Evolução

Teoria neutra de Kimura (1968): a maioria das mudanças moleculares é neutra? O que resistiu aos dados

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Evolução biológica

Em 1968, Motoo Kimura propôs que a maior parte das substituições de nucleotídeos fixadas na evolução é neutra ou quase neutra e se espalha por deriva genética, não por seleção. Sobreviveu a ideia de que mutações neutras e quase neutras são comuns, e a extensão quase neutra de Tomoko Ohta; a tese de que a maioria das diferenças entre espécies é neutra segue em debate.

Antes de 1960, evolução se estudava por cruzamentos dentro da espécie. Quando biólogos passaram a comparar sequências de proteínas (hemoglobinas, citocromo c) entre espécies, viram que o número de aminoácidos trocados crescia com o tempo desde a divergência e era menor em regiões importantes para a função. Kimura leu isso como sinal de que a maioria dessas trocas não altera a aptidão: uma mutação neutra pode se espalhar por acaso, a chamada deriva genética (variação aleatória na frequência dos alelos, mais forte em populações pequenas). A seleção natural, nessa visão, ainda elimina o que é prejudicial, mas não explica a maior parte das diferenças moleculares.

Uma teoria nascida de uma conta

O argumento de 1968 partiu de uma aritmética: se cada troca molecular exigisse seleção, o custo em descendentes perdidos seria alto demais. A conta teve falhas, mas a ideia de que o acaso importa no DNA ficou.

A conta de 1968 e o que deu errado

Kimura estimou cerca de uma substituição de nucleotídeo a cada 2 anos em mamíferos e comparou com o limite de Haldane: uma substituição por seleção a cada 300 gerações (cerca de 1.200 anos, com geração de 4 anos). Se todas fossem selecionadas, o custo seria intolerável; logo, muitas seriam neutras. Críticos apontaram que ele tratou cada nucleotídeo como alvo de seleção, quando a unidade correta é o gene ou o aminoácido. Segundo Nei, somando a carga de mutação a conta talvez não seja absurda; segundo Kern e Hahn, ela é falha.

Como sabemos: proteínas, tempo e testes de seleção

A base original era comparar sequências homólogas entre espécies: a divergência crescia com o tempo e era menor em sítios funcionais. Isso é compatível com neutralidade, mas admite outras leituras. Hoje se usa o teste de McDonald e Kreitman, que compara variação dentro da espécie com diferenças entre espécies, separando mudanças que alteram aminoácidos das silenciosas. Em Drosophila, estimou-se que cerca de 45% a 50% das trocas de aminoácidos foram fixadas por seleção positiva; em humanos, a estimativa geral foi zero. Os testes usam um modelo neutro como hipótese nula, e as estimativas têm incerteza.

Ohta e a teoria quase neutra

Tomoko Ohta estendeu a teoria com mutações de efeito muito pequeno, cujo destino depende de seleção e deriva ao mesmo tempo. Quanto menor a população efetiva, mais mutações se comportam como neutras, e a fração do genoma sob restrição seletiva depende desse tamanho. Para Ohta, nas mutações quase neutras o valor absoluto de Ns (N, tamanho efetivo da população; s, efeito sobre a aptidão) deve ser pequeno, no máximo cerca de 2. Na seleção tradicional, esse valor seria pelo menos dez vezes maior.

O que sobreviveu e o que segue em disputa

Há acordo de que existem mutações neutras e quase neutras e de que a deriva genética importa. A disputa é sobre a proporção: Kern e Hahn (2018) veem seleção positiva e seleção em sítios ligados como predominantes e rejeitam a universalidade da teoria; Jensen e coautores (2019) respondem que a adaptação estimada diz respeito à pequena fração codificadora do genoma e que a teoria, ampliada, segue válida. As fontes divergem, e este texto não arbitra.

Como sabemos

A proposta e o debate atual estão bem documentados em revisões abertas; o texto original de Kimura (1968) não foi aberto e é descrito por revisões.

Em debate: Kern e Hahn (2018) defendem que a seleção molda o genoma de modo proeminente e que a universalidade da teoria neutra deve ser rejeitada; Jensen e coautores (2019) respondem que os dados continuam compatíveis com uma versão moderna, com deriva e seleção purificadora dominantes. O debate está aberto.

Fontes

  1. Molecular Biology and Evolution — Selectionism and Neutralism in Molecular Evolution
    Nei, M. · 2005 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/molbev/msi242
  2. Molecular Biology and Evolution — The Neutral Theory in Light of Natural Selection
    Kern, A. D.; Hahn, M. W. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/molbev/msy092
  3. Evolution — The importance of the Neutral Theory in 1968 and 50 years on: A response to Kern and Hahn 2018
    Jensen, J. D. et al. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/evo.13650
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Near-neutrality in evolution of genes and gene regulation
    Ohta, T. · 2002 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.252626899
  5. Encyclopedia.com — Kimura, Motoo (verbete biográfico)
    Encyclopedia.com (Complete Dictionary of Scientific Biography, Gale) · 2018 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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