Ciências da Terra

Terra preta de índio: o solo escuro e fértil dos antigos assentamentos amazônicos e o debate sobre como surgiu

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

A terra preta de índio é um solo escuro e de fertilidade incomum, em que partículas microscópicas de carvão dão a cor. Em Iranduba (AM), fósforo e cálcio extraíveis chegaram a ser de 1 a 3 ordens de grandeza maiores que no solo vizinho. Costuma ser descrita como resultado de ocupação humana prolongada, mas não há consenso sobre se houve intenção de fertilizar. Um estudo de 2021 propôs, para esse sítio, contribuição de depósitos naturais; outros pesquisadores contestam.

A maior parte da Amazônia tem solos muito intemperizados, ácidos e pobres em nutrientes (Oxisols e Ultisols, na classificação internacional), dominados por argilas como a caulinita, que retêm pouco nutriente. Em meio a eles aparecem manchas de solo escuro, a terra preta de índio, hoje agrupada com a terra mulata (marrom) sob o nome inglês Amazonian Dark Earths (ADE). A cor vem do carvão em partículas microscópicas, e as manchas costumam conter fragmentos de cerâmica. Segundo um estudo, os depósitos podem passar de 200 cm de profundidade e ter dezenas de hectares; a grande maioria dos sítios fica na Amazônia central e oriental brasileira. A arqueologia situa a formação em larga escala no Holoceno tardio, com pico de crescimento populacional perto de 1000 anos antes do presente (BP).

O carvão faz parte do trabalho da argila

Nos solos amazônicos comuns, a argila caulinita retém pouco nutriente. Na terra preta, segundo o pesquisador Doyle McKey, o carvão reduzido a fragmentos minúsculos, com superfícies oxidadas, passa a fornecer sítios que retêm íons de nutrientes.

O que há na mancha escura

Em Iranduba, os autores do estudo de 2021 mediram a diferença entre a terra preta e o solo vizinho: em média, 16,8 Mg de fósforo e 14,9 Mg de cálcio a mais por hectare no primeiro metro (Mg = megagrama, ou tonelada). O carvão e a cerâmica aparecem juntos nesses solos. Segundo McKey, o carvão reduzido a fragmentos minúsculos retém nutrientes que a argila caulinita, comum na região, retém pouco. São números de um sítio, não médias da Amazônia.

Como sabemos o que é humano e o que não é

Dois métodos se opõem no mesmo sítio, o Caldeirão. Silva et al. compararam estoques de nutrientes, razões de isótopos (de estrôncio, neodímio e carbono) e a idade por radiocarbono do microcarvão, e leram sinais de depósitos de rio muito antigos. Lombardo et al. apontam escavações com cerâmica, montículos e fossas feitas por pessoas, e dizem que o planalto fica acima da várzea. Cada grupo critica a escolha de evidência do outro, e ambos pedem comparação com outros sítios.

Intencional ou subproduto?

Mesmo entre os que veem a terra preta como obra humana, a pergunta sobre intenção segue sem consenso. Macedo et al. acharam terras pretas em várzeas do Solimões, que já são férteis, e concluíram que o enriquecimento ali foi não intencional. O argumento vale para esse ambiente: não mostra que todas as terras pretas de terra firme surgiram como lixo, nem que foram feitas de propósito. A resposta pode variar de sítio para sítio.

Usos atuais e limites da imitação

Maezumi et al. relatam que as terras pretas são reutilizadas por agricultores atuais, e que, no leste da Amazônia, uma agrofloresta policultural de cerca de 4.500 anos se intensificou com o desenvolvimento delas. Já a tentativa de copiar o solo só com biochar não reproduziu a fertilidade mineral duradoura, segundo a revisão de experimentos feita por Silva et al. Por isso, 'terra preta' moderna, feita com carvão e resíduos, não deve ser tratada como equivalente do solo antigo.

Como sabemos

Os fatos de composição e distribuição vêm de fontes abertas lidas, mas a origem das terras pretas segue em debate e algumas medidas vêm de um único sítio.

Em debate: A visão predominante nos textos lidos liga as terras pretas a ocupações humanas longas e a resíduos de assentamentos. Silva et al. (2021) propuseram, para um sítio, que depósitos naturais de rio forneceram parte dos nutrientes e do carvão; Lombardo et al. (2022) contestam, com evidências geomorfológicas e arqueológicas, e Silva et al. mantêm a hipótese em réplica. Ambos os lados dizem que um único sítio não basta para generalizar.

Fontes

  1. Nature Communications — A new hypothesis for the origin of Amazonian Dark Earths
    Silva, L. C. R.; Corrêa, R. S.; Wright, J. L. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-020-20184-2
  2. Nature Communications (Matters Arising) — Evidence confirms an anthropic origin of Amazonian Dark Earths
    Lombardo, U.; Arroyo-Kalin, M.; Schmidt, M. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-022-31064-2
  3. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas — Amazonian dark earths in the fertile floodplains of the Amazon River, Brazil: an example of non-intentional formation of anthropic soils in the Central Amazon region
    Macedo, R. S.; Teixeira, W. G.; Lima, H. N. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/1981-81222019000100013
  4. Anais da Academia Brasileira de Ciências — Pre-Columbian human occupation of Amazonia and its influence on current landscapes and biodiversity
    McKey, D. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/0001-3765201920190087
  5. Nature Plants — The legacy of 4,500 years of polyculture agroforestry in the eastern Amazon
    Maezumi, S. Y.; Alves, D.; Robinson, M. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41477-018-0205-y
  6. Nature Communications (réplica) — Reply to: Evidence confirms an anthropic origin of Amazonian Dark Earths
    Silva, L. C. R.; Corrêa, R. S.; Wright, J. L. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-022-31065-1
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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