Zoologia
O teste da marca de Gallup (1970): como funciona, o que mede e quais grandes primatas o passaram
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
O teste da marca, introduzido por Gordon Gallup em 1970, verifica se um animal usa o espelho para examinar uma marca posta num ponto do corpo que ele não vê, como a cabeça. Tocar a marca olhando o reflexo é sinal de autorreconhecimento. Chimpanzés passam, mas nem todos: 42 de 97 numa revisão de 1999. Orangotangos também; macacos e gibões não; em gorilas, os resultados são inconsistentes.
Autorreconhecimento no espelho é a capacidade de entender que a imagem refletida é o próprio corpo. Não basta o animal reagir ao reflexo: o teste da marca pergunta se ele usa o reflexo para obter informação sobre si. Para isso, uma marca é posta onde ele não a vê, sem tato nem cheiro que a denunciem. Se ele a toca olhando o espelho, ou logo depois, conta-se como passagem. O mesmo desenho foi adaptado para crianças, que passam por volta de 15 a 24 meses. O procedimento serve também como medida comparativa entre espécies, com limites que as seções abaixo mostram.
Teste sem anestesia e sem espelho
Em 2017, cinco chimpanzés acordados receberam dez adesivos na cabeça ou no rosto e viram vídeos de si ao vivo e atrasados em até 4 segundos. Três dos cinco retiraram os adesivos de forma consistente nas condições de vídeo atrasado.
O procedimento original, em etapas
Gallup expôs chimpanzés a espelhos por um período prolongado e, em seguida, marcou-os com tinta vermelha. Segundo uma revisão de 2022, o animal era anestesiado, marcado numa parte do corpo que normalmente não vê (cabeça ou orelha), observado sem espelho e, por fim, observado diante dele. A comparação entre as duas observações é o que o teste mede: quantas vezes a marca é tocada com o espelho, e não sem.
Controles: o que impede uma leitura apressada
Cada etapa afasta uma explicação alternativa. A observação sem espelho mostra se o animal percebe a marca por tato ou cheiro. Suarez e Gallup (1981) acrescentaram uma marca no pulso, que o animal vê, para checar o interesse por marcas. Em gorilas, os estudos com resposta positiva usaram marcas fora do campo de visão e controles de tato e cheiro. O estudo com gibões testou antes a motivação com glacê no membro.
Quem passou, e com que ressalvas
Numa contagem até 1999, 43% dos chimpanzés (42 de 97) e 3 de 6 orangotangos passaram. Os autores notam que idade, motivação e método também pesam. Em bonobos, até 2009 não havia teste formal da marca publicado, e os gorilas dão resultados inconsistentes. Macacos, prossímios e gibões não têm evidência convincente de autorreconhecimento, segundo revisões de 2009 e 2015.
Como sabemos, e onde a evidência para
O artigo de 1970 foi lido aqui só pelo resumo, e o procedimento vem de revisões. O teste dá falso negativo se o animal não tiver motivação para examinar marcas, como pode ocorrer em gibões. Passar implica, no mínimo, um modelo mental da aparência do corpo, mas o que isso diz sobre autoconsciência é discutido. As críticas ao método ficam para outro artigo.
Como sabemos
O procedimento e os resultados por espécie têm respaldo em revisões abertas, mas o artigo original de 1970 foi lido só pelo resumo.
Em debate: Os resultados com gorilas divergem: alguns animais passam, outros não, e uma avaliação de 2022 diz que, em geral, gorilas não mostram evidência convincente. O que a passagem no teste significa (autoconsciência ou só um modelo mental do corpo) é debatido e fica para outro artigo.
- Fato estabelecido: No estudo de Gallup (1970), chimpanzés marcados com tinta vermelha, depois de exposição prolongada aos seus reflexos em espelhos, mostraram sinais de reconhecer o próprio reflexo. [1] Resumo [2] Introduction, §1
Contexto: Chimpanzés testados por Gallup em 1970. · Limitações: Só o resumo do artigo original foi lido (o texto integral exige assinatura); número de animais, duração da exposição e medidas exatas não foram conferidos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No mesmo estudo, os macacos não pareceram ter essa capacidade. [1] Resumo [3] Introduction, §2
Contexto: Gallup (1970) testou chimpanzés e três espécies de macacos do gênero Macaca (segundo f3). · Limitações: Resultado de um estudo antigo; a afirmação sobre macacos em geral vem de revisões posteriores (a10). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No teste da marca original, o animal era anestesiado e marcado numa parte do corpo que normalmente não vê (cabeça ou orelha), observado sem espelho para registrar reações à marca e, por fim, observado de novo diante do espelho. [3] Introduction, §2
Contexto: Descrição do procedimento introduzido por Gallup (1970), feita por uma revisão de 2022 e não pelo artigo original. · Limitações: O local exato da marca e o tempo de exposição no estudo de 1970 não foram conferidos no artigo original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Quem passa no teste costuma tocar a marca olhando o espelho ou logo depois, e muitas vezes olha e pode cheirar os dedos. [3] Introduction, §2
Contexto: Comportamento descrito para o teste da marca em primatas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O teste tem controles: a observação sem espelho mostra se o animal reage à marca sozinho, e uma marca em outra parte do corpo, como o pulso, mostra se ele se interessa por marcas desse tipo. [3] Introduction, §3 [2] Material and methods, (c)(iii)
Contexto: O controle do pulso foi introduzido em gorilas por Suarez e Gallup (1981); o controle sem espelho aparece no estudo com gibões de 2009. · Limitações: São exemplos de estudos específicos; cada estudo combina os seus controles. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em estudos com gorilas, os que encontraram resposta dirigida à marca usaram marcas fora do campo de visão e controles de pistas de tato e de cheiro. [3] Resumo
Contexto: Avaliação de 15 critérios aplicada a estudos publicados com gorilas. · Limitações: Descreve o que os estudos positivos tinham em comum; não prova que esses critérios causam o resultado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma revisão de 1999 (Swartz e colegas), citada em 2009, registrou que 43% dos chimpanzés testados (42 de 97) e 50% dos orangotangos (3 de 6) passaram no teste da marca. [2] Introduction, §3
Contexto: Dados agregados até 1999, de animais de idades, origens e protocolos variados. · Limitações: A amostra de orangotangos é de seis animais. Os autores notam que a diferença pode refletir idade, motivação e método, e não só capacidade. Não verificamos dados posteriores a 2009. · Contagem de animais em protocolos distintos; não é taxa de uma população. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Resultados com gorilas são inconsistentes: até 2009, cinco gorilas de 15 testados tinham resultado positivo publicado, e uma avaliação de 2022 diz que, em geral, gorilas não mostram evidência convincente de autorreconhecimento no espelho. [2] Introduction, §3 [3] Resumo
Contexto: Gorilas-ocidentais de planície, em estudos publicados entre a década de 1970 e os anos 2020. · Limitações: A avaliação de 2022 é uma leitura da literatura, não um teste novo, e dois dos três autores são pesquisadores que publicaram sobre o teste desde os anos 1990. Rigor metodológico não explicou sozinho a variação. · Divergência real na literatura sobre gorilas; o debate sobre o que o teste prova fica para outro artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Até a revisão de 2009, não havia relato de teste formal da marca em bonobos, apenas três estudos de comportamento dirigido ao próprio corpo diante do espelho. [2] Introduction, §3
Contexto: Situação da literatura em 2009. · Limitações: Pode estar desatualizado: não verificamos estudos com bonobos posteriores a 2009. · Afirmação datada; ver pendências. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Revisões concluem que macacos, prossímios (como os lêmures) e gibões não têm evidência convincente de autorreconhecimento no espelho. [2] Introduction, §4 [4] Resumo
Contexto: Revisões de 2009 e de 2015 sobre primatas não humanos testados com espelho. · Limitações: Ausência de resultado positivo não prova ausência da capacidade; os autores de f2 lembram que o teste pode dar falso negativo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 17 gibões testados, nenhum usou o espelho para achar uma marca na cabeça, embora os animais fossem muito motivados a retirar marcas visíveis do espelho e dos próprios membros. [2] Resumo
Contexto: 17 gibões de três gêneros, em zoológicos da Austrália e dos EUA. · Limitações: Evidência negativa de um estudo, com um protocolo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Passar no teste implica, no mínimo, que o animal tem um modelo mental de como é sua aparência vista de fora. [2] Introduction, §2
Contexto: Interpretação mínima resumida pela revisão de 2009, ao lado da leitura mais forte de que o teste indicaria autoconsciência. · Limitações: Há leituras discordantes do que a marca mede; elas ficam para outro artigo. · Leitura mínima; a ligação com autoconsciência é discutida na literatura. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Crianças começam a examinar a própria cabeça diante da marca no espelho por volta dos 15 meses, e aos 24 meses a maioria reage assim. [2] Introduction, §2
Contexto: Crianças pequenas, segundo Amsterdam (1972) e Nielsen e colegas (2006), citados em f2. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O teste pode dar falso negativo: pressupõe que o animal tenha motivação para examinar marcas novas no corpo, e os gibões, que se catam pouco, poderiam falhar por isso. [2] Introduction, §4
Contexto: Discutido na revisão de 2009 em relação aos gibões. · Limitações: É uma possibilidade apontada pelos autores; eles testaram marcas no membro para checar a motivação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Variantes recentes dispensam a anestesia: em 2017, cinco chimpanzés acordados receberam dez adesivos na cabeça ou no rosto e viram vídeos ao vivo e atrasados de si; três dos cinco retiraram o adesivo de forma consistente nas condições de vídeo atrasado. [5] Resumo
Contexto: Cinco chimpanzés de um instituto de pesquisa no Japão; vídeo em vez de espelho. · Limitações: É uma variante com vídeo, não o teste clássico, e a amostra é de cinco animais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Science — Chimpanzees: self-recognition
Gallup, G. G., Jr. · 1970 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.167.3914.86 - Proceedings of the Royal Society B — The evolution of primate visual self-recognition: evidence of absence in lesser apes
Suddendorf, T.; Collier-Baker, E. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2008.1754 - Animal Cognition — Mirror self-recognition in gorillas (Gorilla gorilla gorilla): a review and evaluation of mark test replication
Murray, L. E.; Anderson, J. R.; Gallup, G. G., Jr. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10071-021-01592-3 - Primates — Mirror self-recognition: a review and critique of attempts to promote and engineer self-recognition in primates
Anderson, J. R.; Gallup, G. G., Jr. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10329-015-0488-9 - Royal Society Open Science — Chimpanzees recognize their own delayed self-image
Hirata, S.; Fuwa, K.; Myowa, M. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.170370
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)