Zoologia

Sensores mostraram teiús aquecendo o próprio corpo na época reprodutiva, até 10 °C acima do ambiente

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Em teiús (Salvator merianae) de cerca de 2 kg, sensores implantados registraram que, nas madrugadas da época reprodutiva, a temperatura do corpo ficou até 10 °C acima da do ambiente, mesmo sem sol para tomar. Fora dessa época, o corpo equilibrava com o da toca. É endotermia facultativa e sazonal, medida em animais criados em cativeiro, e não o calor constante de aves e mamíferos.

Répteis costumam ser chamados de ectotérmicos: a temperatura do corpo acompanha a do ambiente, e o calor que o metabolismo produz se perde depressa. Endotermia é produzir calor suficiente para manter o corpo acima do ambiente. O teiú (Salvator merianae, antes Tupinambis merianae) hiberna em tocas de abril a setembro e se reproduz na primavera. Em 2016, uma equipe com participação de pesquisadores da Unesp e da UFSCar publicou na Science Advances medições que mostram que, nessa época, o animal sustenta o corpo mais quente que a toca durante a madrugada, quando o calor do sol já se dissipou. Em 2024, um grupo da Unesp de Jaboticabal propôs que as mitocôndrias do músculo sejam parte da fonte desse calor.

Medir a perda de calor com um animal sem metabolismo

Para estimar a rapidez com que um teiú de 2 kg perde calor sem a interferência do seu metabolismo, a equipe mediu o resfriamento de um exemplar recém-morto levado a um ambiente de temperatura constante.

Como o calor do próprio animal foi separado do calor do sol

O desenho do experimento eliminou explicações simples, uma a uma. A medição foi feita entre 4h e 6h; os animais foram colocados em câmara de temperatura constante por 8 dias, sem sol e sem material isolante; a maior parte dos testes foi em jejum; a maior diferença aparecia com o animal quieto. Cada teste afasta uma explicação (calor guardado, atividade, digestão) e deixa a mais simples: o teiú produz calor.

O que o coração diz, e o que não diz

O artigo estima o metabolismo a partir da frequência cardíaca. O Q10 mede quanto uma taxa muda a cada 10 °C: processos bioquímicos costumam ter Q10 entre 2 e 3. Aqui, o coração acelerou 6 vezes com 10 °C a mais no corpo, ou seja, Q10 de 6 (cálculo conferido por nós), então a temperatura sozinha não explica. Mesmo assim, é um indicador indireto, e a elevação de 2 a 3 vezes do metabolismo é estimativa de modelo, não consumo de oxigênio medido.

Endotermia facultativa: o que é e o que não é 'sangue quente'

Medido: o corpo ficou até 10 °C acima do ambiente (5 a 6 °C no cenário modelado), só na época reprodutiva, com metabolismo estimado cerca de 25% abaixo do de tenreques de tamanho parecido. Interpretado: que isso seja a mesma combinação (mais calor produzido, menos perdido) de aves e mamíferos. O teiú não é endotérmico o ano todo: hiberna de abril a setembro, e a endotermia surge e some com a estação. Por isso, os autores falam em endotermia facultativa.

Teiú no Brasil: quem mediu e o que veio depois

Os animais foram criados em cativeiro na Unesp de Rio Claro, e a equipe incluía pesquisadores com afiliação à Unesp e à UFSCar, com apoio da FAPESP e do CNPq. Em 2024, um grupo da Unesp de Jaboticabal publicou na Acta Physiologica que o músculo do teiú tem, na primavera, mais respiração mitocondrial e mais desacoplamento via ANT. Segundo o resumo, os resultados sugerem uma fonte do calor, sem tremor, e não a provam.

Como sabemos

As medições vêm de um estudo-base com poucos animais de cativeiro e de um modelo; a hipótese do mecanismo muscular (2024) só foi lida pelo resumo.

Em debate: Origem da endotermia

Fontes

  1. Science Advances (AAAS) — Seasonal reproductive endothermy in tegu lizards
    Tattersall, G. J.; Leite, C. A. C.; Sanders, C. E.; Cadena, V.; Andrade, D. V.; Abe, A. S.; Milsom, W. K. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1500951
  2. Acta Physiologica (Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal) — Mitochondrial function in skeletal muscle contributes to reproductive endothermy in tegu lizards (Salvator merianae)
    Hervas, L. S.; do Amaral-Silva, L.; Sartori, M. R.; Guadalupe-Silva, A.; Gargaglioni, L. H.; Lerchner, J.; Oliveira, M. T.; Bícego, K. C. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/apha.14162
  3. Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Biblioteca Virtual, bolsa 20/10961-1 — Efeito da estação reprodutiva sobre a respiração e o desacoplamento mitocondriais de lagartos teiú (Salvator merianae)
    Bícego, K. C. (pesquisadora responsável); Hervas, L. S. (beneficiária) · 2020 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  4. Philosophical Transactions of the Royal Society B — The evolution of mechanisms involved in vertebrate endothermy
    Legendre, L. J.; Davesne, D. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2019.0136
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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