História do Brasil
Teresa de Benguela presidia um quilombo que, segundo os Anais de Vila Bela, se governava como um parlamento
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Teresa de Benguela é lembrada como a rainha do quilombo do Piolho, ou Quariterê, no vale do Guaporé, em Mato Grosso. Os Anais de Vila Bela, de 1770, registram que o quilombo se governava à maneira de um parlamento, com casa de conselho, e que Teresa o presidia, com poderes políticos, militares e judiciais. Em 1770, uma expedição saída de Vila Bela o destruiu. Quase tudo o que se sabe dela vem desse registro oficial da capitania.
O quilombo ficava às margens do rio Quariterê, também chamado Piolho, afluente do Guaporé, e reunia pessoas negras fugidas das minas de Mato Grosso, negros libertos e indígenas. As roças eram fartas: milho, feijão, amendoim e algodão, que era fiado e tecido; a expedição de 1770 encontrou até duas tendas de ferreiro. Os números do ataque variam conforme o estudo: cerca de cem moradores, nove mortos e 41 presos em uma contagem; 79 negros e 30 indígenas levados a Vila Bela em outra. A origem de Teresa é incerta, e o sobrenome Benguela provavelmente remete ao porto de embarque na África. Sobre a morte também há versões distintas, e o texto abaixo as separa do que está documentado.
O quilombo que voltou a existir
Depois de 1770, o local foi reocupado e passou a ser chamado de quilombo do Piolho, até ser destruído de novo em 1795. Uma pesquisadora observa que, nessa fase, a população tinha muitas crianças e traços de aldeia indígena, e discute se ainda era um quilombo no sentido estrito.
O documento que a nomeia
A fonte principal sobre Teresa são os Anais de Vila Bela, o registro oficial da capitania de Mato Grosso, que descrevem o ataque de 1770. É ali que aparece o título "rainha": os próprios moradores a chamavam assim, segundo o texto. O documento foi escrito do lado de quem combatia o quilombo, o que pesa na leitura: ele informa o que importava ao governo, como quantos eram, o que plantavam e como se organizavam, e silencia sobre o resto da vida de Teresa.
Um governo à maneira de parlamento
Os Anais descrevem uma casa reservada ao conselho, onde deputados entravam em dias marcados da semana, e uma rainha que presidia as reuniões e reunia poderes políticos, militares e judiciais. Uma antropóloga que estudou o caso destaca que essa forma de realeza distinguia o Quariterê de outros quilombos brasileiros, como Palmares. O mesmo estudo registra o rigor disciplinar atribuído a Teresa, com castigos duros a desertores, o que ajuda a evitar a imagem simplificada de uma comunidade sem conflitos internos.
Roças, tecidos e ferreiros
O quilombo não vivia apenas escondido: tinha roças de milho, feijão, amendoim e algodão, que era fiado e tecido, e duas tendas de ferreiro para fazer e consertar ferramentas. Reunia pessoas negras fugidas das minas, libertos e indígenas. Estudos discutem se vendia excedentes nas redondezas, mas isso é hipótese. O que os documentos mostram é uma comunidade com produção própria, divisão de trabalho e liderança reconhecida.
Fato, versão e memória
O que é documentado: a existência do quilombo, o governo em parlamento, a destruição em 1770. O que é versão: o nascimento de Teresa em Angola, a relação com José Piolho, os números exatos do ataque e a forma da morte. A memória recente fez dela símbolo: a Lei 12.987, de 2014, criou o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, em 25 de julho. Lembrá-la com esse peso não exige inventar detalhes; a história que os documentos permitem já é extraordinária.
Como sabemos
O núcleo (quilombo do Piolho, governo "em parlamento", destruição em 1770, lei de 2014) é bem documentado; origem, relação com Piolho, números e morte de Teresa têm versões divergentes e foram marcados como tal.
Em debate: A origem de Teresa, a relação com José Piolho e o momento em que assumiu o comando são debatidos: há quem date o quilombo de 1730 e o atribua desde então a ela, e quem fale em sucessão após a morte de Piolho.
Em debate: A causa da morte em 1770 aparece como recusa de comida, suicídio ou morte violenta, conforme a fonte; nenhuma delas é conclusiva.
Em debate: As contagens de moradores, mortos e presos no ataque de 1770 diferem de um estudo para outro.
Em debate: Sobre o quilombo de 1795, há pesquisa que o descreve como mais próximo de uma aldeia indígena do que de um quilombo.
- Evidência forte: Teresa de Benguela é apontada como líder, com o título de rainha, do quilombo do Piolho ou Quariterê, no vale do Guaporé, em Mato Grosso, no século XVIII. [1] [2]
- Fato estabelecido: Os Anais de Vila Bela, de 1770, registram que o quilombo se governava à maneira de um parlamento, com casa designada para o conselho, onde entravam deputados em dias marcados da semana. [1] [2]
- Evidência forte: Segundo o mesmo registro, Teresa presidia esse parlamento e tinha poderes políticos, militares e judiciais. [1]
- Interpretação: Segundo a antropóloga Maria de Lourdes Bandeira, a forma de governo por realeza distinguia o Quariterê de outros quilombos, como Palmares, e a rainha ficou conhecida por aplicar castigos duros a desertores. [2]
Avaliação de uma pesquisadora citada no estudo da ABA, baseada na documentação da época. - Fato estabelecido: Uma expedição saída de Vila Bela, por ordem do governo de Mato Grosso, destruiu o quilombo em 1770. [1] [2]
- Estimativa: O número de pessoas do quilombo atingidas no ataque de 1770 varia: cerca de cem moradores, nove mortos, 41 presos e mais de 30 fugitivos em um estudo; 79 negros e 30 indígenas levados a Vila Bela em outro. [1] [2]
Os dois estudos divergem nas contagens; por isso o texto usa "cerca de cem" e apresenta as duas versões. - Evidência forte: O quilombo tinha roças de milho, feijão, amendoim e algodão, o algodão era fiado e tecido, e foram encontradas duas tendas de ferreiro. [1] [2]
- Evidência forte: O quilombo reunia negros fugidos das minas de Mato Grosso, negros libertos e indígenas. [1] [2]
- Hipótese: A origem de Teresa é incerta, e o sobrenome Benguela provavelmente deriva do porto africano de embarque. [1]
Não há documento que fixe onde Teresa nasceu; a ligação com o porto de Benguela é uma inferência dos estudiosos. - Em debate: A relação entre Teresa e José Piolho e a data em que ela assumiu o comando são debatidas: ele aparece como seu companheiro em parte da bibliografia e como conselheiro da rainha em outra; há quem date a formação do quilombo na década de 1730 já sob a direção dela. [1] [2]
Parte da historiografia afirma que Teresa herdou o comando após a morte de José Piolho; o estudo da ABA o descreve como conselheiro da rainha. - Incerto: Teresa foi capturada e morreu em Vila Bela, mas as versões sobre a morte divergem: recusa de alimento, suicídio, ou morte violenta, e há relato de que sua cabeça foi exposta. [1] [2]
As fontes consultadas não coincidem sobre a causa da morte; o post registra o fato da morte em cativeiro e apresenta as versões como versões. - Evidência forte: Depois de 1770 o local foi reocupado e chamado quilombo do Piolho, até ser destruído de novo em 1795. [1] [2]
- Fato estabelecido: A Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014, instituiu o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, comemorado em 25 de julho. [3]
Fontes
- Impressões Rebeldes, Universidade Federal Fluminense (UFF) — Tereza de Benguela
consultada em 04/10/2026 - 25ª Reunião Brasileira de Antropologia (ABA) / IFCH, Unicamp — Quilombos, Cabixis e Caburés: índios e negros em Mato Grosso no século XVIII
consultada em 04/10/2026 - Câmara dos Deputados / Presidência da República — Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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