Ciências da Terra

Terra bola de neve: o que sustenta as glaciações globais do Criogeniano e o que segue em debate

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Origem da vida

Entre cerca de 717 e 635 milhões de anos atrás, duas glaciações, a Sturtiana e a Marinoana, levaram geleiras ao nível do mar em baixas latitudes. Datações U-Pb em zircão indicam que o início da primeira e o fim das duas foram simultâneos entre continentes, e carbonatos de capa marcam o degelo. O que segue em disputa é o grau: oceano totalmente coberto de gelo ou com uma faixa de água aberta.

O Criogeniano é o período do final do Neoproterozoico em que a Terra teve duas grandes glaciações, a Sturtiana e a Marinoana (nomes de lugares da Austrália do Sul). A hipótese da Terra bola de neve diz que o gelo chegou a todas as latitudes, inclusive ao equador. O argumento tem três pilares: o paleomagnetismo, que usa a direção da magnetização guardada nas rochas para estimar a latitude em que se formaram; as datações radiométricas, que mostram se os depósitos glaciais de continentes diferentes têm a mesma idade; e os carbonatos de capa, camadas de calcário ou dolomito que cobrem os depósitos glaciais. Um mecanismo de realimentação explica como isso seria possível: gelo reflete luz (albedo alto), o que esfria o planeta e cria mais gelo. Quão completo foi o congelamento é a parte debatida.

Duas glaciações, durações muito desiguais

A glaciação Sturtiana durou cerca de 56 milhões de anos. Para a Marinoana, uma datação publicada em 2025 em depósitos da Namíbia indica cerca de 4 milhões de anos, e os autores veem nessa diferença rotas distintas para o degelo.

Como sabemos onde estava o gelo: paleomagnetismo

Rochas com minerais magnéticos guardam a direção do campo magnético da época em que se formaram, e dela se calcula a latitude original. Para a Sturtiana, polos paleomagnéticos da província ígnea Franklin colocam a Laurêntia no equador, e uma tufa vulcânica de 716,5 milhões de anos liga o gelo apoiado ao mesmo intervalo. O limite é o mapa: a posição relativa dos continentes depende da configuração assumida para o supercontinente Rodínia, e outra configuração muda os detalhes da paleogeografia.

Como sabemos quando: U-Pb em zircão e Re-Os em sedimentos

O zircão de cinzas vulcânicas intercaladas com depósitos glaciais é o relógio mais preciso para esse intervalo, porque cada cristal contém dois sistemas independentes de decaimento do urânio para o chumbo e a concordância entre eles serve de teste. O rênio-ósmio data matéria orgânica de folhelhos. Com isso, o fim das duas glaciações e o início da Sturtiana caíram em janelas de cerca de um milhão de anos em vários continentes. O início da Marinoana segue pouco restrito, entre cerca de 649,9 e 639,0 milhões de anos.

Carbonatos de capa: o rastro do degelo

Logo acima dos depósitos glaciais há camadas de dolomito ou calcário que marcam o fim de cada glaciação. A leitura clássica é que o CO2 vulcânico se acumulou por milhões de anos sob o gelo, o planeta aqueceu e o intemperismo intenso depositou esses carbonatos. A anomalia de oxigênio-17 na barita das capas marinoanas é compatível com CO2 muito alto, embora o metano liberado também explique o dado. É evidência indireta, de proxies, não uma medida do ar da época.

O debate: bola de neve dura, cinturão de água e a vida

Ninguém contesta o gelo em baixas latitudes; a disputa é o quanto do oceano estava coberto. Dados geoquímicos da Namíbia indicam água aberta durante a Marinoana, enquanto cunhas de areia equatoriais e a estabilidade do limite do gelo apoiado são lidas como compatíveis com o congelamento total. Os fósseis mostram que algas e outros eucariotos sobreviveram, o que pede refúgios. Modelos de cinturão de água precisam explicar degelos abruptos. Nada disso está resolvido.

Como sabemos

O gelo em baixas latitudes, a datação e os carbonatos de capa estão bem apoiados; o grau de congelamento do oceano segue em debate real e as fontes sobre ele foram lidas em parte.

Em debate: O gelo chegou ao nível do mar perto do equador, mas se o oceano tropical ficou todo coberto por gelo marinho ou manteve uma faixa de água aberta é discutido. Dados geoquímicos de uma seção da Namíbia apontam para água aberta; cunhas de areia equatoriais e a estabilidade de uma linha de gelo apoiado na Namíbia são lidas como compatíveis com o congelamento total. Os dois lados usam modelos e dados de regiões limitadas.

Fontes

  1. Science Advances — Snowball Earth climate dynamics and Cryogenian geology-geobiology
    Hoffman, P. F. et al. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1600983
  2. Science — Calibrating the Cryogenian
    Macdonald, F. A. et al. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1183325
  3. Nature — Triple oxygen isotope evidence for elevated CO2 levels after a Neoproterozoic glaciation
    Bao, H.; Lyons, J. R.; Zhou, C. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature06959
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Four-million-year Marinoan snowball shows multiple routes to deglaciation
    Tasistro-Hart, A. R.; Macdonald, F. A.; Crowley, J. L.; Schmitz, M. D. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2418281122
  5. Nature Communications — Marine oxygen production and open water supported an active nitrogen cycle during the Marinoan Snowball Earth
    Johnson, B. W.; Poulton, S. W.; Goldblatt, C. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-017-01453-z
  6. Science Advances — Large equatorial seasonal cycle during Marinoan snowball Earth
    Liu, Y.; Yang, J.; Bao, H.; Shen, B.; Hu, Y. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aay2471
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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