Neurociência

Aprender as ruas de Londres aumentou uma região do hipocampo de quem virou taxista

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Para obter a licença de táxi em Londres, é preciso decorar o labirinto da cidade, um exame chamado The Knowledge. Em 2000, a neurocientista Eleanor Maguire e colegas mostraram que o hipocampo posterior de taxistas licenciados era maior do que o de pessoas de controle. Em 2011, acompanhando candidatos por 3 a 4 anos, a equipe viu esse aumento aparecer só em quem passou no exame. O hipocampo participa da memória espacial.

O The Knowledge exige conhecer cerca de 25.000 ruas e milhares de pontos de referência, e a preparação costuma levar de 3 a 4 anos. Só cerca de metade dos candidatos é aprovada. Esse contexto permitiu aos pesquisadores separar efeitos do aprendizado de efeitos do ofício de dirigir. Em 2006, a comparação com motoristas de ônibus de Londres, que têm o mesmo tempo ao volante e estresse semelhante, mas seguem rotas fixas, indicou que o padrão se associa ao conhecimento espacial, e não ao ato de dirigir. Há um custo possível: os taxistas se saíram pior em adquirir novas informações visuoespaciais. O resultado sustenta a plasticidade do cérebro adulto, embora a influência de diferenças prévias entre os candidatos siga em aberto.

A região que encolheu

No estudo de 2000, uma região mais anterior do hipocampo era maior nos controles do que nos taxistas, e o volume dessa região diminuía com o tempo de profissão, enquanto o da parte posterior aumentava. Em 2006, os autores especularam que a representação espacial complexa pode ter custo para novas memórias.

O exame mais difícil de Londres

Para dirigir um táxi preto em Londres, é preciso passar por The Knowledge, que exige conhecer cerca de 25.000 ruas e milhares de pontos de referência da cidade. A preparação costuma levar de 3 a 4 anos, com exames rigorosos, e só cerca de metade dos candidatos é aprovada. Para a pesquisa, isso tinha uma vantagem: um grupo de adultos aprendendo, no mundo real, uma representação espacial enorme e bem definida.

O primeiro achado

Em 2000, a equipe de Eleanor Maguire, em Londres, analisou ressonâncias magnéticas do cérebro de taxistas licenciados e de controles. O hipocampo posterior dos taxistas era significativamente maior, e uma região mais anterior era menor. O volume se correlacionava com o tempo de profissão. Os autores propuseram que o hipocampo posterior armazena uma representação espacial do ambiente e pode se expandir regionalmente para acomodá-la, mostrando capacidade de mudança local no cérebro adulto saudável.

Taxistas e motoristas de ônibus

Uma objeção natural era que dirigir, o estresse ou o movimento do corpo poderiam explicar a diferença. Em 2006, o grupo comparou taxistas com motoristas de ônibus, que têm o mesmo tempo ao volante e nível parecido de estresse, mas seguem rotas fixas. Os taxistas tinham mais matéria cinzenta nos hipocampos médio-posteriores e menos nos anteriores. A experiência só se correlacionou com o volume nos taxistas. Os autores concluíram que o conhecimento espacial, e não dirigir, estava associado ao padrão.

Acompanhar quem aprende

O passo seguinte, em 2011, foi acompanhar as mesmas pessoas. Katherine Woollett e Maguire escanearam 79 candidatos no início do treino e depois de 3 a 4 anos, junto com 31 controles. Dos candidatos, 39 foram aprovados, e só neles surgiu aumento de matéria cinzenta no hipocampo posterior. Os reprovados e os controles não mudaram. Os aprovados também se saíram pior que os controles em tarefas de memória visual não relacionadas. Se as diferenças prévias entre quem passa e quem reprova pesam, ainda é pergunta aberta.

Como sabemos

Os resultados vêm de resumos oficiais de três artigos revisados por pares e do comunicado da universidade; o que é hipótese está marcado.

Em debate: O estudo de 2000 comparou grupos num único momento e, por si só, não distingue se taxistas têm um hipocampo maior por causa do treino ou se quem já tem essa característica se torna taxista. O trabalho de 2011, que acompanhou os mesmos candidatos, favorece o efeito do aprendizado, mas o comunicado da universidade registra que a influência de diferenças prévias entre quem passa e quem reprova continua em aberto.

Fontes

  1. PNAS (resumo via Europe PMC) — Navigation-related structural change in the hippocampi of taxi drivers
    consultada em 04/10/2026
  2. Hippocampus (resumo via Europe PMC) — London taxi drivers and bus drivers: a structural MRI and neuropsychological analysis
    consultada em 04/10/2026
  3. Current Biology (resumo via Europe PMC) — Acquiring "the Knowledge" of London's layout drives structural brain changes
    consultada em 04/10/2026
  4. University College London / Wellcome Trust, via ScienceDaily — Changes in London taxi drivers' brains driven by acquiring 'the Knowledge'
    consultada em 04/10/2026
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