadas, onde neva muito, a alguns milhares de anos, onde neva muito pouco. [4]
- Consenso científico: As razões de isótopos de hidrogênio (δD) e de oxigênio (δ18O) do gelo se relacionam com a temperatura de superfície em médias e altas latitudes, de modo consistente e linear na Antártida. [4]
- Fato estabelecido: O registro mais antigo e contínuo até hoje chega a cerca de 800 mil anos antes do presente (EPICA Dome C). [4] [2]
- Fato estabelecido: Um perfil de deutério em alta resolução ao longo de todo o testemunho de Dome C estende o registro climático antártico até o estágio isotópico marinho 20.2, cerca de 800 mil anos atrás. [2]
- Fato estabelecido: Os 200 m mais profundos do testemunho de Dome C estenderam o registro de CO2 atmosférico em dois ciclos glaciais completos, até 800 mil anos antes do presente. [1]
- Evidência forte: O CO2 atmosférico se correlaciona fortemente com a temperatura antártica ao longo de oito ciclos glaciais. [1]
- Fato estabelecido: Entre 650 mil e 750 mil anos atrás as concentrações de CO2 foram significativamente mais baixas do que nos ciclos seguintes. [1]
- Fato estabelecido: Durante o estágio isotópico marinho 16, o CO2 ficou abaixo de 180 ppmv por cerca de 3.000 anos. [1]
- Fato estabelecido: A concentração mais baixa de CO2 já medida em gelo ampliou a faixa pré-industrial do Quaternário tardio em cerca de 10 ppmv, para 172 a 300 ppmv. [1]
- Hipótese: A causa provável do CO2 muito baixo no estágio 16 seria um armazenamento oceânico de carbono mais intenso. [1]
Os autores escrevem 'possivelmente'; é interpretação, não resultado medido. - Fato estabelecido: O metano variou entre cerca de 350 ppbv (períodos glaciais) e cerca de 800 ppbv (interglaciais) nos últimos 650 mil anos, contra cerca de 1.770 ppbv à época do estudo. [3]
- Fato estabelecido: O registro de metano de Dome C chega a 800 mil anos e tem resolução média de cerca de 380 anos. [3]
Fontes
- Nature (Lüthi et al., 2008), via Europe PMC — High-resolution carbon dioxide concentration record 650,000-800,000 years before present
consultada em 05/10/2026 - Science (Jouzel et al., 2007), via Europe PMC — Orbital and millennial Antarctic climate variability over the past 800,000 years
consultada em 05/10/2026 - Nature (Loulergue et al., 2008), via Europe PMC — Orbital and millennial-scale features of atmospheric CH4 over the past 800,000 years
consultada em 05/10/2026 - AntarcticGlaciers.org, Royal Holloway University of London — Ice core basics
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 3 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão